25 Outubro 2021, 15:20

Conversas de rodapé

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

E de repente, uma dor indigente, maltrapilha, que procura casa, que se alimenta do incontrolável, que confere aos dias um sabor amargo e às noites um medo que corrói, que confisca em menos de nada a alegria de ser.

A percepção que tenho de ti é que quase sempre tiveste quase tudo.

Uma infância feliz assegurada por uma mãe protetora e cuidadora, uma adolescência generosa em experiências na justa medida em surdina e muitas vezes à descarada, um amor que chegou cedo, cambaleante porventura, mas que se instalou como morada definitiva, tão absoluto, que é dos livros, dos filmes e da canção “à prova de bala, à prova de tudo”.

Possuis fortuna em viagens, mundo calcorreado, aventuras, adrenalina e similares, és janela aberta para quem venha por bem e queira ficar.

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Tens amigos do caraças que erguem o copo vezes sem conta e não deixam nada por celebrar, um armário farto em roupa e sapatos, um jardim pintado na tela de Monet, ambos tão ecléticos e únicos quanto as cores e texturas da tua alma.

Nos intervalos da história que mais te importa, trabalhas com afinco necessário para que a integridade que respiras jamais saia beliscada, sem nunca no entanto confundires a ordem natural das coisas e consequentes prioridades.

Geraste filhos em número e grandeza bastante para encher a casa e o coração.
Numa modernidade aprendida que rivaliza amiúde com o conservadorismo que te ensinaram, fez pousio um optimismo que não advém da lotaria da genética, mas que acomodaste como se fosse embrionário e isso por si só, é um pouco do tanto de ti que sonho vir alcançar.

Poderias à força da matriz que te diz oxigenar toda uma selva amazónica, naturalmente com recurso à fonte onde vais beber o tinto refinado que gostas de degustar, mesmo porque não és miúda para matar a sede com água mineral e em permanente dieta não se aprecia com dignidade o banquete.
Dobras o tempo com uma leveza invulgar, condescendente com as rugas e mazelas que não podes evitar, sem consciência da singularidade e diferença que te habita e que raramente sobra ou se repete.

Tens-te mantido ocupada em viver à séria e à boleia de um cúmplice perfeito, corres no alcance do mergulho mais profundo, do salto mais acrobático, da viagem mais memorável, da crença que devemos a nós próprios a ousadia de tentar.

E de repente, uma dor indigente, maltrapilha, que procura casa, que se alimenta do incontrolável, que confere aos dias um sabor amargo e às noites um medo que corrói, que confisca em menos de nada a alegria de ser.
Acredito existir um desígnio maior que nos empurra uns para os outros, uma espécie de lei universal à qual é impossível escapar. Foi assim que nos acontecemos, há tanto tempo que tenho pudor em quantificar e porque somos tão livres no pensamento como no verbo, criámos as conversas de rodapé.

Não sei em bom rigor que conceito metafórico é este, mas isso nunca nos impediu de o exaltar e vestir para a festa.Trata-se da parte da narrativa que só a nós cabe e com sorte ninguém a espreita, por definição, desnecessária e acessória no texto.

Como a patente é inequivocamente nossa, nas conversas de rodapé coube sempre tudo, desamores, amizades, angústias, ansiedades, conquistas, desilusões, mágoas, alegria, esperança, verdade. Certo, não raras vezes praticámos a modalidade olímpica da má língua, mas meramente como interlúdio para o disparate e gargalhada despudorada.

Sei que as palavras de camomila que te levo e adoço com mel, não diminuem o peso da incerteza e cume afiado da espada, mas lembra-te, nem sempre é possível darmos a volta à volta que a vida nos dá a sós, por não estarmos habilitados para o fazer e porque quando entramos em insolvência os principais credores são os que mais nos amam.

Reclamam valentia, que não nos entreguemos às mãos do destino sem oferecermos luta, sem nos reinventarmos no amor que nos têm.
O espaço cénico é falacioso, crentes quando assustados, inteiros quando rasgados ao meio, corajosos quando derrotados.

Talvez não saibas mas tens a eternidade tatuada na pele e intuo que também por isso, a vida se tem feito a ti, mais do que te fazes a ela.

Seja o amanhã uma promessa certa, asseguro-te, teremos mais um livro para escrever de conversas escorreitas, insanas, elaboradas, fúteis e profundas, que se escondem sorrateiras na parte inferior da página só para que a nós possam interessar.

E agora que estamos só as duas e fora do palco, que te poupo das frases açucaradas, diz-me sem rodeios e com a força da coragem: o medo e a dor agigantam-se quando quase sempre se teve quase tudo, não é?

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