22 Setembro 2022, 10:23

Ana Joaquim investiga «relações» entre cancro e exercício físico em Bruxelas

Filipa Júlio Administrator

Ana Joaquim é um nome incontornável do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar de Gaia/Espinho, onde, para além do contacto muito próximo aos doentes, desenvolveu vários projetos de investigação, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de quem padece desta doença.

Em junho, passou a integrar uma das mais renomeadas organizações de investigação sobre a patologia. A European Organization for Research and Treatment of Cancer (EORTC), em Bruxelas, Bélgica, vai de encontro às suas aspirações de “investigar a doença”, para a “compreender melhor” e descobrir formas “inovadoras” de a abordar.

Quem conhece o serviço, nomeadamente a Unidade dedicada à patologia do Cancro da Mama, sabe bem como são fortes os laços que uniam esta médica às suas pacientes. E é fácil perceber porquê.
Quando decidiu estudar medicina, Ana Joaquim não pretendia exercer “uma especialidade de tratar e fechar a porta”.
Queria acompanhar os doentes de forma profunda. Escolher compreender o Cancro para ajudar os doentes “a viverem melhor do que quem recebia um diagnóstico semelhante há 20 anos”, quando era quase uma sentença de morte.

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Ana Joaquim viveu essa realidade de perto. Mas essa “história muito pesada de cancro na família” não a fez rejeitar o contacto com a doença. Pelo contrário, foi um dos motivos por que decidiu especializar-se na área.

“Sempre me agradou muito a parte humana da medicina. Queria ser pediatra, mas quando vi crianças doentes, percebi que não era por ali. Gosto muito de estudar, da investigação, da inovação e não gosto da parte cirúrgica. Encontrei tudo isso na oncologia. São doentes e famílias que acompanhamos durante muito tempo. Alguns até ao fim da vida, outros durante muitos anos até à alta”, pormenoriza.

E não se arrepende da escolha.

Ana Joaquim foi convidada a fazer, em setembro, uma apresentação sobre o tema «Exercício e Cancro»: “Espero conseguir demonstrar a validade científica do mesmo e que seja um passo no sentido do abrir o leque estratégico da organização”.

Ao fim de uma década de prática clínica, e alguma investigação, no Centro Hospitalar Gaia/Espinho, abraça agora um novo desafio.

A sua integração recente na European Organization for Research and Treatment of Cancer (EORTC), em Bruxelas, Bélgica, vai de encontro às aspirações de “investigar a doença”, para a “compreender melhor” e descobrir formas “inovadoras” de a abordar.

Depois de implementar projetos como o MAMA_MOVE Gaia After Treatment e MAMA_MOVE Gaia Comunidade, em Vila Nova de Gaia, Ana Joaquim é agora médica de investigação clínica nesta que é uma das principais instituições europeias de investigação na área do cancro. Prevenção, fatores de risco, tratamento cirúrgico, quimioterapia, radioterapia ou a qualidade de vida são os temas ali trabalhados.

Até junho, Ana Joaquim “dedicava apenas uma pequena parte do tempo à investigação, com suporte, mais ou menos especializado, de um pequeno número de pessoas que exerciam múltiplas funções” nos hospitais onde desempenhou funções.

Na EORTC, o objetivo “é produzir investigação” e a estrutura é “um mundo em si mesma”.

“Tenho aprendido muito sobre como desenhar e implementar investigação clínica de qualidade. O trabalho numa equipa multidisciplinar e multicultural tem sido uma mais-valia na minha evolução profissional, mas também pessoal”, comenta.

Em plenas funções, desde junho, Ana Joaquim é agora parte de um departamento médico composto por médicos e cientistas, que, como equipa EORTC, integra grupos de doenças oncológicas constituídos por médicos de vários hospitais europeus.

“É do trabalho conjunto e discussão no seio destes grupos que nascem as ideias que evoluem para conceitos. Muitos desses conceitos evoluem também para ensaios clínicos e projetos de investigação”, explica.

As várias fases de desenvolvimento de um ensaio, refere, para a produção da investigação, implica profissionais das mais diversas áreas, como Estatística, Operações, Regulamentar, Gestão de Projeto, Data managers ou Fármaco-vigilância.

“Nas fases iniciais, desenham-se e discutem-se os protocolos com comités científicos, internos e externos. Na fase de condução, forma-se, monitorizam-se, responde-se a questões e faz-se a revisão médica dos dados provenientes dos centros recrutadores. Em fases posteriores, há uma colaboração na elaboração dos artigos científicos e, ainda, no seguimento a longo prazo dos participantes”, acrescenta.

Inserida nos grupos de tumores de cabeça e pescoço e cancro da mama, doenças a que se dedica há mais de 10 anos, Ana Joaquim está envolvida em vários ensaios, em diferentes fases de desenvolvimento, nos quais tem aplicado os conhecimentos e procedimentos adquiridos nas primeiras semanas em Bruxelas.

“Recentemente, fui alocada, também, a um ensaio clínico de pré-habilitação baseada em exercício físico, em cancro da tiróide. Este está na fase de desenho do protocolo e é pioneiro na EORTC. Sendo a área do exercício físico, enquanto tratamento de suporte e Oncologia, uma área de interesse para mim, as tarefas relacionadas com este ensaio têm sido muito enriquecedoras”, adianta.

Da investigação à partilha do seu próprio conhecimento vai um passinho muito curto. Muito centrada no tratamento do cancro, a EORTC abre agora espaço à área dos cuidados de suporte, nomeadamente no que respeita ao potencial do exercício físico.

Ana Joaquim foi convidada a fazer, em setembro, uma apresentação sobre o tema «Exercício e Cancro»: “Espero conseguir demonstrar a validade científica do mesmo e que seja um passo no sentido de abrir o leque estratégico da organização”.

Em dois meses, a médica oncologista tem já a certeza que está a dar um grande passo no cuidado aos doentes oncológicos: “Até aqui, fazia-o através da clínica. Agora, sinto que o faço pela dedicação à inovação e descoberta de novas formas de prolongar a vida das pessoas e melhorar a sua qualidade de vida, com o objetivo de chegar ao maior número de pessoas”.

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Projetos de investigação em Gaia

Foi em 2017 que Ana Joaquim, primeiro na Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia, e, depois, no Hospital de Gaia, implementou projetos pioneiros de investigação na área do «exercício físico e cancro». O ONCOMOVE inclui, entre outros, o MAMAMOVE Gaia Under Treatment ou o MAMAMOVE Gaia After Treatment.

“O MAMAMOVE Gaia Under Treatment foi desenvolvido, primeiro, no Centro de Reabilitação do Norte e, durante a pandemia, na Liga dos Amigos do Hospital de Gaia. Logo desde o início, as pessoas sentem uma satisfação pessoal por controlarem alguma coisa (numa fase em que muito pouco é controlado por elas), e por interagirem com pessoas que estão a fazer o mesmo tipo de tratamento”, diz.

No que respeita ao MAMAMOVE Gaia After Treatment, o objetivo foi avaliar a qualidade de vida, força muscular, parte nutricional, composição corporal e aptidão cardiorrespiratória antes e depois de 16 semanas de exercício físico.

“Onde se notou maior diferença foi na força muscular, que, como sabemos, está relacionada com a mortalidade por cancro e com a saúde em geral dos doentes. Notámos melhorias na capacidade cardiopulmonar. E foi muito positivo porque implementamos a prática do exercício físico em quase 80 mulheres”, considerou.

Afinal, o que é o Cancro?

Por fim, perguntámos a Ana Joaquim: O que é o cancro?

“O cancro é uma doença que provem do facto de sermos seres vivos, constituídos por células. E as nossas células estão em constante morte e nascimento. Na verdade, o cancro vem do acaso. Na maior parte dos casos, vem de alterações genéticas que acontecem nesse desenvolvimento celular. Claro que há muitos fatores de risco, e o que fazemos influencia a forma como o nosso corpo evolui: o tabaco, o fazer ou não exercício, a forma como comemos, a história genética, mas, ao fim ao cabo, em todas as pessoas é o acaso que vai determinar se aquela pessoa desenvolve cancro e outra não”, respondeu.

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