25 Outubro 2021, 15:14

Amor em tempos de Covid-19

Professor na Universidade do Minho

Gosto dele, porque gosto: genuinamente. Há uma dezena de anos – no dia em que o conheci, Dia de São Gonçalo – fui, de surpresa, convidado para almoçar em sua casa, no lugar de Gaia.

A história começa com um encontro ao final da tarde, num pequenino restaurante típico perto da Afurada, entre amigos de Gaia, já na segunda fase da vida. Por todos tenho muita estima, mas o Quim, um homem da minha geração e com quem estou apenas duas ou três vezes por ano, é alguém por quem tenho particular admiração.

Humilde, amigo do seu amigo, trabalha duro para sustentar a família que adora e é um homem bom e puro. Dos nossos melhores…

Gosto dele, porque gosto: genuinamente. Há uma dezena de anos – no dia em que o conheci, Dia de São Gonçalo – fui, de surpresa, convidado para almoçar em sua casa, no lugar de Gaia.



Uma casa modesta, mas à qual sempre associo o que disse ao convidar-me: “A minha casa é pequena. Mas se no meu coração, que é mais pequeno, cabem tantos amigos, também em minha casa há de haver lugar para mais um…” Nunca mais a esqueci, como não esqueci o significado desse almoço!

Porque falo do Quim? Porque o Quim teve Covid!

E contou-nos que viveu dias muito complicados no Hospital Eduardo Santos Silva e, embora não tenha chegado a estar na UCI, ficamos arrepiados ao ouvir o que aqueles dias ainda hoje representam.

Há duas frases que tenho de citar, de memória:
Primeiro quando nos disse: “Dei conta que estava a cair num poço. Fundo, no qual houve tempos em que pensei em tudo: na família, na mulher, nos filhos e nos netos. E no futuro, se haveria ou não… Mas no fundo do poço ouvia vozes que diziam o meu nome e sentia mãos que pareciam querer puxar-me para cima. E foi isso que me deu força para lutar.”

Depois quando nos falou da sua saída: “Saí ainda fragilizado, mas a sorrir. Com toda a gente a bater-me palmas, em grande: os poucos doentes que o conseguiam e tantos profissionais de saúde, por trás dos seus fatos de astronautas. Saí com um sorriso porque tinha resistido; saí com um sorriso porque era um sinal de esperança para os dez amigos doentes que continuaram na enfermaria e saí com um sorriso para dizer àqueles profissionais que o seu esforço e a sua dedicação podiam ser vencedores e faziam uma enorme diferença na vida de tanta gente.”

Percebi que foi duro o que passou, mas também percebi o que sentiu e que se preocupavam com ele, que as palavras que ouviu e os cuidados que lhe foram prestados, se não podem eliminar a memória do sofrimento, puderam criar uma memória positiva a que associa um grande reconhecimento e uma enorme dívida.

Na emoção das palavras, no estado de alma percebido, nos olhos vidrados do Quim, nós vimos não apenas a gratidão por ter recuperado uma boa parte da sua saúde, mas por lhe terem feito sentir que era alguém que contava, que era uma que pessoa que importava a todos. Como talvez poucas vezes na vida lhe tenha acontecido…

Eu sei que em cada dia, sobretudo durante a pandemia, o ritmo é avassalador e as solicitações sucedem-se. E, por isso, pergunto-me se, nesse frenesim, os profissionais que mantiveram o SNS a responder como respondeu e cuidaram de nós como cuidaram, já tiveram o tempo necessário para interiorizar o que o seu trabalho significou para os milhares de vidas que tiveram nas mãos e para os tantos mais que cá fora aguardavam. Mesmo em batalhas que não foram ganhas…

O Quim gostaria de agradecer a cada médico, enfermeiro e auxiliar, todos anónimos, que o trataram como se fosse alguém especial! Que, de facto, é…
Mas não sabia como e … por isso estou a escrever este texto: como um contributo pequeno e simbólico, que agradece por ele, pelos seus e por cada um de nós!

Obrigado a todos no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, por terem cuidado do Quim e de muitos mais, como cuidaram. Por assim, de forma tão exigente e tão nobre, terem contribuído decisivamente para o orgulho de um Povo que, face a tão grande adversidade, soube estar de novo à altura da sua História.

Haja saúde e… quem dela assim cuide. Também para que o Quim ainda recupere o restinho que ainda falta!

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