25 Outubro 2021, 14:30

Mr. Dheo dá vida às paredes do Mundo através da arte

Susana Faria AdministratorKeymaster

Mr.Dheo é um artista urbano conhecido pela criação de memoráveis murais espalhados por vários recantos do Mundo. Portuense de gema, tem também vários trabalhos na cidade Invicta onde, recorda, até à chegada de Rui Moreira eram “mal vistos e abafados”. Em conversa com o Mundo Atual, Mr.Dheo revela que o sucesso só chegou após muitos anos de trabalho e sacrifício e que o projeto que mais o marcou foi feito num cenário de guerra, na Faixa de Gaza, em Israel.

É um dos artistas urbanos mais conhecidos do País. Como é que surgiu a sua paixão pelo graffiti?
Estou ligado ao desenho desde miúdo. Sempre tive esse hobby, mas nunca pensei seguir artes e tirar formações, apesar de sempre me dizerem que tinha muito jeito…não via a área como futuro, era um passatempo. Nunca me apaixonei pelos métodos tradicionais, como acrílico e óleo, era tudo a esferográfica. Aos 14 anos comecei a ouvir hip hop e identifiquei-me muito com o estilo musical. Ia ouvindo cada vez com mais frequência e descobri o graffiti através de um videoclip francês, cheio de cores e formas.

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Como é que foi progredindo neste meio artístico?
Com os meios que tinha. Procurava sempre pesquisar mais sobre tudo o que tinha a ver com o graffiti. Comecei também a estar muito atento às ruas do Porto para perceber melhor o que era, o que simbolizava e de onde vinha. A partir daí comecei a focar-me só naquilo e a fazer os primeiros esboços com letras. Foi um passo até começar a pintar. Fui várias vezes para a rua, conheci pessoas e fui evoluindo.

Muitos dos seus trabalhos estão na sua cidade, o Porto, e a maioria foram convites. Como é que tudo foi começando a ganhar forma?
Tudo o que tive no Porto até 2014 foi sem convite, por minha iniciativa, porque queria pintar e arranjava forma de o fazer. Nessa altura tudo o que fazíamos na rua era abafado e mal visto, mas tudo mudou quando o presidente Rui Moreira assumiu a Câmara. Em 2014, juntamente com o Hazul Luzah, fizemos o mural na Trindade, no âmbito do programa municipal «Primeira Parede Livre», que teve muito impacto. A nível de trabalhos encomendados, tenho no máximo uns cinco, os restantes são todos por minha iniciativa.

O pai com «o Porto na mão»

Sente orgulho ao caminhar pelo Porto e ver a sua marca?
Sou muito autocritico e não tenho aquele orgulho de olhar e dizer “tem grande qualidade, está espetacular”. Não é esse tipo de orgulho…Terminei uma obra grande há pouco tempo em Gaia e não sinto aquele orgulho de “fiz um grande trabalho, é mais “cheguei aqui”, sabendo o percurso que tive e, hoje em dia, fazer trabalhos de grande escala no centro de uma cidade. O feedback que vou tendo deixa-me orgulhoso porque sei que me custou chegar até aqui e do que prescindi. Tenho orgulho no meu percurso e de estar onde estou devido ao meu trabalho.

Tem também obras em várias cidades internacionais…
Nunca procurei as coisas. Fui trabalhando e evoluindo. Tive sempre a máxima de: se eu trabalhar bem, as coisas vão aparecendo naturalmente. A primeira vez que pintei fora de Portugal, foi em Manchester, em 2008, com um grupo de oito portugueses. A partir daí começaram a chegar convites de outras cidades. À medida que ia evoluindo ia ficando conhecido no meio e foi sempre assim.

E nessas cidades, que tipos de obras lhe pediam?
Nessas cidades consigo ter uma coisa muito boa pela qual lutei muito: a liberdade criativa. Contratam-me não como um executante de graffitis, mas como um artista e confiam plenamente na minha criatividade. Obviamente que existem determinados temas que nos sugerem e existem determinados países onde culturalmente não me é permitido fazer algumas coisas e tenho de ter um cuidado redobrado. Estudo sempre o cliente e se me interessa ou não fazer aquele trabalho. Primo sempre pela minha liberdade criativa.

Enfermeira Sofia e os «Anjos na Terra»

Em que é que se inspira para criar?
No dia-a-dia, nas minhas rotinas e em tudo que vejo. Se for para rua tenho tendência para a crítica social, para pegar em temas que estão a ser abordados e que acho que devam ter voz. Exemplo disso é o mural que pintei em 2020 da enfermeira Sofia, em Gaia.

A obra da enfermeira Sofia foi um pedido de alguma entidade?
Não, foi uma ideia completamente minha, durante a pandemia, até porque esse trabalho está numa fábrica, num espaço abandonado. A obra não foi convite, nem legal era. Partiu tudo de mim, o conceito, pintar naquela altura e naquele dia.

Qual foi obra que deu mais trabalho e que o deixou mais orgulhoso?
As obras que me dizem mais têm a ver com o momento que vivi quando as pintei. A de Israel, na Faixa de Gaza, obviamente tem um simbolismo diferente, porque o processo de pintar foi diferente dos outros, foi num ambiente de Guerra. A do meu pai, na Trindade, também, porque foi o primeiro, o oficial no Porto…Não gosto de fazer trabalhos fáceis, isso faz com que percam a piada.

Entrada do Museu do FC Porto é obra emblemática

Em 2013 foi convidado pelo FC Porto para pintar a entrada do Museu. Como é que encarou esse convite na altura?
Em 2010 já tinha trabalhado com o FC Porto. Fiz algumas coisas com eles, mas mais pequenas, não era uma obra tão emblemática como a do museu. Esse convite surpreendeu-me apesar de já ser “um cliente meu”. O peso de ter uma obra no Museu do FC Porto tão emblemática e importante na história do clube é mais um dos trabalhos nos quais tenho imenso orgulho. Fazer parte do marco da história do clube. O museu é isso, história. Estar ali surpreendeu-me pela positiva, mas encarei como mais um desafio, para me chegar o convite, quero acreditar que foi justo e merecido.

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