20 Setembro 2021, 07:19

Nós? Quem somos “Nós”? (Parte 2)

Professor na Universidade do Minho

Tornámos mais difícil porque, sobretudo em Lisboa, chegamos de manhã aos belos e brilhantes edifícios de escritórios, aos reluzentes centros comerciais ou aos gabinetes dos Ministérios e nem damos conta ou sequer nos cruzamos com os milhares de mulheres de origem africana que os limparam durante a madrugada.

No texto anterior falei dos portugueses aqui nascidos e dos seus descendentes que, emigrados que por esse mundo, fazem parte integrante e importante do “Nós” que nos afirma como País, orgulhoso no Mundo Atual – curiosamente no seu duplo significado.
Nesse texto conclui dizendo que “aqui voltarei! Porque há outra parte de Nós!” Por isso, o meu reconhecimento à Direção do Mundo Atual por me dar esta oportunidade e este espaço.
Esse outro lado, como certamente todos compreenderam, é o lado daqueles que não tendo nascido cá nem tendo raízes no nosso solo, para cá vieram, dos mais variados cantos do Mundo, sozinhos ou em família, ajudando hoje a construir coletivamente este Portugal que ambicionamos próspero e de referência.



Por que o tempo é o nosso maior juiz e o nosso maior aliado, bastou um mês para que os resultados que alcançamos nos Jogos Olímpicos, fizessem os meios de comunicação social destacar o papel dos nossos que, com outras origens, contribuíram para este nosso orgulho coletivo.
Bastou um mês para que o Presidente da República, traduzindo o sentir da maioria dos portugueses, afirmasse a sua ambição de “um Portugal menos desigual, mais diverso e inclusivo, onde todos possamos aspirar a um futuro mais próspero”. Reforçando que “nas nossas vidas particulares, importa que a animosidade e o preconceito deem lugar à serenidade, à amizade, à boa vizinhança e à compreensão mútua”.
Mas se estas são as palavras, nem sempre são consentâneos os gestos. E, sem visto Gold ou sem os grandes clubes de futebol como destino, é normalmente muito dura a jornada de quem para cá imigra! Sendo que todos e cada um de nós contribui demasiadas vezes para agravar e tornar mais difícil essa jornada.
Tornámos mais difícil porque demoramos demasiado tempo – designadamente as ordens profissionais –a reconhecer as suas qualificações, pelo que muitas são as médicas vinda de leste, que hoje nos assistem nas unidades de saúde, mas que passaram anos a limpar as nossas casas, vencendo a vontade de desistir, com uma determinação para além do razoável.
Tornámos mais difícil porque, sobretudo em Lisboa, chegamos de manhã aos belos e brilhantes edifícios de escritórios, aos reluzentes centros comerciais ou aos gabinetes dos Ministérios e nem damos conta ou sequer nos cruzamos com os milhares de mulheres de origem africana que os limparam durante a madrugada. Que já estão regresso no barco para a outra margem do Tejo ou no comboio da linha de Sintra, no mesmo comboio ou no mesmo barco que acabou de trazer os seus maridos e filhos para os trabalhos pesados na construção civil, tantas vezes limitados no salário e nos direitos.
Tornámos mais difícil porque os ignoramos, não reconhecendo que a alegria e cor que trouxeram do Brasil contribuíram enormemente para o setor dos serviços e que, por isso, são hoje mais alegres e descontraídos os nossos momentos de convívio.
Tornámos mais difícil porque não só não lhes dizemos que são parte integrante deste Portugal inclusivo, como ficamos demasiado silenciosos, enquanto alguns de nós os acusam, maltratam e mesmo assassinam. Tornamos mais difícil porque olhamos para o lado perante o racismo, a xenofobia, a discriminação e, sobretudo, quando elegemos quem, diariamente, os humilha e vilipendia.
De bom grado substituiria todo este texto por uma foto que não tirei. Não registei o momento em que uma meia dúzia de jovens negros, de cócoras ou joelho no chão, munidos do tão tradicional martelo de pedreiro, lascavam e moldavam as pequenas pedras – de branco calcário ou negro basalto – e com arte construíam uma tradicional calçada portuguesa, mantendo viva uma das nossas mais antigas e belas tradições.
Que pena que só os meus olhos registassem esse momento. Mas fica-me a consolação de saber que, se abertos, também os vossos olhos vão observar belos contributos doutros imigrantes, para nosso usufruto. E que, se abertos, os vossos olhos vão entender que hoje, “Nós”, somos todos!

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