04 Julho 2022, 03:08

Mali: Forças armadas francesas dizem ter filmado mercenários russos a enterrar corpos

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Paris, 22 abr 2022 (Lusa) — O exército francês filmou o que diz serem mercenários russos a enterrar corpos, perto da base de Gossi, no norte do Mali, com o objetivo de acusarem os militares franceses de deixarem atrás de si uma vala comum.


Numa filmagem através de um drone, que a agência de notícias France-Presse (AFP) viu na noite de quinta-feira e que o exército francês diz ser um “ataque informativo”, um grupo de soldados pode ser visto a cobrir corpos com areia.


O Estado-Maior das Forças Armadas (FA) francesas alega que estes são soldados brancos que identificou a partir de vídeos e fotografias tiradas noutros locais.


As imagens foram divulgadas na conta da rede social Twitter de Dia Diarra, alguém que se autodenomina “antigo militar” e “patriota maliano”.


Na mesma conta foi divulgada uma foto de corpos desfocados enterrados na areia, com o comentário: “Isto foi o que os franceses deixaram quando abandonaram a base em #Gossi (…) não podemos ficar calados sobre isto!”.


A conta no Twitter de Dia Diarra “é muito provavelmente uma conta falsa criada pelo grupo Wagner”, a empresa militar privada russa, acredita o Estado-Maior das FA francesas.


“Esta manobra para desacreditar a força [francesa deslocada no Sahel] Barkhane parece coordenada. É representativa dos múltiplos ataques informativos a que os militares franceses têm sido submetidos durante muitos meses”.


Segundo o exército francês, “a comparação de fotos publicadas no Twitter e de imagens recolhidas por meios especializados permite estabelecer uma ligação direta entre o que os mercenários do grupo Wagner estão a fazer e o que é falsamente atribuído aos militares franceses”.


Segundo o Estado-Maior, estes “abusos testemunham os modos de ação implementados pelos mercenários da Wagner, que têm sido observados na República Centro-Africana desde a [sua] chegada e que têm sido denunciados por numerosas organizações internacionais e ONG”.


No quadro da retirada do Mali, anunciada em fevereiro, o exército francês entregou oficialmente as chaves da base de Gossi, que albergava 300 soldados franceses, às forças armadas malianas na passada terça-feira.


Paris decidiu em fevereiro retirar-se do Mali num contexto de deterioração da segurança e num cenário de tensões entre a França e a junta militar no poder no país, que o Ocidente acusada de utilizar os serviços do Grupo Wagner. Bamako, pelo seu lado, diz que os russos são apenas conselheiros para questões de segurança.


O Estado-Maior das FA francesas alertou na passada terça-feira para a possibilidade de virem a verificar-se ataques informativos quando a base de Gossi fosse entregue.


O porta-voz do Estado-Maior, coronel Pascal Ianni, especificou então que tinha sido elaborado um inventário “documentado” da base para proteger a França de possíveis acusações.


A nação da África Ocidental enfrenta uma crise de segurança desde 2012, devido ao surgimento de vários grupos fundamentalistas afiliados à Al-Qaida e ao Estado Islâmico, que aproveitaram a debilidade do Estado para avançar pelo Sahel. 


Em 2020, os militares tomaram o poder em Bamako, negando-se a realizar eleições, o que conduziu à imposição de sanções económicas e a uma aproximação com a Rússia.


Há duas semanas, o exército recebeu um lote de material militar russo composto de helicópteros de combate, radares e outro equipamento para reforçar as capacidades do país na luta antiterrorista.


A presença de efetivos russos no Mali é denunciada há meses pela França e os seus aliados europeus, que dizem tratar-se de mercenários da companhia privada de segurança Wagner.


A junta militar nega esta acusação, remetendo antes para uma parceria antiga com as forças armadas russas, mas a União Europeia decidiu, há dez dias, suspender a sua missão de treino militar no país, depois de Paris ter também anunciado a retirada das forças francesas que auxiliavam o Mali no combate ao extremismo islâmico.


O Mali foi um dos países que se abstiveram na votação das duas resoluções adotadas em março por esmagadora maioria pela Assembleia-Geral da ONU, exigindo que a Rússia suspendesse imediatamente as operações militares na Ucrânia.


Portugal tem atualmente dois efetivos militares empenhados na Minusma, que foi estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU em abril de 2013 para ajudar as autoridades de transição do Mali a estabilizar o país e garantir a segurança e proteção da população civil.



APL // JH


Lusa/Fim

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