26 Janeiro 2022, 23:33

Gaia reforça respostas sociais para minimizar impacto da pandemia

Susana Faria AdministratorKeymaster

O atual contexto pandémico agravou a fome e a pobreza em Portugal e os pedidos de ajuda multiplicam-se de Norte a Sul do País. Mas há também situações de extrema vulnerabilidade que são, muitas vezes, esquecidas, como os sem-abrigo e/ou os idosos. Em Gaia, a autarquia tem em «marcha» projetos dirigidos a essa população mais desprotegida. O Núcleo de Planeamento e Intervenção nas Pessoas Sem-Abrigo ou o programa «Chave de Afetos», criado em parceria com a Santa Casa da Misericórdia do Porto, são dois exemplos. E, no caso das pessoas sem-abrigo, o próximo passo é colocar em prática um novo projeto de resposta diurna: um espaço de «drop-in».

O Núcleo de Planeamento e Intervenção nas Pessoas Sem-Abrigo (NPISA) reúne diversos parceiros que colaboram na problemática dos sem-abrigo para dar uma resposta articulada e atempada a estes cidadãos.
Criado em 2020 pela Câmara de Gaia, o NPISA tem apostado no desenvolvimento de soluções para os sem-abrigo e, recentemente, viu aprovada a candidatura ao Programa Operacional Regional do Norte – Norte 2020 com o projeto «InteGrar», que prevê a construção de equipas multidisciplinares para trabalhar, junto destas pessoas, a autonomia, a responsabilização e a inclusão social.
O «InteGrar» é promovido pela autarquia, em parceria com a Gaiurb, a delegação de Gaia da Cruz Vermelha Portuguesa e a Agência Piaget para o Desenvolvimento e contempla a criação de um espaço de «drop-in»: uma resposta diurna de convívio, lazer e atividades.
Assume-se como uma área de socialização que potencia a procura dos serviços, o acesso a informação sobre os recursos existentes na rede social, bem como o acesso a bens de primeira necessidade e a kits alimentares.

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«InteGrar» será composto por um espaço «drop-in»

“O espaço de «drop-in» é uma resposta de convívio para estas pessoas e será sempre um local de socialização e de alguma informação. A partir do momento em que começam a frequentar esta resposta, vão ter acesso a uma série de informação que não chegaria até eles se continuassem na rua”, explicou a vereadora Marina Mendes, em declarações ao Mundo Atual.
O projeto, financiado pelo Norte 2020 através do Fundo Social Europeu (FSE), com 85% do investimento (135 mil euros), – sendo os restantes 15% suportados pelo Município e os demais parceiros – visa a promoção da autonomia, responsabilização, o empoderamento e a inclusão social e contará com uma equipa multidisciplinar para acompanhar de forma personalizada e contínua cada pessoa.
“No âmbito desta candidatura vamos também trabalhar a capacitação e a empregabilidade. Pretendemos criar um grupo de interajuda e um programa de treino de competências de vida. Este projeto contribui para a integração das pessoas sem-abrigo e para que estas possam beneficiar de um acompanhamento integrado e estruturado, de forma que haja de facto uma mudança de vida”, explica, acrescentando: “Queremos, sobretudo, que tenham acesso aos vários serviços: habitação, formação, emprego e saúde”.
O «InteGrar» já está aprovado, mas ainda não tem data para ser iniciado, algo que vai acontecer apenas depois da formalização do local onde estará sediado, que já está escolhido, “mas ainda não pode ser revelado”, frisou a vereadora.

Gaia tem 185 pessoas sem-abrigo sinalizadas

Até lá, os cerca de 185 sem-abrigo sinalizados vão continuar a receber o habitual auxílio da equipa técnica do Núcleo de Planeamento e Intervenção, que conta com elementos ligados a áreas especificas, tornando-se esse um fator de diferenciação.O NPISA foi criado para que as questões dos sem-abrigo sejam tratadas “com alguma especialização” e não como outros casos sociais, porque há características muito próprias destas pessoas”, evidenciou ainda Marina Mendes.
A vereadora gaiense salienta que não é fácil ajudar estas pessoas, pois quando os elementos da equipa técnica são chamados até ao local para fazerem uma primeira avaliação, deparam-se com casos de extrema vulnerabilidade, onde lhes é negada a possibilidade de apoiar.
“Não conseguimos tirar a pessoa sem-abrigo da rua no primeiro dia, a não ser que tenha sido uma fatalidade e seja um caso muito recente. É extremamente difícil ajudar estas pessoas pois só conseguimos retirá-las da rua quando decidem que querem mesmo sair. É impossível convencê-los…muitos recusam ficar em albergues noturnos”, acrescenta.

«Chave de Afetos» dá apoio a 276 idosos

Os idosos estão também na linha de atuação da Câmara de Gaia que através do programa «Chaves de Afetos» apoia 276 seniores no concelho com o objetivo de diminuir o isolamento, promover a inclusão social e as relações afetivas, assim como criar um sentimento de segurança no domicílio.
O programa de teleassistência, desenvolvido em parceria entre a autarquia e a Santa Casa da Misericórdia do Porto, que entrou em funcionamento em 2017, já acompanha 276 idosos em situação de isolamento e insuficiente retaguarda familiar.
Trata-se de um programa integrado de assistência ao domicílio, gratuito, para pessoas com mais de 65 anos de idade, com rendimento inferior ao salário mínimo, que tem como objetivo “diminuir o isolamento de seniores, promover a inclusão social e as relações afetivas, assim como criar um sentimento de segurança no domicílio”, informou a Câmara.

“Este projeto contribui para a integração das pessoas sem-abrigo e para que estas possam beneficiar de um acompanhamento integrado e estruturado.”

O «Chave de Afetos» através de uma componente personalizada, humana e com recurso à teleassistência, sinaliza casos de isolamento, a partir de um aparelho de conversação de acesso automático, disponível 24 horas por dia e 365 dias por ano, com sensor de quedas.
As freguesias de Arcozelo (46), Avintes (34), Grijó e Sermonde (34) e Sandim, Olival, Lever e Crestuma (32) são as que possuem um maior número de idosos em situação de isolamento e insuficiente retaguarda familiar.

GAV Sénior acompanha 74 vítimas de violência

A par da criação, em 2018, do Gaia Protege+ (Gabinete de Apoio a Vítimas de Violência), foi implementado o GAV Sénior, um gabinete especializado no atendimento a vítimas seniores que, em virtude das suas fragilidades, necessitam de um acompanhamento mais dirigido às suas necessidades e que, neste momento, acompanha 74 pessoas.

Objetivo é chegar a cada vez mais idosos

Marina Mendes esclarece que o «Chave de Afetos» começou por ser um projeto com financiamento da «Portugal Inovação Social» e, findados os três anos de vigência, os aparelhos não foram retirados aos cidadãos, porque a Santa Casa de Misericórdia do Porto assegurou a sua continuidade até ao final do ano. O objetivo agora é alargar o serviço e fazer com que mais idosos possam usufruir do sistema.
“Com o aparecimento da pandemia, houve um reforço do programa e do número de idosos abrangidos pelo sistema de teleassistência. Neste momento, estamos a trabalhar para que a partir de janeiro seja possível alargar o serviço a mais pessoas. Queremos chegar até às 500”, revela.
O Município, de forma a prevenir casos de violência contra os idosos e a incentivar hábitos e estilos de vida saudáveis, dinamiza também ações de sensibilização, integradas no programa «A mim não me enganas tu».
“Os objetivos passam por disseminar a perceção de segurança, criar rotinas de autoproteção, fomentar informação sobre burlas, promover ações de capacitação sobre temáticas como nutrição e violência contra a pessoa sénior”, explicou a autarquia em comunicado.

«Ser+Vizinh@» quer combater o isolamento e solidão

O combate ao isolamento da população idosa tem sido, desta forma, uma das grandes missões de Gaia, principalmente numa altura em que a população foi obrigada a refugiar-se em casa e a diminuir a rede de contactos.
O isolamento aumenta a exposição a possíveis fatores de risco na população idosa e para contornar esse problema social está a ser testado na freguesia de Oliveira do Douro o projeto «Ser+Vizinh@», que visa a promoção da inclusão social de idosos.
“Considerando a dimensão e heterogeneidade territorial e populacional do concelho, sentiu-se a necessidade de, numa primeira fase, implementar este projeto numa freguesia, para aferir a sua viabilidade e a adesão por parte da comunidade. Oliveira do Douro, pela sua dimensão e pelas suas caraterísticas, está, assim, a acolher o projeto piloto, que estará no terreno até ao final do ano”, explica a Câmara de Gaia.
O projeto permite, assim, sinalizar situações de vulnerabilidade e perigo, envolvendo os serviços sociais de Gaia, a Junta de Freguesia, a Câmara, o Instituto da Segurança Social, de forma a encontrar uma solução adequada a cada caso, através do recurso a ações de voluntariado. A freguesia de Oliveira do Douro foi dividida territorialmente por lugares, tendo sido selecionados voluntários para monitorizarem e acompanharem a população idosa sinalizada.
A cada voluntário (inscritos na Bolsa de Voluntariado do Município) é afeto “um pequeno grupo de pessoas idosas” para permitir criar uma relação de confiança e estabilidade”.

Grande envolvimento da sociedade civil

O Município acrescenta que os voluntários terão como funções “fazer visitas, verificar o bem-estar e situações de emergência da pessoa idosa (económica, social ou alimentar), reportar alterações no bem-estar e situações de emergência ao coordenador-voluntário, participar em reuniões de grupo e colaborar na realização de dias/atividades lúdicas”.
A autarquia refere que em todo o processo, a comunidade civil também é convidada a intervir, nomeadamente os vizinhos, tendo-se já registado um envolvimento significativo como voluntários.
“Também os jovens, alguns serviços como pichelaria, eletricidade e restauração, bem como as farmácias podem ser parte ativa de um processo que pretende sinalizar casos de isolamento/solidão, carência económica e possíveis situações de violência doméstica”, sublinha.
Ao Mundo Atual, Marina Mendes garante que o projeto “está a correr muito bem” e que foram criadas “redes de vizinhança e de parceria que vão, no fundo, acompanhar as situações dos idosos e desprotegidos para que lhes seja garantido apoio”.
“Todos estes projetos são vitais para os cidadãos gaienses, sobretudo em período de pandemia. São programas sociais que estão ao dispor de todos os cidadãos, principalmente dos desfavorecidas, pois sabemos que são eles que sofrem mais com o impacto dos problemas sociais. Quanto mais respostas sociais tivermos no nosso concelho, menor será o impacto desta crise humanitária”, conclui a vereadora.

Habitação temporária acolhe 8 pessoas

A autarquia de Gaia disponibiliza uma habitação para receber pessoas com um percurso “longo” de reinserção social, funcionado como uma resposta noturna no concelho.
Trata-se de um apartamento partilhado numa habitação disponibilizada pela Gairub que está disponível para acolher oito pessoas durante o tempo necessário até que consigam “dar um salto e tornarem-se autónomas”.
“Esta não é uma resposta urgente, de primeira linha. É apenas uma solução temporária para pessoas com um caminho trilhado na reinserção social e que pretendem voltar a ter uma vida dita normal. Vão continuar a ter uma equipa técnica que fará o devido acompanhamento durante todo o processo”, esclarece a vereadora da Câmara de Gaia.
A decisão de integrar os utentes neste apartamento passa pelas instituições que integram a Rede Social de Parceiros, cabendo ao NPISA a decisão final.
“Após uma avaliação dos processos, é decidido se as pessoas têm ou não as características para entrar no apartamento. É sempre uma decisão partilhada pelos parceiros”, destaca Marina Mendes.

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