07 Dezembro 2022, 21:07

A Carta – Sandra Januário

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

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Sei o que me espera em menos de nada: curtos circuitos, convulsões internas, discurso turvo e desalinhado e no escuro do silêncio e confusão que serei, a quem suplicarei por um discernimento que já não é meu e uma vida inteira que me roubaram?

“Cada um viveu tanto quanto amou “, escreveu Tolstoi.

Este é o meu ponto de partida.

Duvidei não raras vezes com quis viver, jamais cambaleei na conceção de como desejei morrer.

Deus tem muitos afazeres e vidas complicadas para cuidar, creio que por isso pouco interveio na minha.

Não me posso queixar, as exigências pelas quais se pautou foi a fatura que paguei pela sua desmedida generosidade, irrompeu por vezes em dor porque por definição foi feliz, cresceu em desafios porque por assunção foi branda.

Planeei perecer tão tarde quanto possível, no rescaldo de uma história intensa de significados, sem ser empecilho na vida dos que amo e peso para quem sonhei liberdade.

Já basta o que basta, as pernas dormentes, outrora ágeis, o corpo perro, no passado oleado, a solidão dos dias incolores preenchidos pelas rotinas coloridas da minha extraordinária descendência.

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Parece-me inevitável que a dada altura se viva através dos outros, o que não é necessariamente mau, uma vez que o habitáculo aos 70 anos agradece descanso e a cabeça paz, logo que os desígnios do universo não tivessem atropelado o meu desejo e me condenassem morrer esquecida de mim.

Sou cada vez mais triste sem o saber definir, o que não me impede de sorrir quando nos dias bons, sou invadida por memórias felizes numa espécie de volteio à luz do Sol.

Carrego a fé aos ombros e num dia bom como o de hoje, lembrei-me da cerimónia da benção das fitas da minha neta mais velha, do casamento da minha filha do meio e da viagem romântica que fiz a Nova Iorque num outono estival.

Apressei-me a passar tudo para o papel, para que ao mesmo possa voltar quando as palavras forem desertos povoadas de vazio e me falhar a adjetivação, as metáforas e flores para engalanar a narrativa.

Na dúvida, o meu caráter de ventania impele-me para a frente, na esperança de protelar o mais que possa a profecia de uma vida esquecida.

Viver é mesmo um exercício acrobático de cambalhotas e a minha história mudou no momento do diagnóstico, num segundo tramado, já não era eu, antes uma pessoa estranha.

O que de imediato me ocorreu foi o arrependimento de tudo o que deixei por fazer, como se a urgência do absoluto fosse garante de maior e perene espólio de memórias.

Acredito que a densidade seja mais do que investirmos no profundo de nós e se mormente se entende como um ato de coragem, hercúleo é o processo de emergir do buraco negro onde na dor nos escondemos.

Para alcançarmos o estatuto de lugar digno no mundo, único e irrepetível, urge acrescentar, mesmo na sombra, quando desaprendemos de ser na inevitabilidade das peripécias do destino.

Deito-me e acordo num mundo paralelo e labiríntico de imagens ancestrais que se misturam com outras que não consigo datar no tempo, sei o que me espera em menos de nada: encontrar as chaves no frigorífico, escrever em «post-it’s» o nome dos vizinhos, repetir conversas e tarefas, ir à Farmácia com uma lista de supermercado.

Anoiteço e amanheço num passado longínquo e num presente entorpecido, na certeza de que as rugas que me marcaram a pele e o coração são sinal de naufrágio em mar alto e sem regresso.

Anos a fio a adornar a alma, a desafiar limites, a calcorrear uma história que vivi e outra que inventei, para me render à condenação de não ser mais, apenas ir sendo numa versão apagada do que fui.

Não me interpretem mal, tenho em boa conta a vida que vivi, espaçosa, de latitudes tamanhas, de desamores em ciclos curtos de sofrimento, com ruído, balbúrdia e emoção, intensa nos afetos, absoluta no amor, feliz na soma dos dias.

Deus anda ocupado com um mundo insano e sem rumo, creio que por isso que não fez caso do meu plano.

Sei o que me espera em menos de nada: curtos circuitos, convulsões internas, discurso turvo e desalinhado e no escuro do silêncio e confusão que serei, a quem suplicarei por um discernimento que já não é meu e uma vida inteira que me roubaram?

Hoje foi um dia bom, escrevi-vos esta carta sem grandes pausas pelo caminho, sem recurso ao dicionário na procura de palavras esquecidas ou a fotografias para me lembrar dos vossos traços, (à exceção do momento em que pensei ligar o computador com o comando da televisão).

Casa são as nossas pessoas e é o que mais dói e lamento, esquecer-me de mim naquilo que sou por vós.

Abrandasse a doença os passos e nasceria de novo, só para sentir para além do que vejo e recordo, elevaria o valor do que fui como forma de contornar o que esqueço, acumularia excedentes na premissa de controlar o déficit da estrada da memória.

“A morte que nos mata morre connosco “, escreveu Saramago.

Este é o meu ponto de chegada.

Assim me vingo e morro poema de acordo com o plano.

No dia 21 de setembro assinalou-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer.

Num relatório da OCDE publicado em 2017, Portugal era o 4o país com mais diagnósticos por cada mil habitantes.

É a forma mais comum de demência e a morte neuronal de determinadas áreas do cérebro acarreta uma deterioração cognitiva progressiva e irreversível que se traduz num sofrimento difícil de colocar em palavras.

Cumprirão as minhas, a empatia e admiração que sinto por quem cuida e por quem morre poema.

Último comentário

  • Mais um belo texto da inconfundível Sandra Januário. Sempre solidária com causas tão nobres quanto esta e que ela “embrulha” de histórias envolventes e sentidas.
    Já é quase que uma “adição” que tenho: o ler, depois de espera ansiosa, a tua “carta”.
    Bjs.

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