24 Maio 2022, 04:02

Cá de dentro

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Foi assim que a mãe que me inventou me ensinou ser e esta é porventura a única forma que conheço de caminhar sobre o fogo, desafiar o mais destemido dos dragões, enfrentar qualquer intempérie e aceitar todos os vértices e arestas que cabem nas melhores histórias de vida.

O primeiro lugar que nos acolhe é muito mais que um espaço fisiológico temporário que se expande anatomicamente para comportar as diferentes fases de crescimento e se transforma na premência de cumprir as necessidades básicas do embrião a bebé.

Trata-se de uma morada definitiva que se perpetua na forma de colo e amor absoluto de mãe.

É ao útero que desejamos regressar quando o Mundo pesa aos ombros, a adversidade se atravessa no caminho e a dor se instala sem piedade, único abrigo possível quando a vida cansa.

Tudo e nada é o que melhor define a mais rara forma de transcendência que é gerar um filho e a humanidade que se renova no ventre é indubitavelmente a maior responsabilidade que trazemos à vida, por vezes tão intangível que remete para angústias inconfessáveis e demasiado sofridas.

Em paralelo, a medida do medo é também medida de felicidade, porque nunca nada será maior, belo, duradoiro e obstinado que este amor que agasalha e confere sentido de ser.

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A mãe que me inventou é nas palavras de Miguel Torga, “Eterna mulher entre as mulheres”. Fez o que por instinto mimetizo com as minhas filhas: interpretou o choro, aliviou as cólicas, tratou a febre, largou a medo a mão nos primeiros passos, curou as feridas, suportou as birras, embalou os medos, expurgou a mágoa, invocou todos os anjos de luz e proteção.

Cumpre com excelência e louvor o que se institui ser o papel de mãe, mas o que acrescenta ao desempenho e caminho é de valor imensurável.

Ama antes de ser amada, aceita sem julgar, perdoa sem recriminar.

Proprietária de braços que encurtam qualquer distância e alma despojada que acomoda o tumulto do lado lunar onde passeiam os meus defeitos, possui tal vastidão que nunca me deixou adormecer sem antes visitar o sonho, calcorrear chão sem antes experimentar o voo.

Dinâmicas invertidas aparentemente, pura arte e engenho de modo a que pudesse acomodar o imprevisto e experimentar a liberdade do salto, não fosse eu, criança velha, por temor e conforto, acomodar-me ao certo e conhecido.

Hoje o que me sobeja em intensidade e arrelias compenso com a sua suavidade e permanência, ao que me subtrai no impulso e aceleração adiciono a sua e sabedoria e ponderação, ao que me esgota e consome no ritmo frenético dos dias acrescento a sua generosidade e altruísmo.

No dia em que me olhei ao espelho e o reflexo devolveu curvas femininas e identidade, soube que a maternidade seria o amor que me cumpriria.

À mesma fui parar trôpega e sem real perceção do que me esperava e na mãe que sou e que a cada passo aprendo a ser, vivem ecos e ensinamentos da minha.

Desafio a inquietude que tenho por inquilina com chavões filosóficos na procuro edificar corações bons num presente que não claudique na incerteza de um futuro onde tropece.

Para além das necessidades básicas que a minha condição exige cumprir, às sementes que germino reclamo respeito pela verdade de cada ciclo, uma espera paciente e atenta pela colheita, na certeza de que a raiz que nos agarra à terra fértil nos salvava da permeabilidade da superfície e assegura estrutura e composição que nutre de dentro para fora.

Foi assim que a mãe que me inventou me ensinou ser e esta é porventura a única forma que conheço de caminhar sobre o fogo, desafiar o mais destemido dos dragões, enfrentar qualquer intempérie e aceitar todos os vértices e arestas que cabem nas melhores histórias de vida.

Mãe tem sempre razão, particularmente quando diz que o teto é um céu pintado de estrelas e que o universo não é indiferente a quem aprende a desafiar-se no alcance de uma vida cheia e transbordante.

Afortunadas serão as minhas crias, se confluírem num mesmo sentido de eternidade e pertença e quando juntas rirem das minhas incursões poéticas. Por favor não esqueçam, serei sempre voz no vosso ouvido e batida no vosso coração, porque a natureza e desígnios vários assim o determinaram e porque o meu legado se repetirá em vós, como o da vossa avó navega em mim.

Vivam a maternidade sem culpa pelo investimento que emprestarem à condição de mulher, façam do colo uma espécie de casulo onde os vossos filhos poderão regressar sem vergonha ou prurido, à vivência mais embrionária, despida e protegida que alguma vez conhecerão.

No poema de Eugénio De Andrade, seremos sempre os meninos que adormecem nos olhos da mãe, que procuram preencher vazios, sarar feridas, apaziguar medos, vencer tempestades, junto do único amor que não possui limites ou barreiras, que é história eterna, tempo sem pressa, memória indelével, luz que não se apaga, eco que perdura, regresso ao lugar que nos gerou.

Cá de dentro recolhi vezes bastantes ao útero, na procura de redenção, na esperança de cura.

Cá de dentro recolhi as minhas filhas ao ventre infinitas ocasiões, na demanda de proteção, na urgência de as ter salvo de tudo o que magoa.

Cá dentro fiz-me filha, mãe e mulher e incapaz confesso de estar à altura do modelo, uma coisa é certa, nunca estarei só, nunca as deixarei sós, não fossemos nó cego que transcende qualquer definição.

Cá de dentro aprendi que vida partilhada é infinitamente mais feliz.

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