18 Maio 2022, 17:55

Maria cuida dos familiares de pessoas com doenças mentais

Susana Faria AdministratorKeymaster

Dar voz às pessoas que sofrem em silêncio é o objetivo da Maria Cuidadosamente, uma associação que resultou da elaboração de um trabalho académico de duas alunas e que através de workshops e formações já ajudou mais de 100 cuidadores e familiares de pessoas diagnosticadas com doenças mentais. «Juntos aprendemos a cuidar» é o nome do primeiro programa desenvolvido pela Maria.

Um trabalho universitário sobre problemas sociais e um histórico familiar de perturbações mentais foi o impulso para Margarida Vale propor aos colegas de grupo a elaboração de um projeto com foco na temática das doenças mentais, que, mais tarde, viria a tornar-se numa associação.
“O desafio era criar uma solução com potencial de inovação social, que permitisse mitigar os problemas selecionados”, começou por explicar, ao Mundo Atual, uma das cofundadoras da Associação Maria Cuidadosamente que se dedica ao desenvolvimento de competências emocionais e sociais junto daqueles que apoiam pessoas com doenças mentais.

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A Maria foi criada por Margarida Vale e Rita Lima no ano passado, através de uma candidatura ao Fundo de Investimento Social +PLUS da Casa do Impacto e assume-se como uma rede de suporte online, com workshops e formações, para familiares de pessoas com doença mental.
“Queremos que os familiares de pessoas com doença mental se sintam bem e também ajudar a reduzir a sobrecarga emocional e social a que estão sujeitos. O nosso objetivo é trazer informação fidedigna sobre diversos diagnósticos de doença mental, aumentando, desta forma, as competências dos cuidadores e reduzir o isolamento emocional e social” revelou a cofundadora.
«Juntos aprendemos a cuidar» é o nome do primeiro programa desenvolvido pela associação. Funciona de forma totalmente online e é composto por workshops, “onde profissionais de saúde transmitem a informação que os familiares de pessoas com doença mental procuram”.

“Queremos que os familiares de pessoas com doença mental se sintam bem e também ajudar a reduzir a sobrecarga emocional e social a que estão sujeitos. O nosso objetivo é trazer informação fidedigna sobre diversos diagnósticos de doença mental, aumentando, desta forma, as competências dos cuidadores e reduzir o isolamento emocional e social”

No programa, todos os participantes são convidados para uma conversa, “uma espécie de entrevista online”, feita por um dos membros da iniciativa. É feito e comunicado o «match» entre os participantes, “com base nas informações recolhidas e, de seguida, os pares selecionados são convidados a participar nos workshops”.

Encontros online todas as semanas

A associação acompanha cada par durante dois meses, período em que decorrem encontros semanais, via plataforma Skype.
“Através das formações, que são dadas por profissionais de saúde, transmitimos informação específica para o diagnóstico, de interesse de cada um, ouvimos as partilhas e respondemos a todas as dúvidas”, esclarece Margarida Vale.
Desta forma “informal”, a Maria oferece aos intervenientes a oportunidade de conhecerem alguém com uma história semelhante e mais de 100 cuidadores já puderam usufruir desta rede e aprender a lidar com os diagnósticos.
“Este apoio informal é muito valorizado por quem nos procura. Existe um sentimento de pertença que é inconfundível. As pessoas já não se sentem sozinhas, porque têm sempre alguém que as ouve e compreende pois já passaram pelo mesmo”, sublinha.

“De um dia para o outro, a minha mãe tornou-se outra pessoa”

Margarida Vale não teve essa rede de apoio e recorda as dificuldades passadas com a mãe durante um processo de diagnóstico de doença bipolar “muito difícil de obter”.
“De um dia para o outro, a minha mãe tornou-se numa outra pessoa. Alguém de quem eu tinha medo de estar perto. Uma pessoa irritada e agressiva, com ideias que me faziam duvidar da sua natureza e integridade. Não dormia e ligava-me, de madrugada, para apresentar ideias sem sentido”, relata.
Na fase pós-diagnóstico, depois de ver a mãe ser internada de forma compulsiva, Margarida Vale não recebeu qualquer tipo de apoio e também esses fantasmas do passado serviram de impulso para tentar impedir que mais pessoas passem pelo mesmo.
“Não conhecia ninguém que tivesse passado pelo mesmo, não tinha quase ninguém com quem conversar e tinha pouco acompanhamento por parte dos médicos. Aprendi a lidar com a doença crónica da minha mãe sozinha e com o tempo. Foram vários os episódios de mania, vários os internamentos compulsivos, vários os sentimentos de construção e desconstrução que vivi”, conta.
Margarida Vale teve de aprender a distinguir a mãe Maria, que dá nome a este projeto, da mãe com doença bipolar, e destaca o processo como sendo o “mais difícil” que vivenciou.

“A expressão pedir ajuda carrega um estigma”

Os cuidadores entram em contacto com a associação através de um formulário digital, disponível nas redes sociais e no site oficial e, apesar dos números favoráveis que mostram que as pessoas querem, realmente, ser apoiadas, há ainda alguma relutância em aceitar que essa ajuda é necessária.
A cofundadora explica que, em cuidadores e pessoas com patologias mentais, o principal problema está na forma como é abordado o ato de pedir ajudar, que afirma que deve ser “descomplicado”.
“Quando alguém tem uma dor no joelho, não dizemos a essa pessoa que vá pedir ajuda. Dizemos para consultar um médico para ver do que se trata e como se trata. Ou seja, somos pragmáticos. No entanto, no âmbito da saúde mental, usa-se muito a expressão «pedir ajuda» que, no meu entender, carrega um estigma e pode desincentivar a procura por tratamento.”, justifica.
A maior parte das pessoas que chegam até à associação são familiares diretos de pessoas diagnosticadas com doença mental, “essencialmente filhos, irmãos e pais”.
“A restante fatia, que é minoritária, diz respeito a profissionais de saúde ou estudantes de cursos de saúde, assistentes sociais e professores. Na Maria não apoiamos diretamente pessoas com doença mental, apenas os familiares e os cuidadores”, concluiu.

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