24 Outubro 2021, 16:37

Afeganistão: Josep Borrell diz que governo talibã de ala dura mostra o que “esperar deles”

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Bruxelas, 14 set 2021 (Lusa) — O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, disse hoje que o novo governo interino afegão, “que não é inclusivo nem representativo” e é formado por elementos da “ala dura”, mostra o que se pode “esperar deles”.


“Desde que anunciaram o seu governo interino, que não é inclusivo nem representativo, e inclui pessoas que estão na lista de sanções das Nações Unidas, sabemos o que podemos esperar deles”, comentou o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, durante um debate sobre o Afeganistão realizado hoje à tarde no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.


Lembrando que “a constituição de um governo inclusivo e representativo”, com que os talibãs se haviam comprometido, era um dos cinco “marcos” acordados pelos 27, na recente reunião informal de chefes de diplomacia na Eslovénia, para definir o grau de “relacionamento operacional” com as novas autoridades no Afeganistão, Borrell apontou que esse compromisso “não foi de forma alguma cumprido”.


“É um governo de ala dura, em que alguns dos seus homens fortes estão na lista negra da ONU, e com um ministro da Educação que se estreou dizendo que o que interessa não é ter educação, mas sim ser piedoso. Por aqui podemos ver aquilo com que podemos contar”, disse.


Ainda assim, o Alto Representante insistiu na necessidade de ter um relacionamento operacional com os talibãs, enquanto novo poder de facto no Afeganistão.


“Para ter qualquer hipótese de influenciar os acontecimentos, não temos outra opção que não seja relacionarmo-nos com os talibãs. Isso não significa um reconhecimento. Significa falar, discutir e concordar, quando possível”, disse, recordando que o nível de compromisso depende de cinco marcos, acordados na reunião de Kranj, em 02 de setembro.


Nessa reunião, os 27 decidiram que as relações com os talibãs dependerão do seu “compromisso para que o Afeganistão não sirva como base para exportação de terrorismo para outros países”, “o respeito pelos direitos humanos, em particular os direitos das mulheres, o Estado de direito e liberdade de imprensa”, “o estabelecimento de um governo de transição inclusivo e representativo através de negociações entre forças políticas”, o “livre acesso a ajuda humanitária” e os “talibãs cumprirem o seu compromisso” de deixar sair do país todos aqueles que assim o desejarem.


Segundo Borrell, é também imperioso “intensificar contactos com Paquistão, Qatar, Rússia, China, Tajiquistão, Turquia e Uzbequistão”, que são atores-chave na região.


“E por isso, a nossa delegação [da UE] na Arábia Saudita vai enviar duas pessoas ao Qatar, e a partir daí vão tentar chegar a Cabul”, adiantou, reforçando o desejo da UE de continuar a ter uma presença no Afeganistão, se as condições de segurança o permitirem.


“A prioridade deve ser evitar ficarmos excluídos. A retirada dos Estados Unidos não deve representar ‘ipso facto’ a nossa exclusão geoestratégica”, defendeu, apontando que, para já, o importante é garantir que a ajuda humanitária chegue aos mais necessitados, assim como completar a operação de evacuação dos mais vulneráveis, “mas depois [é também importante] uma presença que permita seguir de perto o que acontece no país”.


Após quase duas décadas de presença de forças militares norte-americanas e da NATO, os talibãs tomaram o poder em Cabul a 15 de agosto, culminando uma rápida ofensiva que os levou a controlar as capitais de 33 das 34 províncias afegãs em apenas 10 dias.


Desde então, os combatentes islamitas radicais asseguraram em várias ocasiões a intenção de formar um Governo islâmico “inclusivo”, que representasse todas as tribos e etnias do Afeganistão, mas em 07 de setembro anunciaram um governo totalmente masculino, só com ministros talibãs, incluindo veteranos da sua linha dura, que governou o país entre 1996 e 2001, e da luta de 20 anos contra a coligação internacional liderada pelos Estados Unidos.



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