06 Dezembro 2021, 15:41

Coronavírus: Médica Intensivista recorda “exaustão e intensidade emocional”

Tatiana Fonseca é uma das médicas que está na linha da frente do combate à Covid-19 no Centro Hospitalar Gaia/Espinho. Ao Mundo Atual recordou os primeiros dias de pandemia em Portugal, em março de 2020, e contou de que forma a equipa conseguiu dar “resposta a todos” sem nunca ter que fazer a tal «escolha» entre a vida e a morte.

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Recuemos a Março de 2020. Os primeiros casos de infeção por Covid-19 eram detetados no País e a partir daí a história é conhecida. Portugal, à semelhança do resto do Mundo, enfrentou um dos períodos mais negros da sua história e nunca o Serviço Nacional de Saúde tinha sido posto à prova daquela forma.

Desses dias Tatiana Fonseca recorda o “receio do desconhecido” porque “ninguém sabia nada sobre a doença” nem sobre a melhor forma de estarem protegidos.

“Foi uma fase de grande stress emocional. Para além de pouco sabermos acerca do vírus havia também receio de nos infetarmos”

“Foi uma fase de grande stress emocional. Para além de pouco sabermos acerca do vírus havia também receio de nos infetarmos”, começa por lembrar, acrescentando: “Não sabíamos se estávamos protegidos com os materiais, se podíamos infetar a família… Foi complicado”.

À medida que o tempo foi passando, “sentimos mais tranquilidade” não só porque a doença deixava de ser estranha, mas também porque os equipamentos de proteção individual “davam confiança e segurança”, o que também explica, assume, o “muito baixo contágio no serviço”.

No entanto, também nessa fase começou a surgir o “cansaço extremo” em que os “turnos de 24 horas a cada três dias” deixavam os profissionais de saúde “exaustos” e numa altura em que todos, garante, sentiam estar “no limite das capacidades”.

“Conseguimos prever o que aconteceu e, logo em dezembro, foi organizado um curso de formação para colegas de outras especialidades para que pudessem estar nos Cuidados Intensivos.”

Apesar de a situação estar, pouco depois, controlada, quer no número de internados, quer no de novos casos, a médica garante que a aproximação do Natal trouxe consigo “uma previsão” do que podia acontecer e a necessidade de “estarmos preparados”.

“Conseguimos prever o que aconteceu e, logo em dezembro, foi organizado um curso de formação para colegas de outras especialidades para que pudessem estar nos Cuidados Intensivos. Isso foi decisivo. A ajuda deles foi fundamental”, revela.

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O luto à distância que marca os dias

Tatiana Fonseca não esquece os momentos de “grande intensidade emocional” que a doença acaba por provocar nos profissionais de saúde e frisa que isso “é uma das partes mais difíceis”.

“Nos Cuidados Intensivos estamos habituados a lidar com situações graves e estamos preparados para isso… Mas não para ver um doente entrar, falar connosco e pouco depois estar ventilado e/ou falecer”, sublinha, acrescentando:

“É muito chocante termos que falar com as famílias, dar notícias tão delicadas ao telefone, de uma forma tão distante e fria”

Para além disso, defende, “ninguém está preparado para um luto assim, à distância”, sem poder ver os familiares uma vez que “muitos estão intefados também”, o que impossibilita a visita, permitida em casos terminais.

A médica não tem dúvidas das “sequelas brutais” que vão ficar e garante que este ano só foi possível de gerir e ir ultrapassando “graças ao facto de termos uma equipa unida, quase família”, algo “fundamental quando os dias eram demasiado pesados”.

“Desconfinamento gradual é o mais sensato”

Agora quando se «respira» melhor no Centro Hospitalar Gaia/Espinho e no País, Tatiana Fonseca não esconde, no entanto, que há “medo” das novas medidas que o Governo vai anunciar e espera, por isso, um “desconfinamento gradual, o mais sensato a fazer”.

“Esta terceira vaga foi a pior, mas conseguimos dar resposta a todos os nossos doentes e é o que queremos continuar a fazer”, frisa, garantindo que em “Gaia nunca tivemos que decidir quem vivia ou não”.

Tatiana Fonseca mantém, assim, o apelo de “responsabilidade” e volta a recordar que a doença “não escolhe nada”.

E quando lhe perguntamos pelas histórias que mais a marcaram, a intensivista diz que há “muitas”, mas há uma mais difícil de esquecer quando regressa a casa onde a esperam o marido e os dois filhos de quem nunca conseguiu estar longe.

“Recordo o caso de uma senhora que esteve sempre fechada em casa, vários meses. No Natal decidiu fazer a Ceia para os familiares diretos e mais próximos… Foi infetada e faleceu”, conta.

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