03 Dezembro 2021, 05:05

E na verdade o que nos dói é que nunca quis ser herói

Daniela Maia Autor
Administradora Hospitalar

Foi o dia da tristeza da partida, da gratidão pelo legado, mas, foi sobretudo o dia da discrição e da delicadeza, a que Jorge Sampaio colocou na sua passagem pelo mundo dos homens.

Foram tempos difíceis esses, em que tive o gosto de conhecer Jorge Sampaio. Nesse “imundo tempo carcerário”, “neste País extenuado e exposto”, “neste País de salto e sobressalto”, “neste País a sangue e saque”, nesta “pátria fria”, iniciou Jorge Sampaio a sua ação como resistente anti-fascista. Acabei de citar versos do Doutor Orlando de Carvalho: porque ele foi um poeta de primeira água e a beleza dos seus versos ajuda a amenizar a rudeza da minha prosa; mas, sobretudo, porque o quis trazer para junto de nós – a ele que foi um dos grandes mestres de cidadania da nossa geração de estudantes”
Elogio do Presidente da República Jorge Sampaio, Apresentante do doutor António Mascarenhas Monteiro na cerimónia do seu doutoramento honoris causa, 8 de junho de 2000
In Avelãs Nunes, ofício do orador, 2014

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No passado dia 10 de setembro, Portugal emocionou-se em silêncio. Foi o dia da tristeza da partida, da gratidão pelo legado, mas, foi sobretudo o dia da descrição e da delicadeza, a que Jorge Sampaio colocou na sua passagem pelo mundo dos homens.
Imediatamente, redes sociais foram inundadas de fotos e relatos de como o Cidadão- Presidente se cruzou na vida de tantos. Sorrio ao escrevê-lo, mas não creio que haja muitos Homens com percursos tão notáveis pressentidos com tamanha proximidade. Se a vida tivesse dois lados, era do seu lado que gostaríamos de ser relembrados, nem que fosse na escolha do café da esquina.
Disse-me uma amiga a propósito desta pressentida proximidade: gosto tanto dele, mas nem sei bem porquê. Compreendo. É que Jorge Sampaio mostrou que a vida não os tais dois lados definidos, é um devir de momentos perante os quais se posicionou com a fragilidade própria de quem se sabe homem.
A minha geração, que o conheceu, quando terminava o liceu, como secretário-geral do partido socialista e o reencontrou presidente da república, na entrada da vida adulta, teve muita sorte. A sorte de ser representada por um homem que, neste País de salto e sobressalto, fazia política como quem tocava piano, umas vezes com a sensibilidade de um prelúdio de Chopin, outras, a inquietude de uma sinfonia de Mahler e que, delicadeza, o aproximava do Olimpo, enquanto se confundia com os homens.

Até sempre, Senhor Presidente!

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