03 Dezembro 2021, 10:17

As ameaças à essência e alma da costa alentejana na visão de um biólogo

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Aljezur, Faro, 20 mai 2021 (Lusa) — Nas arribas da Ponta da Atalaia, Aljezur, Nuno Barros debruça-se sobre uma pequena planta de flor amarela e explica que só existe no Parque Nacional do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV), onde “habitam” 700 espécies de plantas.


Aquela é especial, uma biscutela-vicentina (‘Biscutella sempervirens spp. Vicentina’), como o é a espécie de tomilho (‘Thymus camphoratus’) que antes apontara, porque não se encontram em mais nenhum lugar do mundo a não ser na costa sul de Portugal. E Nuno Barros teme pelo futuro delas e de outras.


Biólogo marinho, ornitólogo, especialista em aves marinhas, Nuno Barros pertence também à associação ambientalista ANP/WWF e vive em Aljezur, de onde observa o PNSACV e cada vez mais preocupado.


E à Lusa, no chamado Ribat da Atalaia, onde existiu no século XII um complexo religioso islâmico cujos restos ainda são visíveis, explica que as suas preocupações são no essencial a agricultura intensiva e a pressão turística.


Quando se está prestes a comemorar o Dia Mundial da Biodiversidade (no sábado), o PNSACV é provavelmente, diz, a área protegida mais importante para a flora a nível nacional, onde existem cerca de 700 espécies, algumas endémicas (só existem ali).


E é uma área importante para as aves, seja como zona de confluência na migração pós-nupcial, seja como zona de nidificação, e é ainda rica em termos de flora e fauna marinhas, com habitats únicos e protegidos por lei.


Mas tem também uma zona de agricultura intensiva no Perímetro de Rega do Mira, que vai essencialmente de Vila Nova de Mil Fontes à Zambujeira, mas que se estende já mais para sul, até ao Rogil, no concelho de Aljezur.


É, diz à Lusa o especialista, um modelo de ocupação do território “que origina destruição de património natural protegido, degradação e abandono de solos e paisagem, contaminação por agroquímicos, e uso excessivo de água numa região onde esta é um bem escasso”.


É um modelo que não interessa à região e não lhe deixa nada, baseado na importação massiva de trabalhadores (“para uma zona que não tem condições para os receber”) e na exportação de 80% da produção. “Deixam pouco no país”.


E como se tal não bastasse Nuno Barros assistiu nos últimos anos a uma promoção “desenfreada” da imagem da região e do seu “paraíso perdido”, exponenciada nas redes sociais, que levou a um aumento de turistas que está a contribuir para a destruição de habitats, seja ao pisar ou colher, por exemplo, uma biscutela-vicentina, seja na existência de desportos motorizados em habitats dunares, seja na “explosão” de autocaravanismo selvagem que transformou as falésias em casas de banho.


“Vir fazer trilhos para a Costa Vicentina passou a ser um dos pratos principais do menu turístico, e os trilhos são estreitos e nem sempre são respeitados, porque não há controlo”, diz, acrescentando que mais a sul, na praia do Amado, estavam no ano passado 100 caravanas estacionadas, e que em toda a costa “as falésias ficaram inundadas de papel higiénico”.


“Vamos ver o que vai acontecer este ano”, diz, referindo-se à lei de novembro que só permite aparcar e pernoitar autocaravanas em zonas designadas para esse efeito.


O biólogo lamenta tudo o que se passa no Parque enquanto aponta a ainda preservada ribeira de Aljezur (onde minutos antes vira uma lontra, no centro da vila), a zona de sapal em direção à praia da Amoreira, ou enquanto aponta, já na Praia de Monte Clérigo, um melro-azul, ou depois os ninhos de cegonha-branca nas falésias, ou a gaivota-de-audouin, uma espécie ameaçada a nível global.


Nuno Barros diz que cerca de 300 espécies de aves passam pela região todos os anos. Entusiasmado fala ainda das aves rupícolas, que nidificam nas falésias costeiras, dos habitats prioritários a nível europeu, como os charcos temporários, como a maior parte dos habitats dunares, como as galerias de amieiros ao longo das ribeiras.


Mas dura pouco o entusiasmo. Ainda que a viver numa zona abaixo do perímetro de rega o biólogo teme por tudo isto e pelo PNSACV. A ocupação agrícola, diz, acaba por destruir o património natural protegido.


E diz algo que a Lusa ouviu de muitos outros habitantes do Parque. Assim: “Um dos grandes problemas da expansão da agricultura intensiva é a falta de monitorização, falta de fiscalização, falta de licenciamento, e falta de conhecimento da realidade prática no terreno”.


Falando das estufas quase até às falésias, temendo que a agricultura triplique porque o Governo assim o permite, Nuno Barros acrescenta que “há uma lógica quase de impunidade do uso do território, da degradação do habitat protegido, e há um certo sentimento de impunidade e de desigualdade entre o tratamento que é dado às empresas e o que é dado a população em geral”. Porque “estas empresas contribuem para a balança de exportações, mas é só isto que dão, são números”.


Enquanto a agricultura intensiva e as estufas aumentam todos os dias, se alguém quer fazer uma pequena obra em casa entra num difícil, moroso e “muitas vezes inglório” processo. E adianta Nuno Barros que ninguém sabe o que existe de facto no PNSACV e que o Governo tenta resolver problemas sociais criando aldeias de contentores dentro do Parque.


“Construir aldeias de contentores para manter o modelo insustentável de negócio que existe foi uma resolução que não foi do agrado das pessoas, sobretudo podendo triplicar o número de trabalhadores, de estufas e de área convertida”, avisa.


Nuno Barros gosta de viver no Parque, ele e os habitantes sabem que aquele é “um território privilegiado”. E é por isso que se revoltam com “o abuso de alguns visitantes” e o abuso que é permito a algumas empresas.


Por tudo isso gostaria, diz, que quando o Presidente da República fizer na região uma “Presidência Aberta” que olhe não só para as consequências, mas também para as causas da degradação do território litoral.


“As causas são um modelo insustentável de exploração agrícola do Perímetro de Rega do Mira, que destrói impunemente a natureza em área protegida, e prejudica a vida de quem lá trabalha e de quem cá vive”.


É preciso, diz, que, quando se fala do futuro da zona, “ter em mente que mais do que crescimento linear o que é preciso é valorizar a identidade local e os valores naturais”.


“E a identidade é tudo, a essência e alma da região, que engloba as tradições, a cultura e os valores naturais, e é isso que se está em risco de se perder”.


 


FP // HB


Lusa/fim

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