09 Dezembro 2021, 04:06

As artes sem número…

Professor na Universidade do Minho

O tempo de apreciar o modo como escolhe cada uma das flores da sua palete; de ver como as toca, entrelaça e combina; de observar o modo cuidado como adequa o tamanho de cada pé, para misturar cores e tonalidades, para compor o fundo; de assistir à autoavaliação do que vai surgindo e de tentar perceber as novas opções estéticas; de usufruir do afinar dos últimos detalhes.

Há artes que foram classificadas como maiores pela Humanidade. A última que mereceu esse consenso é a 7ª, associada à dimensão da imagem em movimento, a que chamamos cinema. 7ª Arte, porque se juntou a seis outras – cuja origem se dilui no tempo – e que são eloquentes manifestações de outras tantas dimensões da expressão humana.
Recordando-as, sem ordem particular, temos: a pintura, como arte da luz, da cor e da imagem; a música, arte maior na complexa dimensão do som; o teatro e a dança, associados à representação nos espaços cénicos; a arquitetura, que aprofunda a dimensão do espaço e as representações tridimensionais; a escultura, enquanto manifestação do volume e finalmente – que não menor – a literatura, como expressão sublime da palavra.



Música, dança, teatro, arquitetura, pintura, escultura, literatura ou cinema são dimensões reconhecidamente nobres de expressão dos artistas, dos mais anónimos aos grandes mestres, estes imortais na intemporalidade da obra que nos vão legando.
Sobre estas artes maiores deixo o verbo e a letra aos eruditos, aos conhecedores, aos homens e mulheres de cultura, a quem sabe…
Guardo para mim o falar das artes sem número, sem classificação, sem erudição, sem aplausos. Guardo para mim o falar da criação diária de pessoas que dominam as técnicas, que aperfeiçoaram o dom e o mister, e que todos os dias criam o belo, embora sem o reconhecimento que é devido aos artistas.
Um dos exemplos destas artes sem número sei-o na loja onde busco os ramos de flores que anseio oferecer. Ramos de flores, que quero belos, mas que nunca encomendo! Apenas os peço, no momento, ao balcão. Eu sei que demora mais tempo, porque tenho de esperar que façam o ramo. Mas este é um tempo que eu quero, um tempo que dificilmente usufruiria de melhor forma. É o tempo de ver o trabalho do criador, o tempo da performance, o tempo de apreciar todos os detalhes da execução de uma obra.
Poder ver fazer um ramo, por quem realmente sabe, não é para mim muito diferente de ouvir um músico, de ir ao teatro ou de assistir ao declamar de um poema. É igualmente um tempo de privilégio, que resulta de ver alguém usar as suas técnicas, o seu gosto e a sua arte, para, partindo de peças soltas, criar algo que nos enche a alma.
O tempo de apreciar o modo como escolhe cada uma das flores da sua palete; de ver como as toca, entrelaça e combina; de observar o modo cuidado como adequa o tamanho de cada pé, para misturar cores e tonalidades, para compor o fundo; de assistir à autoavaliação do que vai surgindo e de tentar perceber as novas opções estéticas; de usufruir do afinar dos últimos detalhes. O privilégio de ver a obra nascer do nada e transformar-se no todo, desde a primeira flor até ao corte das pontas da rafia que envolvem o ramo. O privilégio de constatar que a arte sempre nos rodeia mais do que imaginámos, de muitas formas, se tivermos o tempo e a disponibilidade de espirito para dela usufruir.
Não me recordo de outra loja na qual goste mais de entrar. Mas no final, quando pago e pego no ramo e me sinto feliz – porque é sempre belo o ramo que eu queria belo – fico também com uma sensação de dívida. Porque se paguei o ramo que levo, sinto que não reconheci devidamente a performance que levou à sua criação. Mesmo que o artista não tenha dado conta da sua atuação…
Talvez por isso, na última visita, porque tinha contexto e vinha a propósito, deixei no balcão o saco com os éclaires da Quinta do Paço, acabados de comprar e que era suposto levar para casa. Foi uma forma simbólica de agradecer, de aplaudir, de dizer “Bravo”! Talvez por isso, tenha escrito este texto!
Até porque, convenhamos, não fazia sentido atirar fores para o palco…

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