16 Setembro 2021, 19:50

Apoio português leva ballet clássico a crianças cabo-verdianas no Mindelo

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Mindelo, Cabo Verde, 21 jun 2021 – O núcleo de ballet clássico da Academia Livre das Artes Integradas do Mindelo (ALAIM), desenvolvido conjuntamente com a Escola de Dança do Funchal, tornou-se o projeto mais importante daquela instituição cabo-verdiana e já envolve 60 crianças.


A ALAIM aposta na gratuitidade do ensino de rapazes, uma estratégia para promover o ballet na ilha cabo-verdiana de São Vicente, e dos 60 alunos, cerca de 20 são rapazes. “O que é surpreendente para qualquer lugar do mundo, até nas grandes escolas”, disse à Lusa Janaína Branco Alves, coordenadora da ALAIM e professora de ballet clássico naquele núcleo.


“Os rapazes possuem bolsa de estudo integral durante um ano e não pagam nem o traje, têm apoio para transporte, caso precisem, lanche. Apoiamos com tudo o que for necessário, em contacto com as famílias e as escolas para tentar ter deles o ‘feedback’ também”, sublinhou a coordenadora, que garante que a estratégia tem surpreendido, em termos de adesão masculina.


A criação deste núcleo era um sonho antigo e foi concretizada há nove meses, em parceria com a Escola de Dança do Funchal (Portugal), responsável por toda a parte pedagógica e metodológica.


“Desde a música, a linguagem, as técnicas que usamos, a direção e a coordenação pedagógica são mantidas em colaboração com a escola”, assegurou Janaína Alves Branco, natural do Brasil e radicada em São Vicente.


O ballet tem sido uma aposta da ALAIM, com objetivos ambiciosos a nível nacional.


“Todas as casas têm ‘a menina dos olhos’ e neste momento a nossa é o núcleo de ballet clássico, onde temos focado a nossa energia. É um desejo de muito tempo meu e de outras pessoas que fazem parte do projeto porque identificamos que a dança em Cabo Verde está num nível inferior às outras artes”, observou Janaína Branco Alves, explicando que existem no país festivais internacionais de música, teatro, pintura e outras artes, mas não de dança.


Assegurou que a questão da qualidade em Cabo Verde “não está em causa”, já que, entre outros nomes, apontou a bailarina e coreógrafa Marlene Freitas, reconhecida internacionalmente, pelo que o ballet clássico seria um pontapé de saída para desencadear este processo.


“O ballet clássico tem uma grande importância para criar essa dinâmica porque é a base de quase todas as danças, do contemporâneo, jazz, até da dança de rua, que buscam um pouco nas técnicas do ballet”, explicou Janaína Branco Alves, que inclui a “disciplina” como um dos fatores e consequência desta aposta.


A Academia Livre de Arte Integradas do Mindelo completou em janeiro último seis anos de funcionamento. Foi fundado por artistas, “derivado de uma inquietação” por na altura não haver um espaço que dinamizasse “com tanta intensidade” a formação artística informal para crianças jovens e adultos, recordou Janaína Branco Alves.


“Um exemplo forte é o curso de iniciação do Centro Cultural Português que tinha 26 anos e dava aulas numa biblioteca, ou então tinha de dividir, partilhar o espaço com outras atividades nos polos desportivos dos liceus”, explicou.


A responsável considerou que o espaço situado em Alto de Morabeza, cidade do Mindelo, inspirou outros projetos dentro e fora de Cabo Verde.


“Hoje em dia já há outros lugares, alguns inspirados naquilo que a gente acaba por fazer aqui, o que é bom, porque a cidade precisa. É um conceito tão forte que já temos no Brasil representações da ALAIM, com um espaço no interior de São Paulo chamado Caixa Preta, todo inspirado em nós, desde a filosofia, a forma de organização e gestão, e as oficinas, tudo”, apontou.


A instituição, que tem como padrinhos o Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, e a cantora Sara Tavares, funciona num espaço pertencente a uma seguradora nacional.


“Cederam de forma precária, ou seja, o espaço não é nosso e quando eles quiserem, saímos. No início dava alguma insegurança, o facto de não pagarmos renda, mas agora acho que ALAIM ganhou uma dimensão que não imaginávamos. Maior do que as nossas expetativas, com uma vida, uma dinâmica tanto nacional, quanto internacional que é maior do que a estrutura física”, considera a mentora do espaço, que acrescenta que mesmo que a academia perca a estrutura física, o conceito será mantido.


Dos 60 alunos que frequentam as aulas de ballet clássico na ALAIM, dos 4 aos 15 anos, 60% são bolseiros, através da Bolsa de Acesso à cultura do Ministério da Cultura e Indústrias Criativas, que financia este e outros projetos da instituição, e ao projeto Diversidade do Pró-Cultura e do instituto Camões, que financia o núcleo de ballet clássico, principalmente na deslocação de professores de Portugal para Cabo Verde.


No espaço da ALAIM são realizadas oficinas de teatro, aulas de música, dança, fotografia, tentando explorar todas as áreas, como recentemente a gastronomia, mas numa dinâmica mais reduzida devido ao contexto pandémico.



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