25 Dezembro 2022, 18:15

Crise: Bancos alimentares cada vez mais procurados num Reino Unido em crise

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Londres, 19 nov 2022 (Lusa) – No banco alimentar do centro comunitário português em Londres, João fica para o fim e aproveita as sobras dos cabazes de outros utentes que não apareceram, enfiando as batatas, alho francês e iogurtes no saco de compras com rodas.


Como se não bastasse o aumento do custo de vida no Reino Unido, onde a inflação chegou aos 11,1% em outubro, este brasileiro de 38 anos está desempregado.


O único rendimento que ganha é das entregas de comida que faz de bicicleta à noite, quando a companheira chega do trabalho nas limpezas e fica a tomar conta do filho de 12 anos. 


“Mas agora está mais fraco, porque há mais concorrência e menos entregas. O pessoal também começou a cortar no ‘takeaway'”, disse à agência Lusa, num tom de voz baixo e tímido.


Nos últimos meses, passou a frequentar este banco alimentar, aproveitando os donativos de comida da autarquia de Lambeth, no sul de Londres, e da organização The Felix Project, que distribui produtos excedentes de supermercados, grossistas e outros comércios.


O número de utilizadores varia, mas ronda os 50, distribuídos entre os que vão às segundas e quintas-feiras. 


O coordenador do banco alimentar, Marco Lopes, afirma que o número de utentes tem vindo a variar, embora tenha reduzido desde o pico da pandemia da doença covid-19, em 2020, quando os confinamentos resultaram na perda de rendimentos para muitas pessoas no mercado de trabalho informal. 


“Mas estou contente por continuarmos há tanto tempo. Há muitas pessoas que precisam de ajuda e fazemos um esforço para que ninguém saia de mãos vazias”, garante.


Os frequentadores regulares são, na maioria, imigrantes, que falam mal inglês e por isso têm empregos precários e mal pagos, ou residentes locais que estão desempregados, incapacitados e dependentes dos subsídios da segurança social britânica. 


Alguns têm a situação complicada pela falta de visto de trabalho ou outros problemas pessoais, o que agudiza ainda mais as dificuldades criadas pela atual crise do aumento do custo de vida no Reino Unido, que tem vindo a acentuar-se. 


Os preços da alimentação subiram 16,2% nos últimos 12 meses, com destaque para produtos básicos como o leite, queijo ou ovos.


As contas do gás e eletricidade estão a custar mais 88,9% em média do que há um ano atrás.  


O Governo tem dado apoios para o custo da energia e ajudas às pessoas mais vulneráveis, e no orçamento apresentado na quinta-feira estipulou uma subida de 10% nas pensões de reforma, subsídios e outros complementos.


Mas a realidade é que cada vez mais pessoas estão a queixar-se das dificuldades que sentem para pagar as contas, nas quais se incluem o aumento das taxas de juro do crédito à habitação, os preços dos transportes e outras despesas em geral.


Muitas contam que estão já a passar privações, evitando ligar o aquecimento da casa, usar o automóvel ou saltando refeições. 


A organização Trussell Trust, que apoia mais de 1.300 bancos alimentares em todo o país, disse estar com “dificuldades” para acompanhar “um tsunami” de procura e já esgotou as provisões de reserva que normalmente deixa para o inverno, quando existe mais necessidade.  


A presidente executiva, Emma Revie, descreveu uma “tempestade perfeita de aumento dos preços da energia, inflação e uma potencial recessão que está a empurrar as pessoas ainda mais para a pobreza”.


Nos últimos seis meses, a organização recebeu 320.000 pessoas que se inscreveram num dos bancos alimentares da Trussell Trust, um aumento de 40% em relação a 2021. 


Uma sondagem publicada pela estação ITV News esta semana revelou que 88% dos britânicos estão preocupados com o impacto da crise, com 23% com menos de 100 libras (115 euros) de poupanças e 24% a correr a empréstimos ou cartão de crédito para fazer face a despesas correntes.


A ansiedade está a transformar-se em descontentamento, com um número crescente de sindicatos a anunciar greves para exigir um aumento de salários que compense a perda do poder de compra após anos de ordenados congelados na função pública.


O Royal College of Nursing, que representa cerca de 300.000 enfermeiros, votou pela primeira vez em 106 anos de história a favor de uma greve, e professores deverão fazer o mesmo, juntando-se a trabalhadores dos transportes e correios.


Ainda no centro comunitário português, Arthur, de 40 anos, revelou à Lusa que trabalha para um organismo financeiro público, mas que os cabazes do banco alimentar “ajudam muito”, sobretudo legumes, que também estão a ficar mais caros nas lojas.  


“Ajuda a preencher os buracos. O custo de vida mais caro implica que agora sou mais cuidadoso sobre quando saio, em que lojas compro. Noto que os preços aumentaram, ou as embalagens estão mais pequenas”, adianta.


A voluntária Maria da Luz Diogo, de 74 anos, diz que ajuda porque ainda sente um “espírito de escuteira” de “ajudar o semelhante”, dispondo-se a carregar um saco para o vizinho colombiano e produtos que acabam a ajudar o filho e netos. 


A maneira alegre e enérgica desta portuguesa como recebe as pessoas e carrega as caixas de alimentos é contagiosa, tendo criado relações de afeição com alguns “clientes”, apesar da barreira linguística.


A letã Ingrid, que também ‘tropeça’ na língua inglesa, é uma das frequentadoras mais assíduas, não só por causa dos donativos que recebe, mas também pelo curto convívio social, tendo ali feito amizade com duas lituanas que também falam russo. 


“A primeira vez que vim tive muita vergonha porque eu sempre trabalhei muito a vida inteira. Mas agora é uma razão para tirar o pijama e vestir-me e sair de casa”, confidencia, prometendo tricotar mais cachecóis e meias para quem quiser. 


 


BM // SCA


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