07 Dezembro 2022, 19:22

A humanidade faz barulho. – Sandra Januário

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Agora que chegou aqui…

Ao longo do último ano, o MUNDO ATUAL tem conquistado cada vez mais leitores.
Nunca quisemos limitar o acesso aos nossos conteúdos, ao contrário do que fazem outros órgãos de comunicação, e mantivemos sempre todas as notícias, reportagens e entrevistas abertas para que todos as pudessem ler.
Mas precisamos do seu apoio. Para que possamos, diariamente, continuar a oferecer-lhe a melhor informação, não só nacional como local, assim como para podermos fazer mais reportagens e entrevistas do seu interesse.
O MUNDO ATUAL é um órgão de comunicação social independente e isento. E acreditamos que para que possamos continuar o nosso caminho, que tem sido de sucesso e de reconhecimento, é importante que nos possa ajudar neste caminho que iniciámos há um ano.
Desta forma, por tão pouco, com apenas 1€, pode apoiar o MUNDO ATUAL.

Obrigado!

Gosto de gente pespineta que se confeciona em lume brando para deixar apurar, que não se assusta com fins transformadores e que assume as suas dicotomias como as camadas essenciais da cebola e da vida.

Guardo uma lupa num lugar escondido à qual dou uso na demanda de me observar de perto.

Gosto de interiores mal amanhados e gente imperfeita, que expande e encolhe, que fermenta e mingua.

Perscruto os labirintos indecifráveis da natureza humana por pertencer a uma tribo que se adentra e ousa o voo tangente ao Sol, sem arriscar, contudo, a resistência das asas de cera e definhar no destino de Ícaro que caiu e se afogou no mar.

Poderia arriscar muita coisa, mas não a continuidade terrena, porque até ver é a única que conheço e sei.

Gosto de gente pespineta que se confeciona em lume brando para deixar apurar, que não se assusta com fins transformadores e que assume as suas dicotomias como as camadas essenciais da cebola e da vida.

Talvez por isso assuma como natural a contradição dos Homens.

Opinamos sobre vidas que não conhecemos e especulamos sobre o que julgamos saber, contestamos o que deveríamos aceitar e anuímos acerca do que urge reclamar, entregamos pouco do que nos diz e exigimos muito do que somos incapazes de dar.

PUB – CONTINUE A LER A SEGUIR



Almejamos banquetes faustosos de emoções, mas esgotamo-nos em dietas que não desequilibrem o peso da homeostase sentimental, sonhamos com amores de perdição, mas aplicamos parcimónia quanto baste para proteção do final infeliz.

Queremos muito, para logo a seguir não querermos nada, padecemos pelo mal e pela cura, inventamos histórias onde encaixar os sonhos e viramos as costas aos desafios por medo de tentar.

Pelo caminho são vastas as aprendizagens pessoais e sociais que doem.

Saímos destas relações com autoestima remendada, senão em farrapos, contaminados por relações tóxicas e improdutivas, dores poéticas, desconfiados e descrentes da natureza humana.

Não existe de facto nada mais fraudulento do que acreditar que se pode ser feliz sempre.

A felicidade é por si só extemporânea, assombrada pela crença que pode acabar de repente, uma espécie de alegria na guerra e excecionalidade que duvidamos merecer.

Após tratarmos a ferida, irrompemos a medo ou destemidos, em amores em segunda mão e por isso mais sábios, amizades mais profundas e por isso mais férteis, relações familiares mais equilibradas e por isso mais profícuas, na tentativa de que os braços não sejam demasiado curtos para agarrar esperança e alento que cubram o resto da existência.

Num círculo cármico, voltaremos a sucumbir ao fracasso de amores imperfeitos, afetos pela metade, compromissos voláteis, erros de casting.

Quererá isto significar que persistimos no equívoco quando nem toda a inquietude se traduz em certezas e nem toda a espera em conquistas? O que observo ao fazer uso da minha lente de aumento, é que sou entendida em muito pouco e existem questões intemporalmente irresolúveis.

Inestimáveis os contributos das Ciências Sociais, da espiritualidade, dos mergulhos internos, da psicoterapia, das relações reparadoras, do descascar das camadas da cebola e mesmo assim, aquém de tornar fácil o que se impõe irremediavelmente difícil.

Alguns de nós, voluntários expeditos em extrair da vida todas e quaisquer contradições pelo bem próprio e comum, sem preocupação em poupar na presente energia para um futuro mais apaziguador, (mesmo porque os sprints da alma têm fraca convivência com a passada lenta das corridas de fundo), outros, tartarugas escondidas na carapaça, numa solidão sozinha ou acompanhada, singular raramente plural, reservam à soma dos dias tempero com pouco ou nenhum sal e cozedura em banho maria, por força da cura que não chegou, da ferida que não sarou.

Ambos espécimes admiráveis por não desistirem da viagem, única coisa que não é permitida!

E quando o universo conspira contra e vociferamos revolta e mal dizer, não mais é do que amor zangado, prova cabal que continuamos apaixonados.

Desdenhamos para permanecer no que não queremos deixar morrer, para garantir que não acaba ali.

Jamais deixaremos de nos enamorar uns pelos outros, independentemente da intensidade e atrevimento que lhe conferimos, da história suave ou conturbada.

A premissa é imutável: ninguém se basta a si próprio e gostar de alguém agiganta-nos na certeza de que todas as insignificâncias do mundo são desprezíveis quando comparadas com a condição humana que só se cumpre no verbo amar.

E isto por si só é humanidade, faz barulho e dispensa lupa, porque visível à distância, concreto no abstrato, tangível no imaterial, próximo na lonjura, lugar de dentro onde ninguém é silêncio ou solidão.

Sem comentários

deixar um comentário