03 Julho 2022, 22:39

“As videochamadas encurtam a distância, mas o toque é fundamental”

Susana Faria Administrator

Eduarda Sequeira viu as promessas de um futuro risonho como enfermeira, em Portugal, desmoronarem quando terminou a Licenciatura e, após várias oportunidades serem-lhe negadas, fez as malas e embarcou, em 2011, para o País vizinho. Costuma-se dizer que «De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento», mas foi em Cambrils, Tarragona, que a enfermeira, que trabalha numa residência para idosos, encontrou a estabilidade financeira e profissional que procurava há vários anos. Apesar de sentir falta do apoio familiar e da comida portuguesa, Eduarda Sequeira não pensa regressar a Portugal já que dificilmente encontraria as mesmas “condições laborais e pessoais”.

Porque decidiu emigrar?
Quando comecei o curso de Enfermagem havia, diziam, grandes hipóteses de conseguir emprego em Portugal. Mas, durante os quatro anos de curso, a situação foi mudando e, quando acabei, em 2008, era mais complicado conseguir emprego e o processo das «cunhas» estava instalado. Ainda trabalhei num lar em Portugal, mas as condições eram más…candidatei-me a várias bolsas de recrutamento de enfermeiros, mas nunca ficava bem classificada.

Como tem sido a experiência em Espanha?
A experiência aqui tem sido muito satisfatória. A profissão é reconhecida e valorizada e o ordenado compensa muito, já que o nível de vida é mais ou menos igual ao de Portugal. Além disso, fiz em Tarragona o Doutoramento e fui convidada pela Universidade, em 2015, para dar aulas sobre a pessoa idosa. Atualmente trabalho numa residência para idosos, a «Residència i Centre de Dia per a Gent Gran Baix Camp».

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Como se vive aí esta pandemia?
Foi e é complicado, principalmente, devido à falta de trabalhadores das diferentes áreas. No local onde trabalho não tivemos nenhum caso de Covid-19 até à data, mas temos muito trabalho para manter as medidas de segurança como a distância, as visitas ao lar e o correto uso da máscara. Além disso, as normas para as residências /lares mudam frequentemente e nem sempre têm muita lógica, o que faz com que seja mais complicado gerir as medidas, tendo em conta também a vontade dos residentes e, sobretudo, dos familiares.

Quais são os principais desafios pessoais e profissionais?
Queria alcançar uma meta que era fazer o Doutoramento e já consegui. Agora talvez falta fazer a especialidade em geriatria, mas para já não é o momento. Tenho estabilidade laboral e o objetivo é continuar sempre a melhorar e a progredir.

Como gere o facto de estar longe da família e dos amigos?
Essa é a grande questão…é o principal desafio de emigrar. Estar a 30 km não é o mesmo que estar a 1500km. As videochamadas encurtam a distância, mas o toque é fundamental. Não podemos, simplesmente, pegar no carro e ir para casa. Uma vez fora, claro, que nos adaptamos, fazemos novos amigos, conhecemos outras pessoas e, de repente, temos duas casas! Deixamos de pertencer só a um sítio e temos sempre a sensação de que falta algo. Tive a sorte de ser muito bem recebida e apoiada pelas pessoas daqui, principalmente no local onde trabalho. Aliás, a minha colega de trabalho tem mais ou menos a idade da minha mãe e sempre me tratou como uma filha. Sinto que é a minha mãe espanhola. Claro que os meus pais e a minha irmã são insubstituíveis, mas ter este apoio ajuda a suavizar a distância. Precisava só de um transporte direto para vê-los sempre que me apetece…

Do que sente mais falta?
Sinto falta da minha relação familiar. Depois, claro, que sinto também falta da comida portuguesa.

Vem com frequência a Portugal (ou vinha antes da pandemia)?
Sim, antes da pandemia ia com mais frequência. Nos primeiros anos tentava, a cada dois meses, fazer uma escapadinha a Portugal, mas depois, com as novas rotinas, ia menos vezes. Com a pandemia as coisas mudaram radicalmente. O ano passado nem sequer pude ir a Portugal para o Natal. Este ano sim, mas foi a segunda vez no ano que estive no meu País. Espero que tudo melhore para poder voltar a aumentar a frequência de viagens, sem arriscar a saúde de ninguém.

Está nos seus planos regressar definitivamente a Portugal?
Não. Nos primeiros anos sim, mas perdi essa ilusão. Quando penso sobre isso e, inclusive, quando falo com os meus pais, chegamos à conclusão que as condições laborais e pessoais que consegui aqui dificilmente conseguiria se estivesse em Portugal.

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