04 Julho 2022, 19:53

A nossa dívida a Ilídio Pinto – José Carlos Nascimento

Professor na Universidade do Minho

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Senti que eram parte um do outro e, juntos, eram parte da alma, que é a de Gaia. Algo de mágico, que não vos consigo descrever, mas que a minha alma sabe.

Para o bem e para o mal, sei que sou um homem com mais dúvidas do que certezas. Mas as certezas que tenho, são firmes. Uma delas é que se a minha casa é o Mundo, Gaia é o meu berço. E quando falo de berço, não falo de ser o local em que nasci. O local é irrelevante e não é berço, se não tivermos tempo para poder amadurecer as nossas ligações às gentes, às memórias, aos valores e às tradições. O local é irrelevante e não é berço, se não tivermos o tempo para lhe alcançar a alma: a alma que nos dá o sentimento de pertença, a alma que é a nossa raiz quando estamos longe, a alma que nos impele a voltar e a alma que nos formou e que nos fez aquilo que somos.

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Por isso, se digo que Gaia é o meu berço, é porque lhe conheço a alma. Mais do que conhecer, tenho-a em mim, como a tinham os meus pais e os meus avós. Desenvolvi a alma ao longo de toda a minha juventude e é por isso que quando preciso ou quero estar plenamente comigo, sempre regresso a Lavadores, à praia que dizem das Pedras Amarelas. Ali, junto ao mar e aos grandes rochedos da minha infância, consigo chorar a tristeza, celebrar os feitos, questionar os porquês ou decidir o futuro, com a força que nenhum outro lugar me daria. Ali sou eu, seja lágrimas ou sorrisos, porque ali está o lado materno da minha alma.

O outro lado da alma, essa cresceu junto ao Rio. A ouvir histórias de barqueiros e de travessias do Douro, a sofrer com os meus a subidas das águas durante a cheia, a partilhar uma isca de bacalhau na Rua Direita e a seguir, em dia de São Gonçalo, o som e a energia dos mareantes, como era o meu avô e que eu sou, por memória. A seguir ao longo de anos, pela mão do meu pai e com a minha filha pela mão.

Foi esta alma que ficou pequena e triste no dia em que o Ilídio Pinto nos deixou. Porque durante mais de duas décadas eu vi-o, ano após ano, trajando de verde de cerimónia, de luvas e cabeleiras brancas, percorrendo altivo as ruas de Gaia, carregando a cabeça de São Cristóvão, dando “vivas aos nossos benfeitores” e anunciando que “aqui vai o São Gonçalo”. O Ilídio era o símbolo maior dos mareantes do Rio Douro, levando o santo aos que o queriam beijar e, com isso, cumprindo a tradição e a festa.

E mais símbolo se tornou, quando deixou de integrar o cortejo e me apercebi que continuava a viver nele algo de mágico: é que nunca ele deixou o São Gonçalo, nem o São Gonçalo o deixou a ele. Senti que eram parte um do outro e, juntos, eram parte da alma, que é a de Gaia. Algo de mágico, que não vos consigo descrever, mas que a minha alma sabe.

Por isso, no dia em que nos deixou e em nome da minha memória, fui prestar homenagem a um homem que nos honra como gaienses. No Lugar de Gaia, no sítio onde nasceu e no sítio de onde o vimos partir. Deixou saudades e levou certamente saudade. Mas quem não teria, de um lugar, de um rio, de uma tradição e de um homem assim?

No próximo dia de São Gonçalo, quando gritar «E ele é nosso…» será o Ilídio Pinto que evocarei. Porque se a tradição não é de nenhum homem, são homens assim que lhe dão força e sentido. Homens que não partem, porque nos estão na alma. Que é de Gaia…

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