08 Agosto 2022, 07:02

“É impossível não errar quando estamos a lidar com uma pandemia sem precedentes” – Entrevista a António Lacerda Sales

Andreia Cavaleiro AdministratorBlocked

António Lacerda Sales é um dos rostos visíveis da pandemia. Aos 59 anos, o Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, que se emocionou no dia em que Portugal não registou qualquer morte por Covid-19, admite que o mais difícil continua a ser lidar com as vidas que se perdem diariamente, mas garante que foi educado para “servir e ajudar o próximo”, como médico ou como político. Ao Mundo Atual revela que até ao final do primeiro semestre Portugal terá recebido 7,2 milhões de vacinas e que o objetivo não se alterou: ter, até ao final do verão, 70 por cento da população vacinada. O, também, médico defende ainda que o Serviço Nacional de Saúde “será sempre um produto inacabado”, mas sublinha: “Foi este Governo e o anterior a colocá-lo no centro das prioridades”.

O País prepara-se para a terceira fase do desconfinamento gradual. Como está a correr até agora
Iniciámos a primeira fase de desconfinamento a 15 de março, de forma rigorosa e cautelosa, e o sucesso dessa fase permitiu iniciarmos a 2ª fase no dia 5 de abril. Como sabemos, a evolução da situação epidemiológica é feita diariamente, numa estreita colaboração com os organismos, com recurso a indicadores bem definidos e do conhecimento público, acompanhados através da matriz de risco. É essa evolução que irá definir o sucesso desta fase do desconfinamento.
Sabemos que ao dia de hoje [n.d.r. 12 de abril], temos 21 concelhos com uma incidência acima do limite definido, ou seja, de 120 casos em 14 dias por 100 mil habitantes. Isto prova-nos que não podemos baixar a guarda e que temos de agir de forma cautelosa, porque o vírus não desapareceu, a prevenção ainda é a nossa melhor arma.

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O cansaço da população, devido ao confinamento, é o maior inimigo do combate nesta altura?
É natural que, à medida que o tempo avança, a chamada fadiga pandémica se acentue. Já lutamos contra uma pandemia que mudou as vidas de todos há mais de um ano. Porém, considero que os portugueses têm revelado, desde o início, um extraordinário sentido de responsabilidade e de compromisso, que têm mantido e que será determinante, como no passado, para o sucesso desta nova fase que iniciámos dia 5 de abril.

Em janeiro afirmou que teríamos, pela frente, semanas difíceis. E agora? É seguro afirmar que o pior já passou?
Se há coisa que a Covid-19 nos tem ensinado, é que não podemos ignorar, ou menorizar, o risco que este vírus representa. Se é verdade que hoje, graças à vacinação, conseguimos proteger as populações mais vulneráveis, em particular os mais idosos, reduzindo a gravidade da doença, os internamentos e a mortalidade – não é menos verdade que temos hoje novas variantes que merecem a nossa preocupação. Mas 85% da população com mais de 80 anos já foi vacinada com a primeira dose, cerca de metade dessa população já tem vacinação completa. São dados que nos dão alento e motivação, mas não nos distraem do rumo que temos de continuar a seguir. Não podemos abrandar nos cuidados que todos devemos ter, para não voltarmos a viver uma situação semelhante à que vivemos em janeiro deste ano. Tudo temos que fazer para controlar as variáveis que conhecemos.

Desde o início que definimos um caminho: controlar a pandemia e garantir que nenhum português ficava sem acesso aos cuidados de saúde necessários.

Gerir informação, técnica e científica, em tempo real motiva críticas de falta de planeamento. Poderia ser de outra forma? Com os números a mudar em horas…
A gestão de uma pandemia é a gestão da incerteza. No entanto, estamos mais preparados hoje do que estávamos no início: conhecemos melhor o vírus e o seu comportamento, não só pela quantidade e qualidade da informação agora disponível, mas também pela experiência que fomos adquirindo, a nossa própria experiência e a de terceiros, isso dá-nos uma maior e melhor capacidade de decisão. Contudo, não se pode dizer que não existiu planeamento quando, após um ano de pandemia, verificamos que o SNS resistiu sempre a sucessivos aumentos de pressão sobre os serviços de saúde, garantindo a resposta necessária, e registamos melhorias estruturais em áreas como a Saúde Pública e os Cuidados Intensivos. Desde o início que definimos um caminho: controlar a pandemia e garantir que nenhum português ficava sem acesso aos cuidados de saúde necessários, quer no âmbito COVID, quer na restante atividade assistencial. Tudo fizemos, no curto, médio e longo prazo, para manter essa capacidade de resposta – e isso exigiu planeamento e adaptação constante, em tempo real. Quando todos preconizavam o colapso do SNS, resistimos e isso deve-se ao planeamento que foi feito e à capacidade extraordinária dos serviços se adaptarem e se organizarem no terreno. Se há coisas que poderíamos fazer diferente? Há sempre e é essa aprendizagem diária que procuramos incorporar nas decisões que somos chamados a tomar.

“É cedo para fazer uma avaliação exaustiva e definitiva da nossa resposta”

A comunicação falhou no Natal mas parece ter sido eficaz na Páscoa. O que mudou?
O tempo, e mais uma vez a experiência, irão permitir compreender melhor o que aconteceu no Natal e, consequentemente, compreender o que esteve na origem da situação epidemiológica que vivemos depois. A evidência técnico-científica mostra-nos que o frio poderá ter influenciado, as novas variantes e, naturalmente, alguns comportamentos que não respeitaram integralmente os cuidados necessários. Depois dessa experiência difícil para todos nós, o Ministério da Saúde procurou continuar a dar resposta. Não baixámos os braços, quando nos acusaram de estar entre os piores e também não nos sentamos quando nos colocam entres os melhores. Não estamos perante uma corrida de curta distância, é uma maratona e às vezes com obstáculos.

Considera que existiram erros que podiam ter sido evitados? O primeiro-ministro já assumiu que existiram…
É impossível não errar quando estamos a lidar com uma pandemia sem precedentes nos últimos 100 anos, mas ainda é cedo para fazer uma avaliação exaustiva e definitiva da nossa resposta à pandemia. Deixemos à História o que é da História. Tomámos sempre as nossas decisões com base na melhor evidência a cada momento. Mas mais importante do que uma avaliação definitiva, é que soubemos sempre avaliar em cada momento a nossa resposta e melhorar, com humildade, o que era necessário.

O investimento circunstancial que foi feito permitiu-nos mudar estruturalmente o Serviço Nacional de Saúde.

Estamos preparados para uma (eventual) 4.ª vaga?
Estamos mais preparados do que estávamos nas vagas anteriores. Temos mais recursos humanos, um investimento que já se vinha a verificar e que se intensificou com a pandemia. Mas temos também mais camas, maior capacidade de resposta ao nível dos cuidados intensivos e da saúde pública. Para além disso, estamos prestes a concluir a 1ª fase de vacinação e, com isso, sabemos também que teremos menor mortalidade e morbilidade associada à COVID-19.

“Mantemos o nosso objetivo de ter 70% da população vacinada até ao verão”

Temos cerca de 6% da população vacinada. Os números batem certo com as previsões do Governo?
Relativamente à vacinação, tudo o que dependia estritamente da ação do Governo foi feito. Temos mantido a máxima de que vacina chegada é vacina administrada. Não podemos ignorar os constrangimentos provocados pela falta de vacinas e o senhor Primeiro-Ministro na Presidência da UE, tem feito tudo o que está ao seu alcance para ultrapassar as dificuldades existentes. Apesar disso, mantemos o nosso objetivo de ter 70% da população vacinada no final do Verão.

Relativamente à vacinação tudo o que dependia estritamente da ação do governo foi feito. Vacina chegada é vacina administrada.

O problema com as vacinas, as pessoas que as receberam indevidamente, terminou?
Depois de uma fase inicial de maior perturbação na aplicação do plano de vacinação, as clarificações feitas permitiram ultrapassar quaisquer dúvidas sobre como deveria correr o processo de vacinação.

Há previsão da chegada de novas vacinas?
A previsão é da chegada de vacina da JANSEN a território nacional no dia 15 de Abril (31.200 doses), havendo novas chegadas de vacinas previstas para a 2.ª quinzena do mês. Portugal receberá cerca de 1.8 milhões de vacinas em abril, 1.4 milhões de vacinas em maio e 1.7 milhões de vacinas em junho, totalizando (com as que já recebemos anteriormente) cerca de 7,2 milhões de vacinas no conjunto do 1.º semestre.

Qual é o plano até conseguirmos atingir a imunidade de grupo?
Continuarmos a vacinar. Continuarmos a testar. Continuarmos a rastrear. Continuarmos a acompanhar diariamente evolução da situação epidemiológica e agir decisivamente sempre que necessário. E, para além disso, naturalmente mantermos todos os restantes cuidados enquanto agentes de saúde pública: distanciamento físico, lavagem das mãos e utilização de máscara.

“Foi este Governo e o anterior a colocar o SNS no centro das prioridades”

Disse recentemente que o objetivo é testar cada vez mais. Mas já somos dos países da Europa que mais testes realiza…
É verdade e é um dado que deve orgulhar-nos, que se tornou possível graças ao plano de expansão laboratorial do Governo, que aplicou 8.4 milhões de euros para dotar o país da necessária resposta nesta área, para além da aquisição de testes PCR e testes rápidos, que nos trouxe ganhos em saúde pública. Porém, perante as novas variantes e dada a incidência que registamos, precisamos de continuar a testar, a testar mais, nomeadamente através de rastreios populacionais dirigidos a sectores potencialmente mais vulneráveis, como as escolas, os sectores laborais, os trabalhadores sazonais, as populações migrantes. Não podemos esquecer que testar mais é também uma forma de quebrarmos cadeias de transmissão.

O Serviço Nacional de Saúde acabou «beneficiado» pelo investimento que teve que ser feito devido à pandemia. Mas ainda é preciso mais…
O investimento circunstancial que foi feito permitiu-nos mudar estruturalmente o SNS, recordo que o OE deste ano regista um reforço de 1210 milhões de euros destinados às prioridades governativas, nomeadamente a qualificação do acesso, a motivação dos profissionais de saúde e o investimento na rede do Serviço Nacional de Saúde. Relembro também que o Plano de Recuperação e Resiliência prevê um investimento total de 1.383 milhões de euros em diversas vertentes para reforçar a capacidade do Serviço Nacional de Saúde. O SNS será sempre um produto inacabado e a nossa missão é continuar a preservá-lo e a melhorá-lo diariamente, mas não há dúvidas nenhumas de que foi este Governo e o anterior a colocá-lo no centro das prioridades, mesmo antes do quadro pandémico.

O problema com as vacinas, as pessoas que as receberam indevidamente, terminou?
Depois de uma fase inicial de maior perturbação na aplicação do plano de vacinação, as clarificações feitas permitiram ultrapassar quaisquer dúvidas sobre como deveria correr o processo de vacinação.

Há previsão da chegada de novas vacinas?
A previsão é da chegada de vacina da JANSEN a território nacional no dia 15 de Abril (31.200 doses), havendo novas chegadas de vacinas previstas para a 2.ª quinzena do mês. Portugal receberá cerca de 1.8 milhões de vacinas em abril, 1.4 milhões de vacinas em maio e 1.7 milhões de vacinas em junho, totalizando (com as que já recebemos anteriormente) cerca de 7,2 milhões de vacinas no conjunto do 1.º semestre.

Qual é o plano até conseguirmos atingir a imunidade de grupo?
Continuarmos a vacinar. Continuarmos a testar. Continuarmos a rastrear. Continuarmos a acompanhar diariamente evolução da situação epidemiológica e agir decisivamente sempre que necessário. E, para além disso, naturalmente mantermos todos os restantes cuidados enquanto agentes de saúde pública: distanciamento físico, lavagem das mãos e utilização de máscara.

Os enfermeiros denunciam quase semanalmente os contratos de 6 meses…
Os contratos temporários foram uma resposta num momento de emergência nacional, mas que têm sido alvo de conversões em contratos de trabalho sem termo. Hoje, o SNS tem mais 10 mil enfermeiros do que em 2015. Neste âmbito, o Governo não deixará de adotar todas as medidas que garantam que as necessidades permanentes e próprias dos serviços, sejam asseguradas mediante constituição de adequado vínculo jurídico de emprego.

Mais 950 mil consultas em 2021

A atividade não Covid (consultas, cirurgias) como está?
Estamos empenhados na recuperação da atividade assistencial não programada que tivemos de suspender face ao contexto pandémico, à semelhança do que aconteceu em toda a Europa. Por isso já contratualizamos nos acordos modificativos dos contratos programas com os hospitais, mais 9,5% de consultas externas do que em 2020. Isto traduz-se em mais de 950 mil consultas. Contratualizamos também mais 22% de cirurgias programas, ou seja, cerca de mais 83 mil cirurgias que em 2020.
Para além disso, foi estendido para 2021 o regime excecional de incentivos à realização de atividade assistencial não realizada ou adiada por força da situação epidemiológica, promovendo a recuperação da atividade no SNS, aumentando a remuneração aos seus profissionais e fomentando a atividade fora dos horários normais de trabalho.
E não podia deixar de destacar os programas que permitem o acréscimo de atividade do tratamento de doentes crónicos, ao nível do VIH/SIDA, Hepatite C e Oncologia, por exemplo, e o forte aumento da hospitalização domiciliária e da telemonitorização, no cuidado à distância de doentes com DPOC, enfarte agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca.

Portugal sai, pós pandemia, melhor preparado para o futuro?
Estamos sem dúvida mais bem preparados. Temos mais capacidade de resposta, com mais camas em enfermaria e em Unidades de Cuidados Intensivos. Num ano conseguimos duplicar o número de ventiladores no Serviço Nacional de Saúde. Estamos continuamente a reforçar o SNS em matéria de recursos humanos, com a introdução de mais de 8.400 profissionais. Mais do que mudanças circunstanciais, foram mudanças estruturais. Porque muitas das necessidades nasceram com a pandemia, mas irão continuar depois dela.

A FECHAR

“Fui educado para servir e para ajudar o próximo”

«O mais difícil é tirar a morte e os que já morreram do pensamento».
É uma afirmação sua. Continua a ser o mais difícil?

Continua. Seja como decisor político agora, seja como médico, ao longo da minha vida dediquei-me a fazer tudo o que está ao meu alcance para salvar vidas. Fui treinado para isso na Escola de Medicina e no exercício da minha profissão e não é possível relativizar a morte, porque cada uma delas significa uma vida perdida insubstituível.

O que mudou no político e no médico?
O médico tornou-se mais compreensivo perante o tempo que medeia a decisão política e a ação. O político tornou-se mais sensível às necessidades do SNS e em particular dos profissionais de saúde. Tenho dito isto de forma vincada em muitas das intervenções que tenho feito: eles são a alma, o coração e a força do nosso SNS. A dedicação com que se empenharam no combate a esta pandemia é inigualável.

Qual foi o pior momento do último ano?
O momento em que registámos níveis de mortalidade que qualquer decisor político e, acima de tudo, qualquer profissional de saúde, jamais esquecerá. Níveis provocados por uma doença que colocou uma pressão, sem precedentes, sobre os serviços de saúde e que exigiu respostas que nunca imaginámos que viessem a ser necessárias com a dimensão em que foram implementadas.

O dia 03 de agosto, dia sem vítimas mortais, foi o mais marcante?
Foi simbólico pela esperança e resiliência que representou naquele momento, mas todas as mortes são mais marcantes, porque são a tradução do trabalho que temos de continuar a fazer no combate a esta pandemia.

Um político por engano que não se recusa a servir o País. É uma frase que o define?
Como político, como médico, como cidadão e como pessoa, fui educado para servir, para dar o meu melhor e para ajudar o próximo. É esse espírito de serviço que me define e é com esse espírito de missão que encaro diariamente a minha vida, seja como médico no SNS, seja como político no Ministério da Saúde, seja noutra qualquer função. Enquanto conseguir fazer a diferença na vida de alguém, ou do nosso coletivo, sentir-me-ei feliz e realizado.

* A entrevista foi originalmente publicada na edição impressa do jornal Mundo Atual (nas bancas no dia 17 de abril de 2021).

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