23 Janeiro 2022, 12:06

A raiz de todos os medos

Advogado – Valério, Figueiredo e Associados

Estamos perdidos numa matemática em que mil é muito, cem é imenso e dez é assustador.

Levamos quase dois anos de pandemia e ainda não aprendemos a lidar com ela. Não falo das incertezas da ciência que são, aliás, a sua maior virtude e o que a distingue da fé. Não falo, naturalmente, das vidas perdidas ou mesmo das adiadas, porque com essas não se lida, vai-se lidando. E não há um de nós que, de uma ou de outra forma, não vá lidando com isto, o melhor que sabe e pode.

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Tudo começou no número um: o primeiro caso confirmado devido à pandemia de Covid-19 em Portugal. Depois, o primeiro internado. A primeira morte. O primeiro recuperado, também. E os números foram crescendo, primeiro, para caírem depois, para crescerem outra vez, em tendências que cada um foi tentando explicar de maneiras diferentes, porque somos mesmo assim: precisamos de ter os pés assentes e cismamos quando o chão nos foge.

Começámos no número um, que tinha um significado claro: a Covid-19 tinha chegado a Portugal. Mas a partir daí, mergulhámos numa matemática com a qual nunca mais soubemos lidar.

Há dias, alguém me perguntava se não me preocupavam os números que estavam aí a galgar outra vez. Expliquei-lhe que não. Que eram números incomparáveis com os do ano passado e que, por isso, deveriam inspirar-nos confiança, ao invés de instilarem medo. Olhou-me com desconfiança.

Estamos perdidos numa matemática em que mil é muito, cem é imenso e dez é assustador. Se num dia morrem cem pessoas, é um horror; se morrem cinquenta é um drama; e se morrem dez é uma tragédia. Claro que cada morte é uma tragédia, mas pergunto-me como chegámos ao ponto de não sermos capazes de olhar para as coisas, simplesmente, como elas são. E penso como é insuportável que os números, que servem para contar, afinal, não contem para nada. Passaram a ser todos iguais, desde que anunciados a vermelho, com honras de última hora e semblante de armagedão.

Quase dois anos volvidos, não há indulgência que chegue para isto tudo. Isto que é, afinal, a prova de que a torrente de informação que nos chega, diariamente, não pode ser confundida com conhecimento.

A informação só se torna conhecimento se for escolhida, interpretada e enquadrada. Se nos permitir avançar, em vez de nos paralisar. Se vier no tempo e dose certa, para que sejamos capazes de fazer alguma coisa com ela, em vez de a soterrarmos sob a informação da última hora, a todas as horas.

De outra forma, não estaremos a fazer uso da informação. Estaremos a ser usados por ela. E é aí que devem começar, verdadeiramente, todos os medos.

Último comentário

  • Notável a clareza do raciocínio e a fluidez da escrita. Um retrato fiel do tempo que vivemos. Obrigado

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