30 Julho 2021, 19:00

As espécies pandémicas

Estudante de Direito | Diretora de Marketing da ELSA – Universidade do Porto

Os otimistas são a espécie mais comum, mais dócil e mais encorajadora: falo daqueles com que diariamente nos cruzamos, seja no supermercado, na farmácia, no trabalho, que sempre nos oferecem um sorriso e entredentes nos dizem “vai ficar tudo bem”, “são só mais uns mesinhos”, “temos de ter paciência”.

Posso dizer que o ser humano é capaz de ser o fenómeno mais metamórfico alguma vez existente: ao longo da história, conhecemos todo o tipo de facetas e personalidades, que marcaram o percurso histórico de forma bastante particular e até peculiar.

Após 15 meses de pandemia, cabe-nos certamente olhar em nosso redor e perceber o que se alterou, o que se manteve, o que se revelou; mas, mais do que isso, cabe-nos refletir acerca de quem se alterou, quem se manteve, quem se revelou.

É facto que uma pandemia mundial serve para pôr as coisas em perspetiva; afirmo até que serve para pôr o ser humano à prova, oferecer-nos um novo rumo, dar-nos uma oportunidade de começar quase do zero, oportunidade de pensar – falo mais de uma mudança espiritual do que propriamente de estilo de vida.



Neste contexto, depois de vários meses de observação, posso dizer que descobri três tipos de espécies, emergentes da pandemia: os otimistas, os negacionistas, e os ignorantes.

Os otimistas são a espécie mais comum, mais dócil e mais encorajadora: falo daqueles com que diariamente nos cruzamos, seja no supermercado, na farmácia, no trabalho, que sempre nos oferecem um sorriso e entredentes nos dizem “vai ficar tudo bem”, “são só mais uns mesinhos”, “temos de ter paciência”. Em qualquer tipo de catástrofe, esta espécie é a mais necessária; não se interessam pelos pormenores feios, nem pelos problemas incessantes, talhando a sua conduta com base em esperanças vagas e em promessas vazias. Mas a verdade é que todos nós precisamos de um otimista na nossa vida, para acalmar as ondas e equilibrar o espírito.

A segunda espécie que comigo se cruzou são os chamados negacionistas: tentam ser perigosos, mas ninguém lhes passa cartão; creem ser as suas palavras uma arma afiada, para depois não magoarem ninguém; põem as garras de fora de cada vez que se fala em vacinação, medidas higiénicas ou até de vírus, alegando que tudo se trata de uma conspiração laboratorialmente criada. Claro que também precisamos de rir um pouco, e esta espécie será a mais indicada para o efeito, por isso não descarto a sua necessidade, recomendando uns pozinhos de negacionistas de manhã e antes de dormir.

Agora sim, chegamos à espécie mais perigosa: a classe dos ignorantes. Estes são aqueles que acreditam em tudo e em nada, qualquer coisa que ouvem é prontamente absorvida; mas o pior é o efeito ricochete que produzem: para além de contaminarem a sua própria classe, em menos de 5 minutos conseguem converter os demais à sua religião, levando com eles mais 5 ou 6 que por ali passaram – atrevo-me a dizer que esta espécie consegue ser mais contagiosa até que o próprio Covid-19.

Sou suspeita quando digo que estas três espécies são fundamentais ao nosso ser. Isto porque cabe-nos a nós ou nos identificarmos ou nos distanciarmos das mesmas: conviver com otimistas transmite-nos um pouco de segurança e de coragem; conviver com negacionistas faz-nos ser céticos de certas questões e pensar naquilo que é mais lógico; conviver com ignorantes, por outro lado, pode ter um de dois efeitos: ou repudiamos por completo ou adotamos o estilo e encaramos a vida sem preocupação.

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