21 Outubro 2021, 09:23

Comunidade Vida e Paz luta para retirar pessoas da rua e reintegrá-las na sociedade

Susana Faria AdministratorKeymaster

A Comunidade Vida e Paz ajuda, há mais de 30 anos, pessoas em situação de sem-abrigo, acolhendo-as e tentando reintegrá-las na sociedade. Para isso conta com cerca de 600 voluntários e vários espaços de ação, como centros de acolhimento ou de terapêutica. O Mundo Atual conversou com a Diretora-Geral da Associação para conhecer melhor a Instituição que duplicou o número de refeições que entrega na rua, desde que começou a pandemia.

Criada em 1989, a Comunidade Vida e Paz tem como missão ajudar e acolher pessoas em situação de sem-abrigo ou em vulnerabilidade social. Esta IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) pretende reinserir estas pessoas na sociedade, ajudando-as a recuperar a sua dignidade e a organizar a sua vida, através de uma ação integrada de prevenção, reabilitação e reinserção.

A sua ação é inspirada e orientada pela doutrina social da igreja, “uma vez que foi fundada por um grupo liderado por uma religiosa que resolveu apoiar pessoas em situação de sem-abrigo na zona de Lisboa”, começou por contar em entrevista ao Mundo Atual, Renata Alves.

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“As pessoas apresentavam várias problemáticas e muitas necessidades. Desta forma, foram sendo criadas respostas para resolverem necessidades dominantes e a situação que os sem-abrigo apresentavam, nomeadamente a questão da toxicodependência e alcoolismo”, explicou a Diretora.

A Comunidade Vida e Paz conta com quatro equipas de intervenção das quais fazem parte cerca de 600 voluntários que todos os dias se deslocam a Lisboa e à Amadora, para percorrerem cerca de 100 locais onde vão ao encontro de pessoas sem abrigo.

Através da distribuição de refeições quentes, os voluntários contactam com as pessoas, para, assim, estabelecer uma relação de confiança com o objetivo de conseguirem retirá-las da situação de sem-abrigo.

“Os voluntários, através de uma plataforma, sinalizam e registam as situações e depois as nossas equipas técnicas vão procurar perceber quais foram os encaminhamentos e sinalizações feitas”, esclareceu.

A Diretora da IPSS, sediada em Lisboa, refere que têm também equipas técnicas, que atuam em locais como Lisboa, Amadora e Loures, sendo que recentemente foi criada uma ação de primeira linha em Odivelas. Estas equipas dedicam-se a conhecer as pessoas sinalizadas e contribuir para a definição e concretização de uma resposta personalizada e integrada para cada uma delas, de forma a permitir uma mudança de vida.

Associação tem dois centros de acolhimento

Para fazer face às necessidades foram criados dois centros de acolhimento, que funcionam em regime diurno, cujo objetivo é o de receber as pessoas que precisam de ajuda.
“Nestes centros, sediados, em Chelas e na Amadora, tentamos dar respostas e fazemos o reencaminhamento das pessoas”, explicou.

Existem ainda duas Comunidades Terapêuticas, uma em Fátima e outra na Venda do Pinheiro, que, em conjunto, têm capacidade para 135 pessoas.

“Para fazer face à problemática das adições, dispomos de duas Comunidades Terapêuticas destinadas prioritariamente a pessoas em situação de sem-abrigo”, destaca Renata Alves, referindo ainda que o modelo terapêutico adotado, “assenta na restruturação global da pessoa nas vertentes físicas, psicológica e espiritual”.

Além das Comunidades Terapêuticas, a Comunidade Vida e Paz tem duas Comunidades de Inserção, uma na Venda do Pinheiro com capacidade para 17 pessoas e outra em Sobral de Monte Agraço para 65 pessoas.

Sem-abrigo podem instalar-se em apartamentos

A Comunidade Vida e Paz disponibiliza ainda apartamentos partilhados para pessoas que estão em situação de sem-abrigo há relativamente pouco tempo e que “ainda não estão com as suas vidas completamente desorganizadas”.

“Com o apoio psicossocial dos técnicos, os sem-abrigo são instalados nestes apartamentos e depois são ajudados na procura de trabalho ou noutras situações que necessitem. Estes são como costumamos apelidar de apartamentos de entrada”, informou.

Os apartamentos considerados de «saída» são os de reinserção e existem cinco, sendo que alguns deles são disponibilizados através de um acordo com a Segurança Social e outros suportados pela associação.

Unidade Integrativa tem capacidade para 40 pessoas

“Recentemente, abrimos uma Unidade Integrativa nas Olaias, em Lisboa, um centro de alojamento em regime temporário que permite que as pessoas em situação de sem-abrigo possam ser reintegradas nesta unidade com o objetivo de serem ajudadas. Juntamente com o técnico que as acompanha é definido um plano de intervenção. Este centro tem capacidade para 40 pessoas e foi criado através de um protocolo com a Câmara de Lisboa e iniciado em junho”, revelou ainda Renata Alves.

A Comunidade Vida e Paz tem protocolos de parceria com as Câmaras de Lisboa, Odivelas, Amadora e Loures, mais propriamente para intervenção de primeira linha.
“Não podemos deixar mencionar o apoio prestado pelos benfeitores, sejam eles particulares, empresas e parceiros que colaboram connosco há muitos anos. Sem esse apoio seria impossível manter esta estrutura”, concluiu.

Associação entrega diariamente mais de 500 refeições

No início da pandemia, em março do ano passado, a Comunidade Vida e Paz estava a distribuir cerca de 420 ceias. No final do mês, teve de duplicar esse número devido à elevada procura.
“Existem outras instituições que têm a mesma intervenção e ajudam nas ruas. Nessa altura como ficámos em confinamento, essas associações deixaram de ter voluntários para colaborar, e acabamos por ser, praticamente, os únicos a prestar esse apoio”, lembrou Renata Alves.
Desta forma, a Comunidade Vida e Paz teve de distribuir um número maior de ceias para fazer face às necessidades básicas existentes.
“Muitas destas pessoas ficaram privadas de recorrer à restauração e até de arrumar carros, porque não existiam. As necessidades do ponto de vista alimentar eram muito grandes. A nossa missão não é dar comida, mas sim retirar as pessoas da rua e provocar a mudança”, frisa.
“Entregamos por dia entre 500 a 530 ceias, estamos com valores superiores aos do ano passado”, acrescentou ainda a responsável, adiantando que já entregaram mais de 180 mil refeições e já apoiaram cerca de 500 pessoas.

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