04 Fevereiro 2023, 09:24

O Catar no algoritmo do Presidente Marcelo- João Paulo Silva

Professor

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Era, por isso, perfeitamente possível ter optado de outro modo. Se o boicote da equipa da Federação pode parecer um exagero, a ausência do Presidente no Catar era apenas uma questão de bom senso.

A realidade dos nossos dias é marcada por um conjunto amplo de características que a distinguem de outras, sobretudo ao nível da perceção. A realidade em si mesma pode até ser semelhante ao que vivemos no passado, mas a mediação entre a realidade e as pessoas é hoje feita, em grande medida, pelas redes sociais.

A ponte entre a comunicação social de referência e os cidadãos é frágil e os títulos dos «posts», dos «stories» parece desenhar uma realidade à medida de cada um de nós.

O algoritmo mostra o que gostamos, o que queremos ver ou o que alguém paga para nos aparecer nos ecrãs dos telemóveis.

E é para o algoritmo mediático que Marcelo Rebelo de Sousa parece trabalhar.

Nos últimos dias o Presidente da República proferiu uma multiplicidade de posições, no mínimo, questionáveis.

Comecemos pelo fim.

Refere o Senhor Presidente, perante as críticas à sua posição sobre o Catar, que “as pessoas têm de se decidir, de uma vez por todas, se querem que atue mais ou atue menos”.

Uma reflexão que surge após o algoritmo ter mostrado uma “negativa” generalizada à posição do Presidente sobre o Catar.

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Diria que não se exige ao Presidente uma postura institucional a baloiçar entre o tudo e o nada. A palavra do Presidente é importante e não se pode desgastar – intervir no espaço público mais por tudo, do que por nada, é um erro recorrente em Marcelo. E é um erro porque desvaloriza a sua própria intervenção.

O que se exige ao Presidente é que use a sua palavra como expressão direta do voto popular e, não creio, que se peça para comentar jogos de futebol, por exemplo.

É verdade que Marcelo foi “sempre” assim, mas estará hoje ainda mais refém do algoritmo digital do que do share televisivo?

Para alguma Direita herdeira do Estado Novo, os Direitos Humanos são uma chatice das Esquerdas, uma questão menor que deriva da Revolução Francesa. Essas palavras “sem sentido” perante a força do capital – Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Se o Catar recebe o Mundial após um processo comprovado de corrupção, isso pouco importa.

Se o Catar usa a escravatura como instrumento social, isso pouco importa.

Se o Catar retira direitos às mulheres e as trata como cidadãos menores, isso pouco importa.

Se o Catar não permite a expressão livre do amor, isso pouco importa.

Se o Catar é uma sociedade medieval, isso pouco importa.

Pouco importa o que pensa alguma dessa extrema Direita.

Mas, não podemos deixar de considerar que Marcelo comete um enorme erro quando escolhe o algoritmo em detrimento dos direitos.

A presença de Marcelo no Catar não tem qualquer justificação política para Portugal e para os Portugueses.  Marcelo não vai jogar e o seu contributo para a motivação dos jogadores que representam a Federação Portuguesa de Futebol é praticamente nula: Ronaldo, Rúben ou Félix não precisam desse tipo de cliques motivacionais.

Marcelo deveria ficar do lado dos direitos humanos e fazer o que faz a maior parte dos líderes dos países do Mundial – não visitam o Catar.

A FIFA teve uma pressa enorme em colocar a Rússia fora do Mundial e já não foi a tempo de fazer o mesmo com o Irão. Mas, a Arábia Saudita? O Catar?

Dirão alguns que é um erro misturar futebol e política como se o Mundial de 1978 não tivesse sido um ato político, tal como o de 2018. Poderia recordar os boicotes aos Jogos Olímpicos de 80 e de 84. Poderia, inclusive, lembrar como era tratada a África do Sul antes da libertação de Mandela.

Era, por isso, perfeitamente possível ter optado de outro modo. Se o boicote da equipa da Federação pode parecer um exagero, a ausência do Presidente no Catar era apenas uma questão de bom senso.

Se Marcelo, como adepto, quer ver a equipa da Federação então é nessa qualidade que deve ir ao Catar. Enquanto Presidente, ficava em Portugal.

Mas, temos os algoritmos não é Senhor Presidente?

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