03 Julho 2022, 19:58

Crise académica de 1962 revelou “impreparação das autoridades” – Correia de Campos

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Lisboa, 22 mar 2022 (Lusa) — A “impreparação das autoridades” para gerir politicamente uma situação como a crise académica de 1962 foi o que mais chocou António Correia de Campos, antigo ministro socialista e um participante ativo no protesto que há 60 anos abalou Salazar.


“Não sabiam. Não sabiam o que fazer. Não sabiam se haviam de reprimir rigorosamente, prender toda a gente, desatar aos tiros… mandavam a polícia de choque, que não era brincadeira, era mesmo pancada a sério, com cabeças partidas e ferimentos. Mas não sabiam se deviam ser muito duros, ou se deviam ser assim-assim, ou se deviam ser complacentes”, contou em entrevista à agência Lusa.


E prosseguiu: “Não tinham uma estratégia, não sabiam o que fazer, em contraste com os jovens”.


Vista à distância, “a direção da crise por parte das associações de estudantes, foi de uma enorme qualidade política, sobretudo tendo em conta que as forças que ali se centravam não eram uma única, não havia hegemonia”.


“Claro que havia militantes do PCP, claro que havia a Ação Católica, com muita força, com muitos militantes católicos masculinos e femininos, mas também uma grande massa indiferenciada e pessoas que não eram nem comunistas nem a favor da situação atual, a que podemos chamar sociais-democratas.


António Correia de Campos enumera três “dirigentes de grande envergadura”, cujo papel foi determinante na gestão da crise: Jorge Sampaio, no centro ideológico – sociais democratas, mais socialistas, Eurico Figueiredo, então militante do PCP, e Vítor Wengorovius, o católico progressista.


O jurista relembra outros dirigentes, como Alberto Torres da Silva, Afonso de Barros. Notabilizou-se igualmente na gestão da crise José Medeiros Ferreira, que sucedeu a Jorge Sampaio como secretário-geral da Reunião Inter-Associações (RIA), assim como Manuel Lucena.


Correia de Campos sublinha a corajosa solidariedade de quem acompanhava este movimento, como alguns professores, entre os quais destaca Lindley Cintra e Pereira de Moura, bem como outras figuras da cultura portuguesa.


Apesar da dimensão e duração do protesto, os seus protagonistas não tinham a ideia do que representava.


“Nós não tínhamos verdadeiramente a noção de que estávamos a ser protagonistas de um ato político. Nós tínhamos a noção de que aquilo acabava por vir a ser um ato político, mas que não tínhamos sido nós a desenhá-lo, digamos assim, a prepará-lo, a afirmá-lo”, disse.


“Aquilo aconteceu porque o governo teve uma reação estúpida e autoritária”, declarou.


Correia de Campos foi um dos estudantes que participou na greve de fome que fez parte do protesto, tendo por isso sido sancionado.


A crise académica de 1962, que se prolongou por vários meses, teve o seu ponto alto a 24 de março, quando forças policiais, a mando do governo de Salazar, carregaram sobre milhares de estudantes na zona da Cidade Universitária em Lisboa, à revelia do então reitor da Universidade Marcelo Caetano.


Vários estudantes foram feridos e muitos outros detidos, de imediato ou ao longo dos dias seguintes, essencialmente dirigentes das associações de estudantes.



SMM // CC


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