09 Setembro 2022, 01:11

Efluentes suinícolas “alimentam” sistemas de rega de prados em Salvaterra de Magos

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Salvaterra de Magos, Santarém, 15 ago 2022 (Lusa) – Sem desperdiçar água, há prados verdejantes a crescerem entre o campo seco de uma herdade em Salvaterra de Magos, distrito de Santarém. Alimentam bovinos, mas só existem graças ao aproveitamento de efluentes suinícolas para os sistemas de rega.


Reduzir a pegada hídrica é um dos desígnios da empresa Valorgado, proprietária da Herdade do Pessegueiro, com 380 hectares, em Salvaterra de Magos, onde foram implementadas medidas de poupança de água, como sistemas de abeberamento para os animais, e de aproveitamento de águas pluviais e residuais, com a construção de três charcas para utilização na lavagem do espaço da exploração suinícola.


Com mais de quatro décadas de experiência na criação de porcos, e já com “as narinas adaptadas” aos maus odores de uma exploração suinícola, Vítor Menino, de 65 anos, administrador da Valorgado, abre os portões da herdade para dar a conhecer os investimentos da empresa em “soluções sustentáveis”, nomeadamente para poupança, retenção e reaproveitamento da água, que foram distinguidas com o Prémio Inovação Zoetis na V Gala de Entrega dos Prémios Porco D’Ouro, que reconheceu os melhores desempenhos das explorações nacionais em 2021.


Dentro da exploração intensiva de suínos em Salvaterra de Magos, onde são produzidos 18.000 porcos por ano, tudo é planeado com rigor, seguindo as normas de bem-estar animal, inclusive na gestação e inseminação, com os partos a serem quase uma rotina diária, sinal de que a produção continua para chegar ao prato do consumidor.


Recentemente, o espaço sofreu alterações nas canalizações e bebedouros para que os animais evitem o desperdício, mas “tendo sempre água suficiente para as suas necessidades”.


No exterior, a empresa construiu três charcas para armazenar a água da chuva, recolhida dos 15.000 metros de área coberta da herdade, “que corresponderão a, sensivelmente, 12 milhões de litros, que caem em cima dos telhados”, e a água residual de escorrimentos do solo envolvente.


A água das chuvas e a água residual de escorrimentos do solo envolvente estão já a ser utilizadas na lavagem e limpeza da exploração suinícola, através de um sistema de bombagem e canalização, indica Vítor Menino, em declarações à agência Lusa, referindo que, no total, por ano, a água reutilizada “ronda os 20 milhões de litros”.


A economia de recursos é acompanhada de poupança económica para a Valorgado, que estima poupar 5.000 euros por ano em energia por ter abdicado do anterior sistema de captação de água do subsolo, mas que, com o atual aumento do preço da energia, pode chegar a representar o dobro desse montante.


Além da eficiência hídrica, há uma poupança económica, porque a água reutilizada fica “sempre muito mais barata” do que a captada através dos furos, realça o administrador da Valorgado, destacando ainda o impacto dos reservatórios para a fauna e a flora.


As charcas enchem no inverno e esvaziam no verão, podendo mesmo ser utilizadas no combate aos incêndios florestais na região do Ribatejo. Neste momento, em pleno mês de agosto, das três que existem, duas estão totalmente secas e uma tem ainda uma poça de água.


Junto a essas águas pluviais e residuais está um reservatório de cimento para onde é encaminhada “a parte líquida do efluente suinícola para o incorporar na terra em prados de regadio”, explica o criador de gado, considerando que esta é uma poupança “extremamente relevante”, porque permite melhorar a capacidade de retenção de água do solo, usando menos água captada do subsolo para fertilizar os prados.


“Através desse método, aumentámos, significativamente, a produção de forragens, que nos permitiu aumentar o encabeçamento”, afirma Vítor Menino, referindo-se à criação de bois e vacas, com cerca de 300 bovinos por ano, que registou um aumento de 80 vitelos em pastoreio direto, sem fertilizantes químicos.


Questionado sobre o impacto da situação de seca registada em Portugal continental se a Valorgado não tivesse avançado com estas medidas de eficiência hídrica, o produtor suinícola assegura: “Aqui, felizmente, teríamos água. A propriedade não tem falta de água no subsolo”.


Apesar disso, o empresário encara com “muita apreensão” o futuro, nomeadamente os fenómenos de temperaturas extremas “cada vez mais constantes”.


Contudo, Vítor Menino assegura que o setor de suinicultura está mobilizado para o combate ao desperdício de água e defende a necessidade de “uma consciência coletiva”, inclusive dos políticos, para se apostar na reutilização das águas residuais tratadas em vez de serem encaminhadas para o mar.


“A adoção deste tipo de medidas nas explorações [pecuárias] poderá vir a ajudar também o país”, sustenta o produtor suinícola, apresentando como argumento a necessidade de produzir proteínas, com respeito pelos animais, pelo ambiente e pela sociedade, de forma a “contribuir para a sustentabilidade do planeta”, afastando a ideia de impacto nocivo da atividade de criação de gado.


Em termos de sustentabilidade, a Herdade do Pessegueiro conta ainda com painéis solares fotovoltaicos para a produção de energia elétrica.



SSM // VAM



Lusa/fim

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