30 Julho 2021, 16:45

Fogo aceso de laranjas

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Não sei quando deixou de ser dormente, ou sequer, se emergiu do fundo da espera ou do lugar mais recôndito da minha alma.

Se há memória que o tempo não desgasta é a da primeira vez de todas as vezes que cheire a laranjas.
A data era a da comemoração da Tomada da Bastilha e desfilei num vestido branco imaculado para celebrar o Verão.
Era sábado e a cidade de Lisboa estava deserta, jogava a Seleção e iniciara-se o fluxo habitual da cidade para a praia em tempo de férias.
Juntos há um ano, não sabia dizer o que éramos um ao outro.
Sim, depois de nos termos descoberto em abril de Liberdade, tu telefonaste.
Quando já não esperava, quando desistira de acreditar.
Jantava com amigos e a ligação era internacional.

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Reconheci-te na primeira sílaba dita, na pausa do som grave da voz e mil borboletas fizeram da minha barriga rambóia de Primavera.
Ligaste de Berlim, assegurando-me que pensavas amiúde no lume incandescente do primeiro encontro e sonhavas vencer a distância para por fim estarmos juntos.
E assim foi, estivemos muito juntos, por um ano, nas palavras, nos abraços, nos poemas, nos beijos, nos livros, nos encontros demorados em que semeamos vontades, expectativas e desejo para colher depois.
Raramente fui capaz de dizer não a um pedido teu e por isso naquele dia de calor estival, troquei o bilhete para o teatro, por ti, por nós.
O Hotel: o da tua eleição no centro da cidade desabitada.
Recordo o cheiro a laranjas assim que entrei no quarto.
Em cima da mesa duas, uma intacta outra descascada.
Confiaste-nos à penumbra, só um candeeiro de luz ténue como testemunha da noite quente.
É do desejo evidente, perene, iminente que te dou conta agora.
Entrou comigo de mão dada e por ele apagou-se o mundo.
Não sei quando deixou de ser dormente, ou sequer, se emergiu do fundo da espera ou do lugar mais recôndito da minha alma.
E foi urgente o gesto que nasceu na ponta dos meus dedos e desenhou o teu fogo a vivo pastel.
Falo-te do desejo que sabemos de cor, que tatua os nossos corpos, nos navega na pele e desafia os sentidos.
É frágil e forte, é de claridade e de sombra, de chama ardente e de respiração fatigada, de ausência e de saudade.
Tu, sempre sábio nos gestos, leves, encorpados, perfumados como um vinho da mais rara e refinada colheita, prendeste-me perpetuamente com a força do mar contra a barra.
Muitos parecem ser os caminhos para a consumação deste desejo e no entanto, no espaço fechado daquele quarto, só um existiu.
Verificámos coordenadas, comparámos mapas, definimos o destino e de olhos fechados, determinados, de tudo esquecidos, impercetíveis um do outro, aventuramo-nos por trilhos inóspitos, desconhecidos, nunca antes por ambos percorridos.
Falo-te das tuas mãos nos meus cabelos, dos beijos que me depositas demoradamente na nuca, das palavras que deixas na minha memória, do afeto nu quando rendido dizes: – Gosto tanto, mas tanto de ti…
Horas depois, procurei por mim num quarto em desalinho, encontrei-me na forma de um corpo despido de branco imaculado, certa que perdera uma qualquer parte que não mais seria capaz de resgatar, como se o mais essencial de mim tivesse ficado agrilhoada à tua história, à tua vida.
A tua nudez tão tangível, o profundo de ti tão inalcançável.
O que em ti é matéria e sentidos, flutua sem reservas pelas minhas mãos, o que em ti é essência, quero agarrar, deter, mas não alcanço, por dela fazeres dimensão interdita e imperscrutável.
Deslumbra-me ainda hoje, depois de palmilhado tanto caminho, o teu abraço apertado que mal concede espaço ao oxigénio fundamental à vida, a urgência acesa que jamais se extinguiu e que cheira a laranjas.
Passaram-se tantos verões, tantas celebrações da Tomada da Bastilha, tantos dias de calor, tantos sábados em Lisboa, tantos jogos da seleção e sem coragem para dizer a tua falta doida, sussurro-te numa súplica:
– Lembras-te da primeira vez?

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