17 Setembro 2021, 08:47

Moçambique/Ataques: Eurodeputada defende diálogo com insurgentes

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Maputo, 17 jun 2021 (Lusa) – A eurodeputada Isabel Santos defendeu hoje que se descubram “vias para o diálogo” com os insurgentes em Cabo Delgado, norte de Moçambique, para salvar crianças raptadas e estabilizar a região, referiu em entrevista à Lusa, após ter visitado aquela província.


“Tem de haver um trabalho de inteligência [recolha de informação] muito estruturado para que se encontrem vias para o diálogo e para a recuperação”, referiu a eurodeputada portuguesa do PS, reconhecendo que a situação é complexa, mas apontando pistas.


“Há quem fale de uma realidade sem rosto, [mas] há quem fale de alguns rostos identificados nalguns vídeos e nalgum material que vai circulando nas redes sociais. É preciso partir daí”, referiu.


“Esse é um trabalho que me ultrapassa”, acrescentou, apontando que “há autoridades com capacidade para tal que devem concertar esforços” – assim como “o esforço internacional também deve ser feito nesse sentido, de chegar ao âmago da questão”.


Isabel Santos defendeu que se descubram vias para o diálogo ao lançar um apelo para que sejam salvas “o quanto antes” as crianças que têm sido raptadas pelo grupos insurgentes, mas concluiu que essas pontes devem ter objetivo maiores.


“Salvar as crianças e estabilizar a região, porque as pessoas não podem estar eternamente a ser deslocadas e a viver debaixo de terror. Tem de ser posto termo à situação de violência que está a ser vivida”, sublinhou.


A organização não-governamental (ONG) Save the Children anunciou há uma semana que pelo menos 51 crianças foram raptadas por grupos rebeldes no último ano, em linha com depoimentos ouvidos pela Lusa em Cabo Delgado nos últimos meses que indiciam recrutamento de crianças-soldado e exploração sexual de menores em redes internacionais.


“Apelo para que se conjuguem esforços no sentido de recuperar estes meninos e meninas que estão a ser reptados por grupos armados”, referiu Isabel Santos, considerando que “retirá-los das suas referências e famílias é retirar a possibilidade de terem um desenvolvimento normal e uma vida futura com alguma normalidade”.


A eurodeputada – que além de política se classifica como ativista – comprometeu-se no final da visita a Moçambique a tentar manter a ajuda ao país e a Cabo Delgado no topo da agenda europeia, apontando a educação como uma prioridade.


“Cerca de 46% da população deslocada são crianças”, que assistiram a atos de “violência atroz”, com “marcas psicológicas profundas” e às quais é preciso garantir acesso à educação para que se possam “reestruturar”.


No entanto, “estão a chegar a sítios onde as escolas já estão sobrelotadas”.


“Temos de fazer um grande esforço no sentido de promover o acesso dessas crianças à educação – além da saúde, alimentação e proteção – porque essa será, com certeza, a melhor arma que nós temos para combater tudo o que está a acontecer em Cabo Delgado em termos de violência”, referiu.


Para Isabel Santos, muitos dos jovens que alinham pelo rebeldes “não encontraram uma resposta que lhes desse uma expectativa de futuro, por ausências formativas, de emprego” ou falta sustento das famílias.


“Temos de quebrar este ciclo e quebrá-lo só pode acontecer se nós abrirmos o acesso dessas crianças à educação”, sublinhou.


“Há uma concentração de sofrimento incontido em Cabo Delgado”, referiu no final da visita ao terreno, feita a expensas próprias e que diz ter-lhe servido para compreender “a complexidade e sofrimento que está a ser provocado a pessoas estão a ser arrancadas do seu território”.


Encara como desafio “concertar esforços junto da União Europeia e no parlamento para que o debate não esmoreça” e para que a atenção “não se dilua” – provavelmente com novas visitas a Moçambique e outros debates no parlamento, disse. 


“Haverá com certeza uma atenção em relação a toda a ação que está a ser desenvolvida no sentido de apoiar o Estado moçambicano a responder a esta situação”, concluiu.


Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, num conflito que já fez mais de 2.800 mortes segundo o projeto de registo de conflitos ACLED e 732.000 deslocados de acordo com as Nações Unidas.



LFO // JH


Lusa/fim


 

Sem comentários

deixar um comentário