24 Setembro 2021, 10:58

Exposição com 200 obras de 40 artistas portuguesas contraria ausência na História da arte

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Lisboa, 31 mai 2021 (Lusa) — Uma exposição com 200 obras de 40 artistas portuguesas abre ao público na quarta-feira, em Lisboa, com diálogos entre universos autorais, e sublinha a ideia da reparação da ausência feminina na História da Arte.


Intitulada “Tudo o que eu quero — Artistas portuguesas de 1900 a 2020”, a mostra, com curadoria de Helena de Freitas e de Bruno Marchand, resulta de uma iniciativa do Ministério da Cultura com projeto curatorial da Fundação Calouste Gulbenkian, onde ficará até 23 de agosto.


Este vasto percurso inédito que espelha a criação feminina nas artes portuguesas estende-se em 16 salas da Gulbenkian e nele foram criados diálogos entre as obras das artistas escolhidas pelos curadores, que optaram por compor núcleos com universos autorais.


“Podíamos ter escolhido 200 artistas e uma peça de cada uma, mas não foi essa a nossa ideia”, apontou Helena de Freitas, durante a visita de apresentação da mostra aos órgãos de comunicação social.


Os curadores recusaram um percurso cronológico, um inventário, um guião prévio ou uma narrativa fechada, propondo, antes, núcleos autorais de um conjunto de artistas consagradas e outras com menos visibilidade, que representam várias gerações, disciplinas e sensibilidades.


“Por trás desta exposição há uma ideia política”, salientou a curadora Helena de Freitas sobre o convite feito pela ministra da Cultura, Graça Fonseca, que também esteve presente na visita, “e enquadra-se num movimento de reparação da presença das mulheres nas artes plásticas”, onde durante séculos estiveram pouco representadas, recordou.


Os curadores trabalharam várias ideias, nomeadamente as manifestações de “afirmação autoral e força” das artistas, patente logo nas primeiras obras que se apresentam aos visitantes, como as esculturas de Fernanda Fragateiro e Clara Menéres, ou o painel de azulejos montado em homenagem a Maria Keil, ou às instalações provocatórias de Luisa Cunha, que foram colocadas nas casas de banho, “como ironia aos protocolos dos museus”.


Ao longo das 16 salas, os visitantes vão encontrar artistas de referência como Aurélia de Sousa, Maria Helena Vieira da Silva, Lourdes Castro, Paula Rego, Ana Vieira, Salette Tavares, Helena Almeida, Joana Vasconcelos, Maria José Oliveira, e Grada Kilomba, entre outras, em trabalhos de pintura, escultura, desenho, objeto, livro, azulejo, instalação, filme e vídeo, do início do século XX até à atualidade.


Aurélia de Sousa (1866-1922) foi a artista escolhida como ponto de partida da reflexão devido à forma como escolheu o seu corpo para tema da sua obra, “reinventando o olhar, num tempo em que as mulheres artistas ainda estavam muito presentes apenas como musas, na condição de ser olhadas sobretudo como modelos”, para outros artistas.


Helena de Freitas recordou que, em Portugal, as mulheres só puderam entrar na Escola de Belas Artes a partir de 1879, uma norma que levou à sub-representação da arte no feminino.


“Escolhemos as artistas que não seriam as mais expectáveis ou consensuais”, disse à agência Lusa o curador Bruno Marchand, quando questionado sobre o critério de seleção ao longo de 112 anos de História da Arte, “assumindo que se trata de um projeto feminista”, com múltiplas linguagens onde podem ser encontradas obras marcantes, como a peça de poesia espacial de Salette Tavares a jogar com as palavras “ouro besouro”.


Para Bruno Marchand, esta exposição “é uma iniciativa que contraria uma mentalidade, a do apagamento sistemático das mulheres artistas, em direção à igualdade de género”, reiterou, sublinhando que “não há nenhuma razão para a disparidade de representação entre artistas mulheres e homens” nas artes.


Por seu turno, a ministra da Cultura disse sentir-se “muito feliz” com a inauguração da exposição, “um dos pontos altos da programação cultural” da Presidência Portuguesa da União Europeia, “pensada justamente para dar visibilidade às artistas portuguesas”.


“O mundo mudou muito nestes 112 anos que aqui estão representados, e mais rápido do que a visibilidade das mulheres na arte”, salientou Graça Fonseca, defendendo que “sobretudo os mais jovens devem sentir que as conquistas importantes devem ser cuidadas e não esquecidas”.


O título da mostra, “Tudo o que eu quero — Artistas portuguesas de 1900 a 2020”, inspira-se em Lou Andreas-Salomé, autora que desenvolveu profundas reflexões sobre o lugar das mulheres no espaço social, intelectual, sexual e amoroso dos últimos séculos, situando o conjunto de artistas escolhidas “no espírito de subtileza, de afirmação e de poder”.


Lou Andreas-Salomé (1861-1937) foi uma ensaísta, filósofa, poeta, romancista e psicanalista nascida na Rússia imperial, que viveu a maior parte da sua vida em vários países da Europa, especialmente na Alemanha, onde veio a falecer.


Mily Possoz, Rosa Ramalho, Maria Lamas, Sarah Affonso, Ofélia Marques, Menez, Ana Hatherly, Maria Antónia Siza, Graça Morais, Maria José Aguiar, Rosa Carvalho, Ana Léon, Ângela Ferreira, Joana Rosa, Ana Vidigal, Armanda Duarte, Patrícia Garrido, Gabriela Albergaria, Susanne Themlitz, Maria Capelo, Patrícia Almeida, Carla Filipe, Filipa César, Inês Botelho, Isabel Carvalho e Sónia Almeida são outras artistas representadas.


A exposição será apresentada em 2022 no Centre de Création Contemporaine Olivier Debré, em Tours, no âmbito do programa geral da Temporada Cruzada Portugal-França.


Inicialmente programada para ser inaugurada a 25 de fevereiro em Bruxelas, no Palácio de Belas-Artes (Bozar), foi deslocada para Lisboa depois de um incêndio, no início do ano, ter inviabilizado a sua apresentação nesse espaço, no âmbito do Programa Cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia.



AG // TDI


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