07 Setembro 2022, 00:30

“Grandes incêndios vão ser cada vez mais frequentes” – Entrevista com Miguel Almeida, ADAI

Filipa Júlio Administrator

“Tudo leva a crer que os grandes incêndios vão ser cada vez mais frequentes”, diz, sem hesitar, Miguel Almeida, investigador sénior do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI). Em entrevista ao Mundo Atual, considera fundamental que as pessoas nos meios rurais se tornem autónomas em termos de água e energia e que as atividades primárias sejam incentivadas e protegidas.

“Tudo leva a crer que os grandes incêndios vão ser cada vez mais frequentes”, diz ao Mundo Atual, sem hesitar, Miguel Almeida, investigador sénior do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI).

Por isso, alerta, é fundamental que as pessoas, especialmente, nos meios rurais, “se prepararem para ter autonomia em termos de água e energia”, pois são estes que normalmente falham nos incêndios.

Os grandes incêndios de 2017 levaram à criação de uma Comissão Técnica Independente, que analisou as ocorrências naquele ano fatídico, quando arderam mais de 60 mil hectares e morreram 65 civis e dois operacionais, no sentido de evitar a repetição de erros.

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Numa análise à evolução histórica dos fogos em Portugal, verifica-se que decorreram 12 anos entre períodos de grandes fogos, uma vez que foi entre os anos de 2003 e 2005 que mais hectares arderam no território português, embora com perdas de vidas humanas muito inferior às registadas em 2017.

Em 2003 foram consumidos pelo fogo 425.839 mil hectares, o que resultou na morte de 17 civis e quatro operacionais, sendo que em 2005 os incêndios mataram 12 operacionais e 10 civis, e queimaram 325.226 hectares.

Quando ainda vamos a meio da época crítica de risco, neste ano de 2022, arderam já em Portugal 75.277 hectares, sendo que mais de 30 mil na região da Serra da Estrela.

“As ovelhas e as cabras são fundamentais para a economia da Serra da Estrela e para a gestão da floresta. Se esta atividade desaparecer, ou for diminuída, passamos a ter um problema ainda mais grave no futuro da Serra da Estrela. Já têm sentido dificuldades com os preços das rações e esta tragédia pode impeli-los a deixar a atividade de vez”.

Miguel Almeida observou, na Serra da Estrela, “um fogo a progredir com grande intensidade e a uma velocidade rápida, de forma intermitente ao longo do dia”, sempre com “grandes dificuldades” ao nível do combate em virtude “dos combustíveis estarem muito secos e porque se levantava um vento também ele muito seco”.

A estas condições, junta-se uma “orografia muito complexa e acidentada”, o que provoca a mudança constante da direção do vento em áreas “com grande carga combustível e grande disponibilidade para arder”.

Ao longo dos 12 dias de combate (6 a 18), várias localidades e casas isoladas precisaram de proteção, o que foi concretizado através de duas medidas: “Em alguns casos, procedeu-se ao confinamento da aldeia, mantendo as pessoas dentro das habitações, em lugares considerados seguros, e os bombeiros a defenderem perifericamente as casas. Noutros casos, sempre que havia tempo, evacuando a população para outros lugares”.

Salientando “não saber (à data da nossa entrevista), quais os planos de gestão de combustível para aquela zona, nem qual a sua implementação”, o especialista explica o que observou no terreno:

“Havia poucos acessos no interior da floresta, o que complicou grandemente o combate. Havia zonas onde só os meios aéreos chegavam. As descargas reduziam a intensidade, mas não havia consolidação com os meios no terreno, o que fazia reativar o fogo naquelas zonas quando o vento levantava, o que provocava intermitência na propagação. O que mais me apraz dizer é que não tivemos qualquer vítima mortal, nem fatalidades, o que demonstra bem o que se aprendeu relativamente a outros anos”.

Miguel Almeida refuta críticas a alguns aspetos do combate, como a não entrada dos bombeiros pelo meio da floresta: “Ainda bem que não o fizeram, caso contrário poderíamos estar a lamentar vítimas mortais. Nos incêndios do Caramulo, em 2013, morreram bombeiros a tentar combater debaixo da copa das árvores, por causa dos comportamentos irruptivos do fogo”.

“É importante não perder as atividades primárias”

O responsável sublinha que é preciso haver agora “um apoio muito grande às populações” e defende o incremento das atividades primárias.

“As ovelhas e as cabras são fundamentais para a economia da Serra da Estrela e para a gestão da floresta. O queijo é um ex-libris da região, mas igualmente importante é o facto de as cabras e as ovelhas comerem o mato, matéria com que os pastores também fazem as camas dos animais. Se esta atividade desaparecer, ou for diminuída, passamos a ter um problema ainda mais grave no futuro da Serra da Estrela. Já têm sentido dificuldades com os preços das rações e esta tragédia pode impeli-los a deixar a atividade de vez”.
Na viagem pelas terras da Beira Alta, chamou-nos a atenção um verdejante campo de sorgo a contrastar o restante negro da paisagem. Olhamos mais atentamente e avistamos um desses cada vez mais raros pastores. António Simões, de 53 anos, conseguiu salvar as suas 92 ovelhas. Gosta do que faz e dali não quer sair… até ver.

“Andamos a sofrer dia a dia, e desanimamos. O que vamos agora dar ao gado?

No dia do incêndio, ao anúncio de trovoada, mudou as ovelhas de sítio. Enquanto o fogo deflagrava em Lagares da Beira, dirigiu-se para outra quinta, no Salgueiral, mas já não houve tempo para fazer nada.

“Tivemos de fugir, porque ardeu tudo, tudo: árvores de fruto, horta, mangueiras. Só ficou a casa. Não havia hipótese. O vento era muito forte. E agora, sem chuva, primeiro que haja comida para elas outras vezes”, relatou.

“A floresta não dá lucro”

Para os ambientalistas, uma das grandes problemáticas incide sobre as monoculturas, com o eucalipto no centro das discussões.

“O conceito de florestas com diferentes espécies é muito interessante, pelo seu valor turístico e biológico, mas não dá rendimento, o que leva a que, mais cedo ou mais tarde, sejam abandonados. A madeira vale muito pouco, os matos deixaram de ter valor e a floresta passou a ser um fervedouro de dinheiro. Só não acontece, quando há uma exploração intensiva da floresta. O eucalipto tem uma grande inflamabilidade, mas é das poucas espécies que, hoje em dia, dá lucro. As grandes empresas de celulose e pasta de papel, conseguem prevenir os fogos”.

Miguel Almeida concorda que há necessidade de implementar medidas política, mas questiona-se sobre a fiscalização das já existentes: “Há uma obrigatoriedade de incluir espécies autóctones entre monoculturas, o que parece fazer sentido. Se é cumprido ou não, será outra

história a avaliar no terreno”.

Sobre o duro golpe que os incêndios acabam por constituir para muitas famílias urbanas que nas últimas décadas se moveram para os meios rurais, o especialista alerta para a necessidade de garantirem “autoproteção na gestão dos combustíveis, de forma passiva e ativa, nomeadamente com implementação de sistemas de aspersão de água na periferia da propriedade, de funcionamento automático”.

A Gestão Integrada dos Fogos Rurais, no Dec. Lei 82/2021, de 13 de outubro, visa “diminuir a dispersão de edificado pelo território”, pois frisa, “os meios não são ilimitados”.

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