30 Julho 2021, 18:48

Atirei o pau ao gato: um conto para adultos.

Daniela Maia Autor
Administradora Hospitalar

Foi então que, mais de meio ano volvido, o milagre aconteceu. António chamou o guarda de turno e pediu umas calças mais largas. “Estas já não me servem”, disse.

Num reino muito, muito distante, viviam dois gémeos, o Joaquim e o António. Os rapazes eram em tudo idênticos. O nariz e os olhos da mãe, o queixo quadrado e o feitio do pai e uma tez escura que, só de olhar se percebia que não podiam ser boas reses. Não é de estranhar que ambos fossem muito mal afamados. Deles dizia-se de tudo. De pavio curto, bebiam mais do que a conta, provocavam desacatos, davam palpites sem que lhos pedissem, metiam-se na política; enfim tinham uma vida desregrada, espalhafatosa e perigosa.

Quando deram por Eliseu, o sacristão da terra morto, à saída da missa das 7h, a D. Etelvina não teve dúvidas:

“vi-O, sim senhor, era Ele. Por volta das sete menos um quarto. Perto da Igreja. Que fazia um moço daqueles perto da Igreja? Não seria para ir à missa, que nunca o viram por lá! O rapaz da falecida Maria das Dores. Reconheci-o logo pelos olhos e pelo nariz. Tinha um ar muito suspeito. Encostado junto à sacristia, a fumar, o herege! “

PUB – CONTINUE A LER A SEGUIR



Não havia que enganar. Trouxeram gémeos ao posto de polícia. Qual deles?
Após o terceiro dia de intenso interrogatório, nem os gémeos confessaram, nem a Etelvina conseguiu identificar um trejeito ou uma marca distintiva que permitisse encarcerar o bandido certo.

O povo estava impaciente. Aquele era um reino de pessoas de bem. “Prendam lá a escumalha, algum deles há de confessar!”

O Chefe Silva também não gostava de insegurança. Compreendia, por isso, e muito bem, os apelos do povo e a necessidade de fazer, rapidamente, justiça. Encarcerou os dois.

E assim se passaram os dias, as semanas, os meses.

O Joaquim e o António continuavam em tudo idênticos. Cresceu-lhes o cabelo, pelo mesmo cumprimento; despontou-lhes a barba, que suavizou os rostos angulares; e até o tom de pele, sem sol, clareou um pouco.
Nada disto permitiu à Etelvina, um juízo conclusivo.

Foi então que, mais de meio ano volvido, o milagre aconteceu. António chamou o guarda de turno e pediu umas calças mais largas. “Estas já não me servem”, disse.

Num grande alvoroço, juntou-se à volta do António todo o efetivo policial.

Trouxeram uma balança, pesaram os dois irmãos e confirmaram a suspeita: António engordara.

A partir daí foi tudo muito rápido, satisfazendo a vontade popular.

Dispensou-se a audiência, o contraditório e, atenta a produção de tão irrefutável prova material, marcou-se logo leitura da sentença para o primeiro dia útil da semana seguinte.

O Juiz estava especialmente inspirado naquela segunda feira. A decisão foi sábia e criteriosa, muito bem acolhida por todos os presentes, que a receberam com aplausos e por todos os que, não podendo acompanhar, há meses clamavam impacientemente por justiça.

No final da manhã, Joaquim foi condenado pelo homicídio do sacristão Eliseu e, consequentemente, o seu irmão gémeo, António, foi libertado.

Ainda hoje os netos e bisnetos da terra, ao recontarem esta história se emocionam ao reproduzirem a salomónica proposição maior que permitiu a aplicação da justiça: “Como todos sabemos, O que não mata, engorda.”

Não sei se O Leitor já passou pela experiência de, como eu, ter um filho que, em pequeno, sempre que conhecia alguém novo, perguntava ao ouvido “mãe, este é dos bons ou é dos maus?”

Neste caso, talvez se tenha confrontado, com as muitas armadilhas que nos lança a retórica maniqueísta. Uma das armadilhas é exigir que todos os contos encerrem com uma moral.

É por isso que Vos uma moral roubada. Reinvento-a por ter sobrevivido a muitos reinos, a muitos tempos e a muitos homens. Só assim vale a pena o crime de a continuar a plagiar com a alma e a ponta dos dedos:

“Não cair no ódio, nem na renúncia. Ser homem no meio de carneiros, ter lógica no meio de sofismas, amar o povo no meio da retórica.” Miguel Torga Diário, 1947.

Sem comentários

deixar um comentário