20 Setembro 2021, 07:12

Como um rio

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Esculpiram montanhas, fizeram dos vales baloiço que rasga o céu, floresceram nas margens, invadiram terra infértil, encontraram pousio nas águas mais transparentes e impolutas.

Não pouparei na entoação ou sequer no sibilado.
NÃO!
Vou gritá-lo a plenos pulmões, pelo cobarde e incontável número de vezes que disse sim.
Na livre circulação das palavras, (isso mesmo meu querido, ainda não pagam impostos aduaneiros…), vou demorar-me na degustação do monossílabo, sou capaz de o tatuar no léxico escorreito e não mais o deixar partir.
E se o colasse à pele e lhe concedesse estatuto de inquilino?
Porra, bem jeito me dava, demorei 30 anos para dizer à minha mãe que não gostava de escabeche…
Com sorte, vivem-se amores suficientes para não nos esgotarmos no primeiro e jamais façamos do eufemismo bengala, não são de todo iguais!
Uns são parte inteira, outros nem chegam a ser metade.
E mesmo assim amor?

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Quero acreditar que o universo não une dois rios se não for para os ver desaguar no mesmo mar.
A questão de um milhão é o quão generoso é o seu leito: constante ou seca durante a estiagem?
Assim como o leito do rio carece de abundância, a paixão não deveria ter intervalo, prazo de validade: só vontade, tesão, semântica e ilusão.
Dei por mim a querer-te como nunca antes e provavelmente nunca depois, a eternizar a tua gargalhada, cheiro e sabor, a conferir-te condição de rascunho de Deus.
Em menos de nada, o epicentro da tempestade e as correntes.
Incontroláveis, bíblicas, movidas pelas lágrimas salgadas do Adamastor e que me entregaram ao reboliço do mar sem laivo de piedade.
Porque fluí em torrente?
NÃO!
Apenas porque somos o mesmo rio com percursos diferentes.
Nasci verbo tal como tu, mas cedo aprendi a engavetar a dor para que não ganhasse território e um tempo sábio ensinou-me a não complicar, dotando-me de uma bussola que aponta a verdade e o dever de a perseguir.
Em ti descobri o que não sabia procurar e esta descoberta bem comparada, foi como um beijo inesperado e macio na calada tardia.
As palavras beijam como escreveu O’ Neill e as tuas, conferiram sentido e recortes abençoadamente poéticos ao curso do rio.
Esculpiram montanhas, fizeram dos vales baloiço que rasga o céu, floresceram nas margens, invadiram terra infértil, encontraram pousio nas águas mais transparentes e impolutas.
Espero por ti à deriva há mais de uma década, num oceano onde só navegas quando a saudade é urgente e precisas de redenção.
A realidade pode mesmo ser abusiva e a minha narrativa reclama reciprocidade.
Sussurram-me os peixes que este é o momento de te deixar bolinar, voltar à superfície, reclamar todo o oxigénio ao qual tenho direito e mandar à fava o teu amor subtraído e o avinagrado do escabeche.
Como vou fazê-lo?
NÃO sei ao certo, talvez me demore no desapego da apeneia, invista num tempo longo de reflexão e num modo certeiro de viver, monte arraiais num palco onde sou protagonista e não mais espere a deixa para existir, faça uma apólice de seguro que me assegure continuidade numa corrente que se deseja tão intensa, quanto serena.
Apetece-me tudo e tanto.
Apostarei todas as fichas no assombro, na adrenalina da aventura, nas noites mal dormidas da descoberta.
Fá-lo-ei em passo acelerado, de costas voltadas para o medo que paralisa, grata pela dádiva de tudo o que me couber de extraordinário, embriagada pela poesia dos livros e pelo amor dos romances, intermitente entre a sombra da árvore e a chuva que purifica a alma, entre a quietude da pausa e o fogo de cada recomeço.
Como vou fazê-lo?
NÃO sei ao certo, talvez me deite sob um céu estrelado que ilumina o caminho das fadas, aceite por fim o meu exagero como paisagem definitiva e inquietude permanente, me renda à evidência absoluta que o rio cumpre sempre o seu devir filosófico, que corre reverberante e pelo caminho vaticina que ainda que existam vidas afortunadas que se encontram numa espécie de celebração e história rara e irrepetível, nunca chegam a desaguar no mesmo mar.
NÃO pouparei na entoação ou sequer no sibilado.
Mas a duras penas te confesso, que nunca aqui sonhei aportar.

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