26 Janeiro 2022, 23:59

Choves em mim

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Creio que os Deuses no Olimpo deitaram abaixo a rede e a chamada caiu à força do meu desassossego, só para que pudesse respirar.

Estás no Brasil há quase dois meses e pouco temos falado, porque me refugio na distância e o fuso horário incompatibiliza as nossas agendas.
Vivo num sexto andar com vista sobre a cidade, o quase inverno e as luzes de Natal.Choves em mim desde o momento em que acordei com a cabeça e a alma a latejar.
Procurei consolo no pote de café cowboy e na preguiça de um dia de férias ausente de regras.

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Na ponta da caneta a lista dos últimos presentes, as compras de supermercado para a ceia e uma frase do Lobo Antunes: “Maça-me morrer porque se fica defunto muito tempo”.

Talvez das frases com mais sentido que li nos últimos tempos.

E quando deixamos morrer em vida?
Planeio esquecer-te com a lentidão necessária, lembrar-te a cada passo, dizer-te em silêncio, sentir-te ardentemente até o teu nome deixar de doer e não existir réstia de ti. Só assim, fecharei a porta ao arrependimento e não tropeçarei nas sombras da indecisão.
Não deveria imputar-te o peso do vazio ou a derrocada da saudade, mesmo porque não me sinto só em mim, sinto indelevelmente tua falta, o que é muito diferente.
Sou uma discípula difícil de mim mesma, afinal há quanto tempo sei sermos um milagre improvável e impossível de sobreviver?

O meu lugar é dentro e é dele que te quero expulsar.
Porque me feres mais que a luz do meio-dia após uma noite de copos, porque me rasgas ao meio entre chegadas e partidas, porque me assombras e arrebatas da mesma forma que desalojas a esperança e hipotecas o futuro.
No fluxo contínuo do pensamento e da estratégia do compêndio de frases ensaiadas, a chuva persistente, a chávena de café pela metade e o teu telefonema.

Afirmaste ser demasiado importante o que tinhas para dizer.
No Rio de Janeiro, na varanda que toca o céu do quarto do Hotel Copacabana, enquanto contemplavas a praia e o entardecer, as saudades que em ti aportaram constituíram a maior das revelações.
Sinto a tua falta, num concerto de jazz, numa nota desafinada, num jantar de gala, na roulote do Sr Ribeiro, numa praia deserta, numa sala apinhada, nas páginas de um livro que quero comentar, num filme de Bergman, no Louvre, numa qualquer cidade por palmilhar, numa banca de flores, num por-do-sol a milhares de quilómetros de distância.

No Rio de Janeiro, na varanda que toca o céu do quarto do Hotel Copacabana, enquanto contemplavas a praia e o entardecer, as saudades que em ti aportaram constituíram a maior das revelações.

Creio que os Deuses no Olimpo deitaram abaixo a rede e a chamada caiu à força do meu desassossego, só para que pudesse respirar.
Logo agora que planeio nova forma de existir, atravessas o oceano da forma mais retorcida que conheço.
Ergues castelos e quimeras, cresces-me em vida e com a pouca dignidade que resgato à arte de ser mulher, deixo que chovas de novo e em torrente.
Numa mensagem de caracteres e intenções incontáveis, após várias tentativas falhadas de nova ligação, escreveste.
“Hoje dei-te nome.”
De repente, uma memória entra pela tarde e traz-te pela mão.
Uma melodia, um gesto sublime, o refrão de uma canção, um chá de camomila sem açúcar, uma gargalhada, um poema, um gelado de limão, uma noite de luar, um perfume celestial, uma chuva divina, um gemido rouco, uns sapatos de salto impossível, um abraço apertado, um olhar que me trespassa, uma palavra que guardas só para mim.
Aconteceste-me da forma mais bonita, entre lençóis em desalinho e entregue à paz que chega contigo, pedi-te para ficares e tomares conta de mim.
Escrevo-te para que jamais esqueças que a bruma que tenho por inquilina rende-se ao imensurável que és e ao fogo que em nós não mais foi extinto.
Questiono que lugar é este o meu sem ti?
Não te cansa o meu cinzento impermutável quando em ti moram todas as cores?
E se as noites fechadas ao mundo em que adiamos a claridade forem tudo o que te posso dar?
Chegas de longe e rompes a escuridão, suave e terna como só tu sabes ser, constróis pontes e caminhos, não desistes de mim e do que sonhas podermos vir a ser.
Chegas de longe, tantas vezes longe demais para tão pouco tempo.
Elevei-te à altura do que mais me importa e lá te deixarei permanecer.
“Hoje dei-te nome. Chamei-te amor.”
E quando se escolhe deixar morrer devagarinho?

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