22 Outubro 2021, 11:52

Covid-19: Números de vacinação em África são “espantosos” e “inaceitáveis” – especialista

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Nova Iorque, Estados Unidos, 12 mai 2021 (Lusa) — O ex-diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos da América considerou hoje “espantoso” que África tenha administrado apenas 21,1 milhões de doses de vacinas contar a covid-19, tantas quantas os EUA ministram semanalmente.


“É espantoso que o número total de doses de vacinas ministradas até agora em África, 21,1 milhões, seja semelhante ao número de doses de vacinas dadas durante uma semana nos Estados Unidos, que tem menos de metade da população do continente”, afirmou Tom Frieden.


O antigo diretor do CDC, entre 2009 e 2017, falava na apresentação do novo relatório da PERC (Parceria para Resposta Baseada em Evidência à covid-19).


“Isto é inaceitável do ponto de vista ético. O mundo tem que fornecer mais vacinas a África imediatamente, afirmou Frieden, atualmente presidente e CEO da Resolve to Save Lives, iniciativa da Vital Strategies, responsável pelo estudo.


Frieden sublinhou ainda que, “paralelamente”, o continente tem que conseguir a capacidade de produzir as vacinas de que necessita. “Temos que apostar na produção própria, o mais rapidamente possível, e em relação a todas as vacinas eficazes disponíveis”, defendeu.


“A tecnologia das vacinas de mRNA [ou RNA mensageiro] é particularmente impressionante. Foi criada com dinheiro dos contribuintes nos Estados Unidos e na União Europeia e este é um bem público, que tem que ser partilhado”, sublinhou.


“A tecnologia mRNA resulta em vacinas mais eficazes às mutações do vírus e menos suscetíveis a atrasos do que outras metodologias de vacinas e pode ser rapidamente implementada em todo o mundo, incluindo em África”, acrescentou o especialista.


Richard Mihigo, gestor de Programas, Imunização e Desenvolvimento de Vacinas, da Organização Mundial de Saúde (OMS), apresentou alguns dos grandes números do estudo, e chamou a atenção para um “problema sério” que o continente enfrenta: o do fornecimento urgente da segunda dose da vacina, sobretudo da AstraZeneca, cuja primeira toma decorreu em março.


“A maior parte dos países iniciou as campanhas de vacinação no início de março, estamos a chegar ao fim do intervalo das 12 semanas entre as duas doses no final de maio, início de junho, e temos muitos países que usaram todas as doses que tinham. Este é um problema sério, o do adiamento do vacinação da segunda dose”, afirmou.


África ministrou até hoje cerca de 21,1 milhões de doses de vacinas, número que compara com 1,31 mil milhões de doses ministradas em todo o mundo. “O fosso criado é enorme”, apontou Mihigo. “Significa que 1,2 doses foram dadas por cada 100 pessoas em África, contra 15,6 doses por cada 100 pessoas no resto do mundo”, disse.


“Um total de 49 países no continente receberam algumas vacinas. Foram recebidas até agora perto de 37 milhões de doses, e temos alguns países que não iniciaram ainda as campanhas de vacinação ou que não receberam ainda quaisquer vacinas – Tanzânia, Burundi, Eritreia, Chade, Burkina Faso e República Árabe Sarauí Democrática”, disse.


Das 37 milhões de doses recebidas pelo continente, 21,1 milhões foram ministradas em 48 países — a República Centro-Africana, recebeu recentemente vacinas, mas não começou ainda a sua campanha de vacinação. Perto de 5 milhões de pessoas receberam duas doses de vacinas de duas tomas, como são os casos da AstraZeneca ou da Pfizer.


Um total de 43 países receberam vacinas da Covax, mecanismo promovido pela OMS para facilitar o acesso equitativo à vacina antiviral por parte dos países menos desenvolvidos, mas o sistema, claramente, não está a funcionar.


O “primeiro grande problema” que África enfrenta “diz respeito à cadeia de fornecimento, particularmente no caso da Covax, em que assistimos a muitos atrasos”, disse o gestor da OMS.


“Temos consciência da situação trágica que se verifica na Índia, que afeta o pipeline da Covax”, referiu, numa referência à circunstância de o Instituto Serum da Índia – principal produtor da vacina da AstraZeneca, que vinha a ser distribuída aos países de baixos rendimentos através do mecanismo – ter suspendido a exportação de vacinas no final de março, para dar resposta a um novo surto da pandemia na Índia.


“Doses que deveriam ter sido entregues em março, abril e maio, não foram entregues. Estamos a falar de 140 milhões de doses que deviam ter sido entregues em março e abril e que estão com grandes atrasos”, indicou.


Como resumiu Tom Frieden, considerando ser mesmo “a grande conclusão” do inquérito da PERC: “O mundo subestima o fardo suportado por África no que diz respeito à covid”, desde logo, porque “os seus números no continente têm sido subestimados” desde o início da pandemia, “devido a uma quantidade de razões, incluindo o baixo acesso aos testes e fracos sistemas de saúde”.


Frieden chamou ainda a atenção para os problemas relacionados com o tratamento de outras doenças que não a covid-19, que pioraram devido à “destruição” causada pela pandemia. “O que este relatório sublinha é que 40% das pessoas faltou a consultas ou teve dificuldade no acesso às prescrições médicas por causa da pandemia”, sublinhou.


Impactos económico, social e nutricional emergiram ainda no inquérito. Por exemplo, 81% dos inquiridos relataram desafios no acesso aos alimentos, 77% relataram perda de rendimentos e 42% relataram falta de visitas médicas desde o início da pandemia.


O relatório apela ainda a medidas de saúde pública específicas para populações de alto risco, maior vigilância à luz de novas variantes do vírus a surgir um pouco por todo o mundo, incluindo dentro do próprio continente.


O inquérito PERC – realizado em fevereiro – contou com as respostas de mais de 24.000 adultos em 19 Estados-membros da União Africana (UA), e compilou dados sociais, económicos e epidemiológicos a partir de várias fontes.


A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.319.512 mortos no mundo, resultantes de mais de 159,5 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.



APL // LFS


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