29 Novembro 2021, 20:59

Demissões portuguesas na emissora pública de Macau após exigência de patriotismo

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Macau, China, 23 mar 2021 (Lusa) – Pelo menos cinco jornalistas da TDM — Teledifusão de Macau apresentaram a demissão na sequência de uma diretiva que exige uma linha editorial patriótica que proíbe a divulgação de informações e opiniões contrárias às políticas da China.


A informação foi avançada hoje à Lusa por uma das cinco jornalistas portuguesas que trabalham no serviço de rádio em língua portuguesa da emissora pública TDM.


Outra jornalista confirmou a demissão e que a decisão resultava da polémica sobre a linha editorial assumida pela empresa.


A Agência Lusa contactou a direção do serviço de rádio em língua portuguesa da TDM que não quis fazer comentários sobre esta situação.


A 10 de março, foram transmitidas diretrizes aos jornalistas da TDM, proibindo-os de divulgar informações contrárias às políticas da China e instando-os a aderir ao “princípio do patriotismo” e do “amor a Macau”.


As orientações foram criticadas nos dias seguintes pela Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) e o Sindicato de Jornalistas de Portugal, assim como pela Associação de Jornalistas de Macau, que representa repórteres dos ‘media’ de língua chinesa.


A polémica levou a administração da Teledifusão de Macau (TDM) a anunciar, na semana passada, que o manual editorial da empresa pública de rádio e televisão vai continuar a ser cumprido, após uma reunião com “jornalistas da Direção de Informação e Programas Portugueses”, reiterando, no entanto, a adesão ao “princípio do patriotismo” e do “amor a Macau”.


Hoje, os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) anunciaram que iriam incluir Macau na sua lista de monitorização, que analisa a liberdade de imprensa em 180 países, após a ameaça de “censura” na Teledifusão de Macau.


Na classificação da liberdade de imprensa estabelecida anualmente pelos RSF, figurava apenas Hong Kong, que chegou a ser considerado um bastião da liberdade de imprensa, mas caiu do 18.º lugar, em 2002, para 80.º em 2020, enquanto a China continental é 177.º em 180 países, numa lista que até aqui deixava Macau de fora.


O responsável dos RSF na Ásia acrescentou que a TDM pode converter-se num “órgão de propaganda” da China, devido à “censura da direção”.


Em comunicado, os Repórteres Sem Fronteiras condenaram igualmente, em 19 de março, “a interferência editorial da direção das emissoras públicas de Hong Kong e Macau”, considerando que a sua independência estava “ameaçada pela censura da administração”, e instaram “os governos das duas regiões administrativas especiais [RAE] a cessar os seus ataques à liberdade da imprensa”.


A transferência da administração de Macau ocorreu no final de 1999, pouco mais de dois anos depois de a China ter recuperado a soberania sobre a antiga colónia britânica de Hong Kong.


Na lei básica de Macau, miniconstituição do território que deverá estar em vigor até 2049, lê-se que “os residentes de Macau gozam da liberdade de expressão, de imprensa, de edição, de associação, de reunião, de desfile e de manifestação”.


As duas regiões têm autonomia em todas as áreas, exceto na diplomacia e na defesa.



JMC (MIM/PTA) // PJA


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