09 Dezembro 2021, 03:34

Do que mais gosto no outono?

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

O abraço onde me acolheste de tão urgente e apertado mal deixou espaço para respirarmos, por cada vez que o meu corpo reclamava movimento na tentativa de conquistar ínfimos centímetros de liberdade e algum oxigénio, apertavas-me com força sobrenatural como se a tua vida daquele círculo fechado dependesse.

Do cheiro a terra molhada, das folhas amarelecidas que vestem o chão só para que as possa pisar, da confidência dos dias escuros, das primeiras chuvas, do sentido de recomeço.

Bonito e inspirador, tem cor de tela de Monet e luz de poeta, cheira a castanhas assadas, tem textura de manta de lã e conforto de chá adoçado com mel.

Imploraste por mim em plena madrugada de outubro.
A voz num lamento arrastado e impercetível, pedindo-me para chegar à velocidade da luz.

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Fiz demasiados quilómetros numa luta estóica para não sucumbir ao cansaço, sem saber como te iria encontrar.

O rádio em volume proibitivo, as janelas entreabertas para deixar entrar as estrelas e aquietar a pressa de te valer.

Amanhecia quando alcancei a tua porta.

Na sala envolvida em penumbra, a persiana mal fechada anunciava o despontar de um novo dia.

Contrariando a tua obsessão por ambientes imaculados, instalara-se o caos.

Livros espalhados pelo chão, roupa abandonada nas cadeiras, chávenas de café acumuladas, odor de escuridão.

Nada disseste quando me olhaste pela primeira vez.

Voltaste ao sofá e puxaste-me para ti.

O abraço onde me acolheste de tão urgente e apertado mal deixou espaço para respirarmos, por cada vez que o meu corpo reclamava movimento na tentativa de conquistar ínfimos centímetros de liberdade e algum oxigénio, apertavas-me com força sobrenatural como se a tua vida daquele círculo fechado dependesse.

Duas horas depois emergi e arrisquei a primeira frase.

Não querias perguntas, ter de explicar, ouvir o som doído das palavras.
Pedias silêncio, os meus olhos e colo onde te esconderes.

Assim fiz e exausta adormeci sem me atrever a pôr em risco o lugar inviolável onde te aninharas e choraras sem pudor.

Quando acordei não estavas mais lá.

Encontrei-te na piscina.

Nadavas em chicote como se o impacto da água fria pudesse levar para longe o que te destruía sem piedade.

Raramente vinhas à superfície e cheguei a temer por ti.

Por fim, quando o teu corpo pediu tréguas, alcançaste a toalha que te estendia e com ela cobriste-nos aos dois.

Sem me olhares, respirando o meu perfume, sussurraste-me ao ouvido: “Amo-te e isto é a única coisa que te consigo dizer, mas também a única que importa”.

E deixaste-me só, incapaz de te resgatar num jardim outonal onde voltara a escurecer.

Quando regressei à sala percebi que tinhas saído.

Na mesa um bilhete escrito em esforço pela necessidade do recurso às palavras: “Fui ao hospital, não me esperes. Obrigado por seres sempre o que mais preciso e pelo teu amor ao domicílio”.

Dias depois soube que parte imensurável de ti partira nessa noite.

Chegaste a tempo de um último beijo e de dizer até já.

Não sei se a morte se anuncia, mas a dor sim.

Telefona de madrugada numa suplica que não consegue conter, diminui a distância no imperativo absoluto de cuidar, adormece o verbo para que o silêncio possa respirar, rasga a estrada na urgência de chegar.

Do que mais gosto no outono?

Da memória de ti, nela deposito a crença de que o que dita o fim da história não possui força suficiente para apagar o sentido inigualável que a vida alcança quando o amor embala a dor.

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