30 Julho 2021, 19:00

“Lutar pelas medalhas seria excelente e vou tentar” – João Almeida

Susana Faria AdministratorKeymaster

João Almeida (Deceuninck-Quick Step) tem apenas 22 anos e em outubro de 2020 fez o País sonhar e vibrar com o ciclismo, tendo estado duas semanas a liderar a Volta a Itália. Naquela que foi a sua primeira participação numa grande volta, o ciclista de A-dos-Francos reescreveu a história do ciclismo português e levou o nome do País ao topo das montanhas mais difíceis de escalar. Em entrevista ao Mundo Atual, João Almeida conta como geriu a pressão para manter a liderança o máximo de tempo possível e desvenda os objetivos que leva para Tóquio, na sua primeira participação numa edição dos Jogos Olímpicos.

Em outubro do ano passado colocou o País a falar sobre ciclismo e parou muitos corações, principalmente nas etapas de montanha na Volta a Itália. Alguma vez pensou que podia chegar a este nível?
Não, nunca me passou pela cabeça. Nunca tinha feito uma grande volta e não é todos os dias que se encontram ciclistas «voltistas», que estão prontos para as grandes voltas. Sabia que até 10 dias de corrida, que foi o máximo que fiz, aguentava, mas 21 dias e 21 etapas com os melhores ciclistas do mundo superou todas as minhas expetativas e fiquei muito contente. Este ano consegui ainda confirmar e viver tudo de novo e foi excelente.

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Foi uma das principais figuras do Giro de 2020 e nem estava escalado para a prova. Quais eram os objetivos para a sua primeira grande volta?
Tinha um objetivo muito ambicioso que era chegar ao top 10. Era a minha primeira grande volta e sabia que estava numa boa forma e acabei por fazer muito mais do que idealizei.

Durante 15 dias andou de camisola rosa em Itália. Como é que geriu tudo emocionalmente?
Foi muita emoção e foram muitas as surpresas durante os 15 dias em que liderei a Volta a Itália. Consegui a rosa na terceira etapa e superou todas minhas expectativas, nunca pensei que a conseguisse manter durante tanto tempo. O objetivo era, simplesmente, aguentar mais um dia. As etapas foram passando e foi uma boa surpresa.

Tinha medo de perder a liderança no final de cada etapa ou não pensava muito nisso?
Sim, tinha um pouco de re- ceio. Queria aguentar a liderança o máximo de dias possíveis. Sabia que em algum momento acabaria por perdê-la. Houve momentos em que pensei que talvez pudesse chegar a Milão com ela, mas sabia que era quase impossível e acabei por perdê-la.

O que faltou para conseguir ser o grande vencedor?
Na subida ao Stelvio falaram-me as pernas. Nesse dia não estava no meu melhor. Não considero que tenha sido um dia mau, simplesmente, os outros ciclistas também estavam mais fortes.

No passado mês de maio, voltou a ter a oportunidade de estar no Giro, não conseguiu a rosa, mas alcançou o 6º lugar na classificação. O que retira desta volta?
Este ano os resultados não foram tão bons ao olharmos para tabela. Para mim foi um ano melhor, uma vez que na terceira semana tinha mais força, mais capacidade física para aguentar os restantes dias. Considero que o Giro de 2021 foi muito melhor nesse aspeto e, certamente, foi muito bom para o futuro.

João Almeida conquistou na terceira etapa a camisola rosa de líder no Giro,
feito apenas alcançado antes por Acácio da Silva em 1989

Na 11.ª etapa foi obrigado a abdicar da frente da corrida para ajudar o Remco Evenepoel. Sente que isso prejudicou a sua prestação no Giro?
Sim, sem dúvida que mu- dou algumas coisas. Era a nossa tática. O Remco ainda estava bem. Como tinha perdido algum tempo, porque alimentei-me mal numa etapa, o Remco passou a ser o líder principal da equipa. Ele estava em segundo na classificação geral e o plano era mantê-lo em cima o máximo de tempo possível. O plano também vai sendo alterado ao longo da corrida e vamos jogando com as cartas que temos.

Nas duas edições não venceu nenhuma etapa. Faltou também isso?
Faltou isso, sim. A vontade de levantar os braços no primeiro Giro era grande e estive bastante perto, por várias vezes. O ciclismo é assim e tenho a certeza de que esse dia esse momento vai chegar.

Os seus pais também se tornaram «famosos» por terras italianas. Deixa-o orgulhoso sentir todo esse apoio por parte da sua família?
Sim, os meus pais sempre me apoiaram desde os meus 15 anos. Estão sempre comigo e apoiam-me em tudo o que conseguem. É um orgulho ter uns pais assim e, sem dúvida, que se não fossem eles não estaria onde estou hoje.

Recentemente foi convocado para os Jogos Olímpicos Tóquio2020, para a prova de ciclismo de fundo e contrarrelógio. Estava à espera desta chamada?
Sabia que estava pré-convocado e o facto de só termos duas vagas complica a seleção de ciclistas, mas fiquei muito contente por esta chamada e estou muito feliz por representar o nosso País.

Tóquio era um dos objetivos?
Os Jogos estavam programados para serem realizados no ano passado e, como era o meu primeiro ano, não estavam nos meus objetivos. Com o adiamento, percebi que havia a possibilidade de estar presente. Neste momento, são mesmo o meu grande foco e vou preparar-me para chegar na melhor forma possível.

O que significa para si representar o seu País?
Tem outro sabor, porque não estou ali pela equipa. Estamos a lutar pelo nosso País e por todos os portugueses, com a nossa bandeira ao peito, e isso é incrível.

Quais são os objetivos em Tóquio? Quer lutar pelas medalhas?
Não é fácil. Todos têm o mesmo objetivo, que é as medalhas. Chegar na frente, com os melhores do primeiro grupo e conseguir discutir a corrida, é o meu objetivo. Lutar pelas medalhas seria excelente e vou tentar.

Vencer uma grande volta é uma grande ambição?
Sim, ou pelo menos conseguir estar no pódio. Depois de conseguir terminar uma grande volta no pódio, espero alcançar a vitória na geral. O caminho é longo e tenho muito trabalho pela frente.

O que é que o público pode esperar do João Almeida?
Podem esperar esforço e dedicação total, como sempre. Vou dar o meu melhor em todas as corridas, por mim e pela equipa, e isso é sempre garantido. Os resultados logos vemos quando cruzar a meta.

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