04 Julho 2022, 08:11

Antigo primeiro-ministro francês diz que PSF tem de se reinventar e deve inspirar-se nos socialistas portugueses

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Paris, 22 abr 2022 (Lusa) — O antigo primeiro-ministro francês Jean-Marc Ayrault considera que o Partido Socialista deve reinventar-se, após ter obtido 1,75% dos votos na primeira volta das eleições presidenciais francesas, e deve procurar inspiração nos socialistas portugueses.


Em entrevista à agência Lusa, o antigo primeiro-ministro, que ocupou o cargo entre 15 de maio de 2012 e 31 de março de 2014, hesita em dizer se o resultado dos socialistas na primeira volta das eleições francesas foi um “golpe fatal”, mas reconhece que o Partido Socialista francês (PSF) está a “atravessar uma crise profunda”.


“Não é uma crise dos valores, das ideias, mas uma crise da organização, da maneira como o partido funciona e da oferta política que propõe aos franceses. Surgiu sem dúvida devido ao desgaste de se estar no poder, porque também é algo que acontece nos Republicanos [partido de centro-direita]”, refere.


Abordando a campanha da candidata socialista, Anne Hidalgo, o antigo governante considera que foi uma “campanha corajosa”, mas “ninguém ouviu as suas mensagens, o seu programa”: “Não foi culpa dela, simplesmente quer dizer que há um problema mais profundo. É preciso ser lúcido e olhar de frente para as coisas”, diz.


Jean-Marc Ayrault considera assim que é necessária uma “reforma profunda do PSF que irá exigir tempo, muito esforço, reflexão, análise, escuta e organização”, indicando que os valores representados pelos socialistas — como o ideal democrático, a justiça, o universalismo — não desapareceram, apesar de o “mundo ter-se alterado”, com a globalização, as alterações climáticas, a digitalização, e o impacto que esses fenómenos tiveram no mercado de trabalho.


Ayrault admite que essa reforma profunda poderá implicar uma mudança de nome, salientando que as organizações políticas atuais, “e designadamente o PSF, já não correspondem de certeza à época atual”.


No entender do antigo primeiro-ministro, os jovens hoje em dia “já não têm muita vontade em envolver-se em partidos políticas, apesar de não serem de todo indiferentes às questões da sociedade”, dando o exemplo das mobilizações a nível mundial contra o aquecimento global, pelos direitos das mulheres ou do combate ao racismo.


“É preciso ter tudo isso em consideração de maneira séria, metódica e humilde, tendo noção de que não será um milagre que irá fazer com que o PSF renasça das suas cinzas como a Fénix. Irão ser necessários muitos esforços”, reforça.


Questionado se faria alguma recomendação ao primeiro-ministro português, António Costa, tendo em conta que se encontra atualmente numa posição semelhante à de Jean-Marc Ayrault em 2012 — quando se tornou primeiro-ministro, Ayrault também era líder de um Governo com maioria absoluta -, o antigo chefe de Governo francês contrapõe que é António Costa que lhe deveria dar conselhos.


“É alguém que aprecio muito, que é muito popular em Portugal e eu percebo porquê: porque a sua política é boa. Se foi reeleito, é porque a sua política é justa e é boa, ele conseguiu tirar Portugal de uma crise, e pôs em prática princípios socialistas de maneira muito concreta”, frisa.


Ayrault destaca que, por essas razões, apesar das “especificidades nacionais” de cada país, o Partido Socialista português deve servir de inspiração aos socialistas franceses.


Realçando os “laços muito fortes” que existem entre portugueses e franceses, Ayrault frisa que os dois partidos “participam, em conjunto, na construção da Europa que, não se pode esquecer, é construída sobre valores”.


“Acho que precisamos de nos manter muito firmes nos princípios, e também estarmos extremamente atentos aos desejos sociais: não desiludir, não criar um fosso entre o poder e as bases”, indica.


“Por isso, temos de resistir, temos de nos aguentar. Mesmo quando a extrema-direita está a progredir, não nos devemos deixar influenciar pela ideologia da extrema-direita: não podemos fazer nenhuma concessão à extrema-direita”, reforça.



TA // JMC


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