23 Maio 2022, 22:04

Cães de alerta médico – Anjos de quatro patas e coração doce

Marta Almeida Carvalho AdministratorKeymaster

Os animais de companhia, sobretudo os cães, possuem uma perceção bastante desenvolvida das emoções humanas, conseguindo detetar se estamos tristes, aflitos, preocupados ou felizes. E se é do conhecimento geral que os seus sentidos são muitíssimo mais apurados que os nossos, principalmente a audição e o olfato, poucos saberão que alguns têm características que os torna especiais, detetando, através de alterações fisiológicas e corporais, crises associadas a doenças graves. O Mundo Atual foi conhecer alguns desses heróis e perceber o que mudaram na vida dos seus tutores.

“A partir do momento em que a RETINA entrou na minha vida, as crises de hipoglicemia baixaram drasticamente, pois ela faz uma pré-marcação. Antes de eu entrar em crise já me está a avisar que vou ter essa quebra, adiantando-se, normalmente, entre 15 a 30 minutos, o que faz com que eu tenha tempo para tomar todas as medidas para reverter a situação”.
Fernando Santos é tutor da RETINA, uma cadela de alerta médico, resgatada de um abrigo e treinada pela Associação Pata D’Açúcar na deteção de alterações de glicémia.
A associação nasceu em 2016, após um ano experimental, como resultado de um desafio lançado por um diabético a um treinador de cães.

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“Os excelentes resultados obtidos no ano experimental deram origem à sua criação com o objetivo de poder ajudar, simultaneamente, pessoas com diabetes tipo 1 e cães abandonados, procurando, dessa forma, contribuir para a diminuição da taxa de abandono de animais no nosso país”, explica, ao Mundo Atual, Nuno Benedito, presidente da associação.
E o que é, especificamente, um cão de alerta médico?
“Eles auxiliam o seu tutor na gestão da doença, enquadrando-se no conceito de Cães de Assistência, já que, em Portugal, a designação de «alerta médico» ainda não se aplica de forma frequente”.
Estes animais alertam, através de sinais e indícios comportamentais, sobre situações de crise iminente, associadas a doenças que podem causar perda potencial de consciência, nomeadamente diabetes, asma, doenças cardíacas, alergias a fatores ambientais, entre outras. A Pata D’Açúcar é a única associação, a nível nacional, que se dedica a esta causa e só na área da glicémia, já que ainda não existem iniciativas semelhantes relativamente às outras doenças.

“Os excelentes resultados obtidos no ano experimental deram origem à sua criação com o objetivo de poder ajudar, simultaneamente, pessoas com diabetes tipo 1 e cães abandonados, procurando, dessa forma, contribuir para a diminuição da taxa de abandono de animais no nosso país”

Heróis em ação: elementos valiosos nas famílias

A ESTRELA, a EASY, a RETINA e o LINK são alguns dos heróis que, diariamente, auxiliam os seus tutores na gestão da doença. Os sinais que lhes dão variam de animal para animal, embora o objetivo seja idêntico: alertá-los para a crise que está prestes a chegar. E se a EASY tem por hábito raspar com a pata na perna da tutora, alternando com um latido, já a ESTRELA fixa o olhar no dono, muito atenta, evitando qualquer interação.
“Ela começa por raspar nas pernas e, se não lhe dou logo atenção, começa a ladrar. Por vezes alterna a marcação, ladra e raspa nas pernas ao mesmo tempo”, explica Carla Correia, tutora da EASY.
Nuno Moniz menciona uma mudança no comportamento inicial da ESTRELA, que do raspar passou para uma maior serenidade.
“Fica com um olhar esbugalhado e muito atenta a mim, sem deixar fazer-lhe festas, e a ladrar. Se formos na rua, salta-me para cima como se fosse brincar mas, seguidamente, afasta-se e fica sentada, imóvel, só a olhar para mim”, conta.

Renato Loureiro, sofre de diabetes tipo 1 há cerca de 28 anos, tendo-lhe sido diagnosticada aos 18. O filho, Lucas, sofre do mesmo desde os seis e o LINK entrou na vida de ambos como uma ajuda inigualável, trazendo-lhes uma segurança que antes não tinham e monitorizando-os em simultâneo.
“Ele tem várias formas de alertar. Normalmente faz um ganido suave, uma vez que é um cão muito sereno e discreto”, refere o tutor, salientando que, por vezes, a alteração dos comportamentos habituais “é sinal de que a glicémia deve ser medida”. Quando se trata do Lucas, e no caso de este estar a dormir, são os pais que o LINK avisa.
“O mais impressionante é que estando o Lucas em hipoglicémia, normalmente avisa-me a mim ou à mãe. Já aconteceu, várias vezes, eu estar na sala, o Lucas a dormir no quarto e o LINK vir-me chamar”.
E para além de monitorizar ambos os tutores, LINK já detetou quebras de glicémia em desconhecidos.
“Em março fui à minha consulta de rotina no Hospital de Viseu. Enquanto aguardava, ele dirigiu-se a um jovem, mostrando-se inquieto, levantando o focinho e cheirando-o. Perguntei ao rapaz se estava em hipoglicémia e ele anuiu timidamente. Foi levado de imediato para tratamento, graças àquela marcação”, conta o tutor.
Já a RETINA desenvolveu um comportamento que não deixa de ser surpreendente.
“Quando pressente uma quebra de açúcar, a reação dela é ladrar e ir, de imediato, buscar a bolsa do medidor de glicemia”, explica Fernando Santos, acrescentando que tem vários espalhados pela casa e no local de trabalho, onde a cadela é presença constante.

“Ela começa por raspar nas pernas e, se não lhe dou logo atenção, começa a ladrar. Por vezes alterna a marcação, ladra e raspa nas pernas ao mesmo tempo”

NUNO MONIZ E ESTRELA

Nuno Moniz | 33 anos | Ator e músico | Amadora | Diabético desde os 15

Estrela | 2 anos | Resgatada de um abrigo

“A partir do momento em que a ESTRELA entrou na minha vida, passei a ter alertas sobre variações de valores ainda antes de eu as sentir. A sua presença, e do seu nariz atento, lembra-me de que não estou sozinho. O apoio emocional que ela dá estende-se à minha saúde mental. O entendimento entre nós é cada vez maior, e a nossa relação é de igual para igual. O meu carinho por ela é tão grande que é impossível traduzir em palavras. Para além dos laços que se criam e se estreitam, ela tira-me das situações mais críticas da diabetes, o que é extremamente recompensador”.

Projeto «Pata D’Açúcar»

Desde o início da atividade, em 2017, a Pata D’Açúcar já treinou 18 animais, estando a preparar mais dois no programa deste ano, um destinado a um tutor em Lisboa, outro em Lamego.
“Os nossos cães estão distribuídos por todo o país, de Norte a Sul”, diz Nuno Benedito, salientando, ainda, que estão abertos à possibilidade de enviar animais para o estrangeiro.
A ação centra-se na seleção, treino e preparação de cães resgatados de abrigos, para posteriormente serem cedidos gratuitamente para tutela de pessoas com diabetes, que têm de ser associadas. No entanto, também respondem a solicitações de sócios que já tenham um cão, desde que o mesmo reúna as condições necessárias para a realização dos trabalhos.
O treino deste tipo de animais só pode ser feito com recurso a metodologias positivas e atendendo sempre ao bem-estar animal, já que, “de outra forma, não se consegue obter a espontaneidade fundamental para as funções que desempenham”.
Tendo por base a boa seleção dos animais, o treino consiste, ainda, num minucioso controlo sanitário dos mesmos. Após a seleção inicia-se a fase de ambientação e socialização inter e intra espécie, que está presente ao longo dos trabalhos. A fase seguinte passa pela construção de jogos de estimulação e discriminação olfativa e finalmente a adequação do treino ao seu ambiente real. Após a consolidação do adestramento, procede-se à monitorização dos cães ao longo da sua vida, de forma a garantir as melhores performances.

Treinos rondam os 4 mil euros por cada cão

“Este é um trabalho contínuo ao longo da vida do animal, mas podemos balizar a preparação base em cerca de um ano”, refere o responsável, garantindo que, por ser uma associação sem fins lucrativos, apenas são contabilizados os gastos reais “que rondam os quatro mil euros por cada cão, sem qualquer base lucrativa”, não beneficiando de qualquer apoio estatal.
O trabalho é suportado por várias marcas de referência – que se juntaram à associação, atuando como mecenas – e a divulgação tem sido feita através de algumas figuras públicas que se associaram a esta causa como embaixadoras.
O programa é constituído por uma equipa multidisciplinar, composta por 20 elementos entre os quais diversos profissionais de diferentes áreas, cujos contributos são inteiramente em regime de voluntariado: médicos, enfermeiros, advogados, veterinários, treinadores especializados na área de deteção, entre outros.
Para os tutores, a associação dispõe, também, de um serviço permanente de consultoria técnica em matéria de treino e de veterinária.
Inspirado no nome da associação que o criou, o projeto Pata D’Açúcar, abre novos horizontes no auxílio às pessoas com diabetes no que concerne ao seu autocontrolo.

“Em março fui à minha consulta de rotina no Hospital de Viseu. Enquanto aguardava, ele dirigiu-se a um jovem, mostrando-se inquieto, levantando o focinho e cheirando-o. Perguntei ao rapaz se estava em hipoglicémia e ele anuiu timidamente. Foi levado de imediato para tratamento, graças àquela marcação”

“A complementaridade entre os equipamentos disponíveis e o cão, enquanto animal de companhia, reforça a vigilância permanente dos valores de glicemia a que pessoa com diabetes está sujeita”, refere Nuno Benedito, garantindo que os animais podem ser trabalhados, de forma a ajudar em variadíssimos tipos de doenças mas, no caso em particular dos cães trabalhados pela Associação Pata D’Açúcar, estes destinam-se apenas a auxiliar pessoas com diabetes tipo 1.

FERNANDO SANTOS E RETINA

Fernando Santos | 52 anos | Optometrista | Amadora | Diabético desde os 28

Estrela | 4 anos | Abandonada presa a um caixote do lixo e resgatada

“Comecei como família de acolhimento e acabei por ficar com a RETINA. Como sou assintomático, tê-la sempre ao meu lado é uma mais-valia. Sinto-me muito mais seguro pois está sempre atenta e não deixa passar nada, tomando conta de mim a todas as horas do dia. Ela faz parte da família, é a nossa filha, por isso tem a mãe, o pai e o irmão. Não sou capaz de estar sem ela e ela sem mim, faço tudo por ela, pois ela também o faz por nós. É uma verdadeira relação de amor mútuo. Costumo dizer que quem a abandonou, atirou um diamante para o lixo”.

Cães de assistência não são aposta em Portugal

Para a veterinária Ana Santos, estes animais, são uma ajuda valiosa no quotidiano dos tutores.
“As mudanças fisiológicas libertam odores característicos detetados pelos cães, que possuem uma capacidade olfativa elevadíssima”, refere, salientando que, pela ação que desenvolvem na «área médica» são “quase colegas”.
Integrados no âmbito dos cães de assistência – cães-guia para invisuais, cães de serviço de mobilidade, cães ouvintes para pessoas surdas e cães terapeutas para serviço psiquiátrico – os cães de alerta abrangem, para além da glicémia, outras áreas médicas que, no entanto, são mais desenvolvidas nos Estados Unidos da América, nomeadamente o alerta de resposta a convulsão, alergias e sistema cardíaco.
Nenhuma destas especialidades beneficia de uma aposta clara por parte do Governo, e os apoios são inexistentes.
“O trabalho que estes animais fazem ao serviço da população é notável, basta ver a mudança que operam na vida dos tutores, dando-lhes uma segurança que não tinham antes, nomeadamente em questões que podem ser de grande perigo para a sua saúde, com consequências gravíssimas”, refere a veterinária, lamentando o facto de o poder público não investir no treino e «formação» de cães de alerta médico.

A RETINA desenvolveu um comportamento que não deixa de ser surpreendente. Quando pressente uma quebra de açúcar, a reação dela é ladrar e ir, de imediato, buscar a bolsa do medidor de glicemia.

“Se pudéssemos distribuir cães treinados aos milhares de diabéticos no país, estaríamos a proporcionar-lhes uma melhor qualidade de vida, ao mesmo tempo que diminuíamos o número de animais abandonados”, garante a veterinária.

CARLA CORREIA E EASY

Carla Correia | Animadora cultural | Porto | Diabética desde os 30

Easy | 2 anos | Resgatada de maus-tratos

“Eu e a EASY somos inseparáveis. Posso, até, afirmar que ela já me acordou para a vida por duas vezes, pois fez marcação da descida dos valores enquanto eu dormia. Quando fui acordada vi que estava com os valores muito baixos. Ela foi resgatada de maus-tratos que sofria em pequena, o que fez com que os primeiros tempos não fossem muito fáceis, sendo uma cadela pouco social com outros cães, sempre a ladrar para estranhos e com muita energia. Agora é muito mais tranquila. No entanto, e relativamente às marcações sempre mostrou um grande potencial pois nunca deixou de as fazer”.

MUFAS, um gato «fora da caixa»

Se existem, pelo menos, duas dezenas de cães, a nível nacional, aptos a desempenhar as funções no alerta à glicémia, há um gato que também o faz. Este é um caso raro, não havendo registos semelhantes.
Em 2021, a família do SMURF, mais conhecido por MUFAS foi confrontada com uma nova realidade: a Matilde, de 8 anos, foi diagnosticada com diabetes e as crises eram frequentes.
“Quando a Matilde estava a adoecer de dia para dia, sem sabermos ao certo o que se passava o MUFAS encostava-se a ela de uma forma estranha e não habitual”, conta a mãe, Patrícia Loureiro.
“Embora houvesse momentos em que vinha ter connosco, em busca de mimos, aquele comportamento fez-nos ficar atentos. No dia seguinte ao de ele ter estado colado à Matilde, ela ficou internada”, recorda.
Na fase do internamento hospitalar, a criança passou por várias hiperglicemias, com valores altos de açúcar. Quando voltou a casa, e devido a maior atividade física, começaram a ser mais frequentes as hipoglicemias, que se traduzem em valores abaixo de 70, onde o risco de perda de consciência é grande.

“A complementaridade entre os equipamentos disponíveis e o cão, enquanto animal de companhia, reforça a vigilância permanente dos valores de glicemia a que pessoa com diabetes está sujeita”

“Atualmente, depois de muito controlo médico e de terapias fundamentais para a sua estabilização, a situação está mais controlada”, diz, salientando que, por vezes, quando há alterações, “ele aproxima-se da Matilde, cola o nariz ao pescoço dela e, por muito que ela o tente afastar, ele não sai, até que eu chegue para a tratar. É quase mágico”, diz.
O tempo que sucede entre o «aviso» e a entrada em «crise», nunca foi cronometrado. No entanto, quando o felino adota a postura de não tirar os olhos da criança, a mãe vai, prontamente, fazer a medição “e lá está a hipoglicemia”.
“É curioso como ele fica tão alerta. Deita-se ao lado dela, a olhar para mim como que a falar comigo pelo olhar, pela postura corporal. Não sei explicar mas, sinto sempre o que ele me quer passar”, sublinha.
Com o MUFAS por perto, os pais sentem maior tranquilidade por saber que esses alertas são fundamentais.
“Nem preciso de estar sempre a «ler» o bracito dela. Se ele lá estiver eu já sei que há crise”, garante, salientando que é um gato muito intuitivo e um elemento da família.
“Acho que é o amor que nos une”, diz.
Rui Pinto é veterinário há cerca de 30 anos e nunca ouviu um caso idêntico, nem de nenhum felino com características do género.
“À semelhança dos canídeos, também os felídeos têm o sentido olfativo bastante apurado”, garante, salientando, no entanto que é mais fácil de treinar um cão.
“É muito mais difícil com um gato, já que são animais muito independentes e difíceis de obedecer a ações de forma repetida”.

RENATO E LUCAS LOUREIRO E LINK

Lucas Loureiro | 10 anos | Estudante | Coimbra | Diabético desde os 6

Renato Loureiro | 46 anos | Técnico de redes elétricas | Coimbra | Diabético desde os 18

Link | 3 anos | Resgatado de um canil

“Graças à presença do LINK, consegui, pela primeira vez um muitos anos, dormir uma noite tranquilo, sem acordar sobressaltado. Pode parecer estranho, mas o medo de ter uma hipoglicémia e não acordar é uma preocupação para muitos diabéticos. Sempre fui assintomático, chegava a desmaiar sem ter sintomas. Após verificar que este meu «anjo da guarda» está sempre atento, finalmente consegui dormir. Só isso, deu-me uma estabilidade, que nunca pensei alcançar. Com os nossos passeios diários, aumentei o exercício físico e a socialização. Ter um cão de Alerta Médico, é, ainda, pouco usual e, por isso, há muita curiosidade, dando azo a conversas. Com os alertas dele, também comecei a ganhar rotinas de medição dos níveis glicémicos que não tinha anteriormente. Deste modo posso compensar quando os valores não são os ideais. Por todos estes fatores, consegui reduzir a hemoglobina para valores quase ideais”. Para Lucas Loureiro, o LINK é “o melhor cão do mundo”.“É o meu melhor amigo e, ao mesmo tempo, cuida de mim e do meu pai”. Para os tutores, LINK é “um cão sereno e muito companheiro, um membro da família” sem o qual já não se conseguiam imaginar.

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