16 Agosto 2022, 16:24

Douro, rio de águas caprichosas

A cada Inverno chuvoso, o Douro invadia as margens de Porto e Gaia. Património da Humanidade, aquele que é um dos maiores ex-libris naturais do País tornou-se, assim, numa ameaça às margens dos dois concelhos, através de um fenómeno habitual, desde tempos imemoriais: as cheias. A mais antiga registou-se em 1526, a maior em 1909 e a última em 2019.

De maior ou menor dimensão, as cheias obrigam a um alerta constante por parte de moradores e comerciantes de Gaia e Porto. Ícones destes fenómenos são as marcações que ambas as populações ribeirinhas vão assinalando, seja na pedra ou na madeira, e que testemunham a altura que o nível das águas atingiu. As maiores aconteceram em 1909 e 1962. No Porto, a Ribeira e Miragaia são os pontos que mais sofrem com as cheias que, por serem zonas baixas, costumam ser «invadidas» pelas águas, que passam por debaixo de subterrâneos.

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Em Gaia, toda a marginal ribeirinha se encontra exposta à subida do Douro, que já causou estragos severos em edifícios de habitação e comércio. Por causa disso, a população costuma sofrer sobressaltos e aflições nos invernos mais chuvosos, tendo que, por vezes, ser evacuada quando o nível das águas sobe acentuadamente.

Em 1909, as águas do Douro ficaram a poucos centímetros do tabuleiro inferior da Ponte Luiz I (CPF)

1909 registou a maior cheia de sempre

Entre os dias 17 e 25 de dezembro, as águas do Douro subiram de forma abrupta e a tragédia aconteceu depois de vários dias de chuva intensa. As populações de ambas as margens assistiram, impotentes, à destruição dos seus bens pelo rio. A subida das águas provocou graves prejuízos, obrigando à intervenção de diversos organismos do Estado para a sua posterior reabilitação.

No Porto, a Ribeira e Miragaia são os pontos que mais sofrem com as cheias e costumam ser «invadidas» pelas águas.

Sem barragens para refrear a corrente, o Douro obedecia apenas à sua força, causando enormes estragos. Na madrugada de 21 de dezembro “foi detetada uma anormal subida das águas e o Cais dos Guindais, onde os rabelos descarregavam produtos do Alto Douro, estava já inundado, sendo que, dos guindastes de descarregamento de mercadorias já só se via a parte superior”, refere um artigo de «O Tripeiro». Durante o dia, “a chuva caiu intensamente e a maré subiu, invadindo edifícios e afundando barcaças carregadas de madeira e carvão, no lado de Gaia, e arrastando mais 11 barcas de carga que se despedaçaram contra os vapores atracados no Cais do Cavaco”. Depois de horas de ansiedade, na manhã do dia 22, o mercado ribeirinho da Gaia foi transferido para a Rua Direita e a Praça da Ribeira, no Porto, encontrava-se coberta pelas águas.

Natal turbulento

As notícias de que o rio iria continuar a subir chegavam da Régua. Nesse dia perderam-se mais de 60 barcas de carga, carregadas com mercadorias destinadas à atividade comercial, e até o iate inglês «Ceylon», abalroado por uma delas “carregada de toros de pinheiro”, teria sido arrastado, não fosse a pronta intervenção dos pescadores da Afurada”. Ao final da tarde, a Praça da Ribeira estava, já, submersa e, nessa mesma noite, a mais sinistra desde há muito tempo , em que “o vento soprou, demolidor e as águas corriam fortes e barrentas, a velocidade do caudal registava as 11 milhas horárias”.
Às primeiras horas do dia 23, o pânico generalizou-se, já que, do lado do Porto, o rio galgou o Muro dos Bacalhoeiros com tal força, que arrastava tudo o que encontrava e, em Gaia, transbordava, também, a margem, destruindo as mais típicas lojas de comércio e edifícios da época.
Com a preia-mar, ao meio-dia, o nível das águas encontrava-se a escassos centímetros do tabuleiro inferior da ponte Luiz I, tendo, as autoridades, equacionado a sua demolição com explosivos. A tragédia multiplicava-se e as notícias da época falam de suicídios, gente desesperada e na miséria. Ao anoitecer, a chuva abrandou e, na manhã da véspera de Natal, a água recuou. No dia 25 o sol brilhava e pôde-se, enfim, respirar de alívio.

As cheias na «memória coletiva»

Em Portugal, as localidades do vale do Douro são as mais afetadas pelas cheias -Porto, Vila Nova de Gaia e Peso da Régua. Tanto em território nacional, como em Espanha, encontram-se diversas marcas que demonstram os níveis atingidos pelas grandes cheias do passado. Os registos históricos referem-se, em geral, às que se revestiram de carácter “extraordinário”, não havendo memória das de carácter anual que não provocaram prejuízos.

As graves consequências do fenómeno “motivaram a vinda, pela primeira vez, em solene procissão de penitência, da imagem do Senhor de Matosinhos”, como refere Alberto Bessa, num artigo de «O Tripeiro».

A mais antiga de que há registo ocorreu em 1526, causando inúmeros prejuízos em Porto e Gaia. As graves consequências do fenómeno “motivaram a vinda, pela primeira vez, em solene procissão de penitência, da imagem do Senhor de Matosinhos”, como refere Alberto Bessa, num artigo de «O Tripeiro». A imagem seria trazida por mais duas vezes – 1585 e 1596 – anos em que se registaram outras duas grandes cheias com consequências fatais em ambas as margens. A memória coletiva preservou, ainda, a data de 1625 como a de uma outra cheia memorável, na qual as águas do Douro quase cobriram a parte antiga do convento das freiras de Vila Nova de Gaia, facto que terá compelido as religiosas a edificar a parte nova, numa cota superior.
A construção de barragens, no Douro, amansou a força das águas, atenuando a intensidade das cheias, embora ainda existam alguns registos nos últimos anos.

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