09 Dezembro 2021, 05:02

As latas de tinta de Guel

Daniela Maia Autor
Administradora Hospitalar

Se me concentrar, consigo sentir o paladar das batatas fritas pála-pála ou das pipocas de rua que, em dias de sorte, acompanhávamos com sumol.

Hoje, a escolha da estação de rádio que, por defeito, sintonizo no carro, brindou-me com um improvável «Electricity» dos Orchestral Manoeuvres in the Dark.
Não estava preparada para um arrepio de nostalgia antes do café das 8. «Electricity», o hit com que nos despedíamos de 79, talvez seja a minha memória auditiva mais remota. Como berrava nos altifalantes das praias nos inícios dos anos 80.
De repente, estou entre barracas de praia são listadas em cores vivas e os nossos biquínis têm fitinhas que se atam em laçada. O meu é azul, com flores pequenas. E tenho um lenço com uma pala em plástico colorido na cabeça, listado como as barracas. Cheira a iodo e a creme nívea. Se me concentrar, consigo sentir o paladar das batatas fritas pála-pála ou das pipocas de rua que, em dias de sorte, acompanhávamos com sumol.

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Sorrio. Por esta altura, creio que deveria dizer: cheira e sabe ao tempo em que era feliz. Mas não é assim. Não creio que a nostalgia e a felicidade se possam confundir, e quando tal acontece, é uma partida que a memória nos prega.
Eu, que desde sempre vivi nos subúrbios de Gaia e pendulei, como tantos, entre o Porto e Arcozelo, sei que é uma partida perversa.
De inverno, com as praias desertas, percebíamos bem o quanto Gaia ficava a uma interminável viagem de tudo. Demasiado distante para se deixar ver.
As praias de Gaia podiam ser de Lavadores ou Miramar, qualquer uma delas tinha bem definida linha que separava a felicidade da miséria. Bastava subir a Rua da Bélgica, ou passar a fronteira da nacional 109 que percebíamos como era um privilégio não passar fome.
Ao entrar nas vilas semirrurais, cheiro não era a iodo, mas a esgoto a céu aberto; as listas coloridas das barracas, davam lugar ao negro das viúvas envelhecidas; as crianças, tristes perdiam a noção do tempo nas oficinas caseiras, insalubres, onde passavam os dias.
Como poderia este ser o tempo da felicidade?
Hoje, enquanto oiço os EMD e desço a avenida João Paulo II, em Arcozelo, deixo-me encantar pela explosão de cor a que Guel deu a forma de arcanjo num mural de arte urbana que acolhemos no centro da vila. Arcucellus.
Hoje, o arcanjo de Guel é o umbigo do mundo. Representa a beleza das conquistas nossa jovem democracia. Em orçamento participativo, os arcozelenses escolheram arte. Arte urbana, o movimento underground e a juventude. A escolha improvável de uma vila em tempos envelhecida e culturalmente carente.
E sob o anjo repousa um jardim. E o jardim é ponto partida para uma caminhada ladeia a ribeira e desagua no mar. E as gentes que caminham sorriem.
O meu tempo é hoje.
Se olho para trás é para celebrar o percurso feito e orgulhar-me dos filhos da terra que, como o Miguel, esbatem fronteiras, integram, elevam-nos e nos mostram o lado mais bonito da democracia.

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