30 Setembro 2022, 03:01

Chuvas que destruíram Petrópolis reforçam alerta sobre alterações climáticas no Brasil

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

São Paulo, 26 fev 2022 (Lusa) — As alterações climáticas podem estar a provocar chuvas extremas no Brasil, reforçando o alerta no país onde eventos como a tempestade devastadora que atingiu a cidade de Petrópolis há 11 dias se têm tornado mais frequentes nos últimos anos.


“Estas chuvas junto com outros eventos extremos no Brasil, como uma onda de calor extrema no sul do Brasil, registada em janeiro nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, assim como uma onda de frio que atingiu em junho passado também o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, indicam um aumento de intensidade dos fenómenos naturais e isto já é uma consequência das mudanças climáticas”, afirmou à Lusa Pedro Luiz Cortês.


O professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo disse que estes desastres causados pelas chuvas evidenciam que o país já enfrenta as repercussões das alterações climáticas.


“Em alguns lugares, o volume de chuva tem sido muito acima do normal e não tem afetado uma região específica como acontecia no passado. No caso da Bahia e de Minas Gerais, [a chuva] atingiu boa parte dos dois estados, o que não era usual (…) E, agora, tivemos esta chuva impressionante em Petrópolis”, acrescentou o também professor convidado da portuguesa Universidade do Porto.


Localizada na região serrana do estado brasileiro Rio de Janeiro, Petrópolis é uma zona turística conhecida como ‘cidade imperial’ por ter sido fundada pelo Imperador D. Pedro II, que acabou parcialmente destruída no dia 15 ao ser atingida pela mais intensa tempestade registada desde 1932, segundo as autoridades locais.


O Centro Estadual de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemadem) informou que no total das 24 horas do dia do desastre, Petrópolis registou a queda de 260 milímetros de chuva. A média de chuva da cidade para todo o mês de fevereiro é de cerca de 185 milímetros.


Além da ‘cidade imperial’, o Brasil registou chuvas extremas em diferentes áreas entre o final de dezembro e fevereiro, período de verão no hemisfério sul, que causaram pelo menos 308 mortes.


Este total leva em conta apenas óbitos provocados por inundações e deslizamentos de terra devido à chuva nos estados da Bahia (27 mortes), Minas Gerais (30 mortes), São Paulo (34 mortes) e na cidade de Petrópolis, que já contabilizou 217 vítimas mortais e 33 desaparecidos.


Núbia Beray Armond, professora do departamento de Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das autoras de um estudo sobres sistemas atmosféricos deflagradores de excecionalidades climáticas no Rio de Janeiro, mostrou-se mais cautelosa.


A especialista observa que já é possível afirmar que as chuvas extremas têm sido mais recorrentes no país, citando dados recolhidos nas áreas do Rio de Janeiro que investigou, porém frisou que embora existam indícios de que as alterações climáticas ajudam a provocá-las, o tema ainda é alvo de investigação na comunidade científica.


“No estado do Rio de Janeiro, principalmente na região metropolitana, identificamos em alguns estudos preliminares em nosso laboratório de geografia do clima que houve um aumento nos episódios de precipitação mais intensos, as chuvas mais extremas, principalmente na porção leste e serrana [do estado e onde está localizada a cidade Petrópolis]”, explicou.


“No caso de precipitação, de chuva, porém, temos ainda algumas incertezas relacionadas ao papel das mudanças climáticas de origem antropogénicas [derivadas das atividades humanas] na geração destes eventos extremos”, acrescentou.


Núbia Beray Armond esclareceu que isto acontece porque no Brasil e no continente sul-americano em geral há pesquisas em andamento, mas as variáveis que causam as chuvas extremas precisam ser melhor avaliadas.


Segundo a especialista, nos últimos anos houve avanço metodológico promovido por grupos de cientistas que estão contribuindo para que as análises de deteção – que identificam em séries de tempo e espaço as variáveis atmosféricas – possam evoluir para investigações sobre atribuição, ou seja, para identificação da causa da maior recorrência de chuvas extremas.


“Hoje em termos de chuvas extremas na América do Sul ainda não temos estudos de atribuição, mas o que posso dizer é que eles estão acontecendo, há pesquisadores envolvidos nisto”, frisou a professora da UFRJ.


“Muito provavelmente nos próximos meses, no próximo ano vamos começar a ter um entendimento muito mais contundente sobre a relação entre este aumento de chuvas extremas, sobretudo no centro sul [do Brasil] e a mudança climática. Isto não quer dizer que não esteja acontecendo, mas ainda precisamos avançar nas análises científicas”, concluiu.


Vídeos que circulam nas redes sociais após as chuvas atingirem Petrópolis levando o caos à cidade mostraram carros sendo arrastados pela correnteza e grandes deslizamentos de terra numa área da cidade chamada Morro da Oficina, onde houve um grande número de mortes.


Esta não foi a primeira vez que a região montanhosa do Rio de Janeiro foi atingida por fortes tempestades.


Em 2011 ocorreu a maior tragédia meteorológica alguma vez registada no Brasil, quando as tempestades provocaram mais de 900 mortos e uma centena de desaparecidos na região.



CYR // LFS


Lusa/Fim

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