28 Outubro 2021, 01:15

“É preciso contratar, pelo menos, 250 psicólogos” – Entrevista a Francisco Miranda Rodrigues

Nunca se falou tanto de saúde mental como no último ano e meio. Uma pandemia virou o mundo de pernas para o ar e deixou o alerta para uma problemática em crescendo em Portugal e no Mundo. Mas o Bastonário da Ordem dos Psicólogos confirma que há ainda um “longo caminho a percorrer” para que a Saúde Mental deixe de ser o “parente pobre” dos cuidados de saúde e volta a alertar para a necessidade de contratar, no imediato, 250 profissionais para os centros de saúde. Com um Plano Nacional de Saúde Mental na gaveta “há décadas”, Francisco Miranda Rodrigues diz ao Mundo Atual que é preciso resolver, de uma vez por todas, os problemas no acesso aos psicólogos e lamenta que o Plano de Recuperação e Resiliência não aborde a resolução desse e de outros problemas.

A pandemia veio confirmar a necessidade de se olhar mais para a saúde mental dos portugueses?
Veio. Nunca houve tanta visibilidade para os temas relacionados com a saúde mental e com os problemas que, no fundo, todas as pessoas podem ter ao longo da sua vida e que afetam a saúde mental. Também é cada vez mais evidente a diferença entre ter uma perturbação mental (um problema mais grave na saúde mental) e ter sofrimento psicológico, reações adaptativas que podem ser problemáticas e que podem exigir mais do que aquilo que às vezes conseguimos dar de nós próprios para ultrapassar as situações e os desafios que temos pela frente. Isso não é necessariamente doença mental, mas não é menos importante e necessita igualmente de intervenção. Para muitos de nós, em alguns momentos da nossa vida, é natural que precisemos de apoio, e às vezes apoio especializado, para poder ultrapassar mais rapidamente essas situações e prevenir que não venhamos a desenvolver problemas mais graves de saúde mental.

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Mas a saúde mental não continua a ser o parente pobre dos cuidados de saúde?
Continua. Há um caminho enorme a percorrer para que possamos ultrapassar essa situação. Dificilmente se vai recuperar em poucos anos aquilo que ficou por fazer durante tanto e tanto tempo. De acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde a saúde é mais do que a saúde física. É a saúde física, mental e social. E é mais do que a ausência de doença. É também bem-estar. Mas essa definição fica esquecida na maior parte das ações de efetivação política do compromisso dos estados para garantir as condições para que os cidadãos tenham melhor acesso à saúde. É muito importante que se possa olhar para isto sem ser só no contexto da saúde porque as políticas de saúde pública não podem ser só de uma espécie de pelouro, do pelouro do Ministério da Saúde, por exemplo. A saúde é transversal do ponto de vista de políticas. Temos de olhar para as escolas e, do ponto de vista precoce, termos programas para prevenir. E depois ao longo de todo o ciclo de vida e em diferentes contextos. E não estamos a falar de doença mental. Estamos a falar de comportamentos. Dos comportamentos que todos temos.

É cada vez mais evidente a diferença entre ter uma perturbação mental e ter sofrimento psicológico.

Estamos a ingerir demasiadas calorias? Estamos a fazer exercício físico como deveríamos ou não? Estamos a cuidar de nós próprios no sentido de não trabalhar excessivamente? Estamos a ser capazes de cuidar do nosso sono? Isso é política de saúde. Assim como é política de saúde aquilo que se passa nos locais de trabalho. É importante ter locais de trabalho saudáveis.

PRR não vai resolver situação nos centros de saúde

Mantém-se a necessidade de mais e melhor investimento na saúde mental?
Mantém-se a necessidade de os compromissos que foram assumidos no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência serem cumpridos e com isso as pessoas mais vulneráveis e que têm doença mental possam finalmente passar a ter melhor acesso a serviços nesta área. Mas, lamentavelmente, o Plano de Recuperação e Resiliência não prevê intervenções em muitas áreas. Do ponto de vista da prevenção, dos cuidados de saúde primários, da presença dos psicólogos nos centros de saúde e desse trabalho ao longo do ciclo de vida. Não há nada disso previsto. Nem nos locais de trabalho. Devia haver planos que estimulassem as empresas a apostar em boas práticas, no desenvolvimento das lideranças, na avaliação dos riscos psicossociais e depois em planos de intervenção. Toda essa dimensão não está prevista. Não é grave se vier a estar prevista noutro tipo de planos ou no próprio Orçamento do Estado, mas é importante que o país se comprometa com isso ou ficaremos muito aquém do necessário.

Mas o PRR aborda o Programa Nacional de Saúde Mental. O que se pode esperar?
Que finalmente se cumpra o que o Plano Nacional de Saúde Mental já previa há mais de uma década. Isso pode-se esperar, espero que se concretize mesmo o que lá está e isso vai resolver muitas situações das pessoas mais vulneráveis. Mas, a julgar pelo que está no que é conhecido do PRR, não vai responder a muitas áreas que são importantes para a saúde mental. Logo a começar nos centros de saúde, do ponto de vista preventivo e da promoção de saúde, e também noutros contextos, como por exemplo as organizações. Nos centros de saúde não podemos esperar que o PRR resolva isso porque não está lá prevista essa resolução.

Disse recentemente que os centros de saúde são o calcanhar de Aquiles. Alguma coisa mudou?
Mudou muito pouca coisa. Quase nada. No âmbito das contratações de resposta a esta crise pandémica foi possível contratar, entre outros profissionais, também psicólogos para os centros de saúde. Em contratos temporários de quatro meses, renováveis. Isso foi possível e têm acontecido um pouco por todo o país contratações destas. Contratações precárias. Deixam-nos sempre muito expectantes do que vai acontecer ao nível das intervenções e do trabalho destas pessoas a prazo. Mas, apesar de tudo, é um positivo terem existido. Por outro lado, não mudou nada no restante. As contratações do ponto de vista estrutural para os centos e saúde continuam por acontecer. Terminará daqui a dois ou três meses o concurso que foi aberto para os estágios da carreira que colocará 40 psicólogos nos centros de saúde. Não são necessariamente 40 novos psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), porque podem vir de outros serviços do SNS, mas será um reforço. Agora isto é muito curto para o que é esta realidade de tempos de espera enorme e de enorme dificuldade de acesso. Poder-se-á dizer que somos nós que dizemos isto porque somos parte interessada do ponto de vista corporativo, mas a verdade é que quem está a perder com isto, acima de tudo, são as pessoas. E há relatórios de entidades completamente independentes que o dizem também. O mais recente de todos o da OCDE, que apontava muitas barreiras no acesso aos cuidados de saúde mental em Portugal. Portanto, é a porta de entrada do SNS que precisa de uma rápida intervenção porque são as pessoas mais vulneráveis, que não têm possibilidades do ponto de vista económico para recorrer ao privado, que estão a ficar privadas de acesso aos cuidados que necessitam. Estamos a aumentar o fosso entre quem tem condições económicas e quem as não tem.

Há sítios onde é preciso esperar anos por uma consulta

QTem dados sobre os reais tempos de espera no SNS para uma consulta?
Temos alguns dados de locais por esse País fora. Infelizmente não existem dados agregados nacionalmente. O Serviço Nacional de Saúde não tem esses dados para disponibilizar no que diz respeito à psicologia. Mas sabemos que os tempos de espera são grandes, mesmo para a primeira consulta. Muitas vezes estamos a falar de seis meses em muitos sítios e há casos extremos em que é preciso esperar anos. E depois para a segunda sessão e posteriores estamos a falar de outro tanto tempo de espera. E isso não é compatível com o sucesso das intervenções. É muito difícil ter efetividade e resultados nas intervenções, como as pessoas precisam, com tempos destes. E não há volta a dar. Ou se colocam mais recursos, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, ou esta realidade não vai mudar.

O que é preciso que se faça a curto prazo?
É preciso que se contrate um número de psicólogos que permita dar resposta às necessidades das pessoas. Isso implica, nos cuidados de saúde primários, pelo menos duplicar o número atualmente existente. Estamos a falar de contratar, pelo menos, 250 psicólogos. Com isso já estaríamos a mudar algo de significativo no acesso aos cuidados. É um bom começo. Depois seria necessário também mudar algumas coisas na organização do próprio sistema. A forma como o acesso é feito nalguns casos, dentro até do próprio Serviço Nacional de Saúde ou entre serviços públicos, deve ser mais clarificada e ter melhorias de forma a haver mais rapidez no acesso. Por exemplo, quando é identificada uma situação numa escola essa criança ou jovem deve, o mais rapidamente, poder ser atendido no centro de saúde. Isso implica mais recursos no centro de saúde, mas também que os protocolos de cooperação funcionem muito bem, que esteja bem definido o que deve ser feito. Ou entre a linha de aconselhamento psicológico do SNS e os centros de saúde. Isso hoje em dia não é possível, porque não está previsto em termos de acesso. Esse protocolo de articulação não existe. E se existisse teríamos novamente o problema: quantos meses depois é que essas pessoas seriam atendidas nos centros de saúde?

No fim do mandato “gostaria de menos obstáculos no acesso aos psicólogos”

Quais são os principais desafios do Bastonário?
Os desafios dos psicólogos e das psicólogas. A cada momento. E no mundo que nós vivemos de enorme incerteza, muita volatilidade, estão sempre a mudar. E esses desafios dos psicólogos e das psicólogas não podem deixar de ser os desafios da sociedade no mundo atual. Se o mundo atual neste momento lida com uma pandemia como não tínhamos memória de lidar então esse é o desafio dos psicólogos e das psicólogas e é o desafio que o bastonário tem. E se temos uma crise climática como aquela que atravessamos com tanta gravidade esse também é um desafio dos psicólogos e das psicólogas e, por isso, também do seu bastonário.

Que objetivos tem para os próximos anos do mandato?
Pretendo concretizar, com a minha equipa, o programa que apresentámos aos psicólogos no final do ano passado e que foi a votos. Tencionamos cumprir, como já no mandato anterior cumpri largamente com aquilo com que me tinha comprometido. E isso significa, de uma forma muito alinhada com objetivos para o desenvolvimento sustentável e com aquilo que são as necessidades das políticas públicas em Portugal também, no quadro dos seus compromissos internacionais, sermos um parceiro que apoie à melhor concretização do alcance dos objetivos que temos enquanto país nessas diferentes áreas. Gostaria muito de, chegado ao fim do mandato e deste trajeto na Ordem dos Psicólogos Portugueses, que terminará nessa altura, poder ver claramente uma profissão ainda mais valorizada do que é hoje, ainda mais reconhecida e com menos obstáculos ao acesso aos psicólogos e psicólogas.

Há 24 mil psicólogos em Portugal, mas pouco mais de 1000 no SNS… O desinteresse por esta problemática é comum a todos os Governos?
Eu não sei se hoje em dia se pode chamar totalmente desinteresse. Julgo que isso também pode ser injusto. Não tem havido a capacidade de tomar todas as medidas mínimas necessárias para resolver este problema da falta de psicólogos, mas há o reconhecimento que isso é um problema grave. Há um reconhecimento da Senhora Ministra da Saúde. Toda a equipa governativa reconhece, e a anterior também reconhecia, que existe uma lacuna enorme nessa matéria.

Maior entrave são as barreiras no acesso aos psicólogos

De que forma se combate o estigma e o preconceito relacionado com a procura de ajuda?
Combate-se com acesso e com alguma ajuda da literacia. Penso que são as duas questões essenciais. O que nós temos vindo a assistir com esta pandemia é um bocadinho a demonstração disso. Quando se dá acesso as pessoas recorrem aos serviços. E recorrem com grande expressão. O que significa que, pelos vistos, o estigma não é assim tão grande. Quando há muitas barreiras será que o não acesso acontece devido ao estigma ou devido às barreiras? Também é importante a literacia, ou seja, a compreensão de como é que nós funcionamos do ponto de vista psicológico, como isso contribui para a nossa saúde ou não e a que sinais devemos estar atentos. E o que devemos fazer quando sentimos isto ou temos aquela resposta mais emotiva.

Quando é identificada uma situação numa escola essa criança ou jovem deve, o mais rapidamente, poder ser atendido no centro de saúde.

E se isso é significativo ou não é. Isso é literacia e ter esta literacia ajudará a pedir ajuda quando é necessário pedir ajuda, a ir buscar as competências que nós próprios temos para ajudar a resolver problemas quando é necessário, a sermos, antes de mais, capazes de identificar o que se passa connosco. Não negamos. Não fazemos de conta. Não dizemos “isso só acontece aos outros. Eu sou forte”. Como se isto tivesse alguma coisa a ver com o ser fraco ou ser forte. E isto é algo que contribui também para o estigma. Hoje já temos fontes credíveis acessíveis, mas é previso divulgar mais. Mas o estigma é como a tradição: já não é o que era.

O preconceito e a ignorância relativamente ao papel do psicólogo são o maior entrave?
Não são. De todo. O maior entrave são as barreiras no acesso ao serviço dos psicólogos.

Considera que ainda existe uma desvalorização do trabalho do psicólogo?
Não. Considero é que ainda não existe a valorização que ambicionamos do trabalho dos psicólogos.
Tem havido uma valorização crescente, mas ainda não é dado o valor devido face áquilo que são as competências que os psicólogos têm, a especialização que muitos psicólogos apresentam. Aí ainda há um caminho a trilhar. Estamos longe da valorização que consideramos ser mais digna e mais justa.

BURNOUT

Tem havido cada vez mais alertas para o burnout. Consegue ter percepção da evolução deste problema em Portugal?
Os dados que vamos tendo é que o burnout é pelo menos uma realidade que tem tido bastante mais visibilidade e, portanto, tem aumentado o número de pessoas que vão relatando queixas a esse nível. Claro que muitas vezes também se confunde o burnout com exaustão. São situações diferentes. Independentemente da diferença são situações, ambas, que têm a sua gravidade e nos alertam para o mesmo: temos que ter cuidado como o trabalho é organizado, como as lideranças executam o seu papel, como as empresas trabalham a sua cultura e como é que as empresas previnem que determinados riscos a que estão sujeitas. Todos nós estamos sujeitos a riscos, as organizações estão sujeitas a riscos. A questão é como é que se lida de modo a atenuar os impactos desses riscos, nomeadamente aqueles que têm que ver com a carga de trabalho, que pode levar a uma exaustão ou a outros aspetos. Pode nem ser a carga de trabalho. Fala-se do burnout, mas podia falar-se em depressão ou perturbações da ansiedade que também surgem muitas vezes. E eu recomendaria que as pessoas consultassem duas fontes muito boas para poderem ficar a conhecer o que estão a sentir um pouco melhor. Por um lado, o site “eusinto.me”, que é exatamente para apoiar as pessoas nesse processo de autoconhecimento, por outro o “maisprodutividade.org”, onde estão informações sobre estes impactos do ponto de vista laboral, que aspetos é que devemos acautelar do ponto de vista do trabalho.

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