26 Setembro 2021, 14:13

O dia em que me tornei Inácio…

Professor na Universidade do Minho

Ainda hoje não sei se foi por vontade, por necessidade ou por incontida vergonha – talvez pelas três – que decidi que era tempo de pegar no telefone. Quando disse, “Olá, daqui é o Nasho! De Gaia…”, ouvi aquela reconhecida voz amiga perguntar: “Inácio? Qual Inácio?”

Eu tenho uma história para contar! Mas antes preciso que saibam que, nos meus tempos de liceu, os meus amigos me tratavam por “Nacho”. Que eu, parvamente, escrevia com “S”. Hoje, quando alguém me chama “Nasho”, é certo e sabido que, no mínimo, é já de meia idade e que continua um bom amigo. Dito isto, vamos à história, que é a de um telefonema e de um reencontro: que ambos temia e que acabaram por ser mágicos.

Nesta história, seria hipócrita não reconhecer que as “razões ponderosas” que me levavam a adiar o telefonema, eram apenas falsas desculpas. Seria hipócrita não reconhecer que essas desculpas resultavam do receio – diria medo – do reencontro. E seria hipócrita não reconhecer que esse medo era o de não saber como iria enfrentar e reagir ao reencontro com um amigo, que já não via há muitos anos, mas que sabia afetado pela doença. Por aquela, cada vez mais frequente e curável, mas cujo nome continuamos a não querer pronunciar ou tratamos por designações alternativas.



Ainda hoje não sei se foi por vontade, por necessidade ou por incontida vergonha – talvez pelas três – que decidi que era tempo de pegar no telefone. Quando disse, “Olá, daqui é o Nasho! De Gaia…”, ouvi aquela reconhecida voz amiga perguntar: “Inácio? Qual Inácio?”

Desfeito o equívoco, trocamos gargalhadas e brincamos por largos momentos. Momentos durante os quais eu percebi duas coisas: que tinha deixado passar demasiado tempo e que, afinal, não tinha passado tempo nenhum. Aqueles risos eram os mesmo que partilhámos, tantas vezes, na adolescência e que, em segundos, de novo nos juntou.

Sobre o reencontro vou ser curto. Porque foi mágico e para ser completamente narrado precisaria de todo o jornal. Porque é magia, a amizade que faz com que anos de afastamento te pareçam apenas horas quando reatas a conversa, como se interrompida apenas ontem. Porque é mágico que, de repente, desapareçam quaisquer medos ou receios de falar e surja uma enorme vontade de, rapidamente, recuperar o tempo e partilhar tantas e tantas coisas que cada um viveu. Porque é fantástico que o peso do presente e os temas mais dolorosos possam ser tratados de forma tão natural, tão aberta e tão partilhada. Porque é encantamento perceber a capacidade do ser humano de, em tempos de dificuldade, fazer das fraquezas, força. Abrindo o sorriso às pequenas coisas e aos pequenos momentos, mesmo que, por dentro, assim não sinta e o esforço seja enorme. Porque é deslumbramento perceber, de repente, o sentido do que, uns dias antes, cantava uma jovem também atingida pela doença: “Não esperes o ultrapassar dos dias difíceis para buscar a felicidade. Procura-a em cada dia”. Porque é condão que não existam almoços de amigos longos ou difíceis. Há apenas almoços de amigos, que parecem durar apenas segundos e que sempre terminam com a certeza, efusiva e franca, de que “temos de fazer isto mais vezes.”

Se, num dia futuro, um neto me perguntar o que é a “Amizade” ou o que é a “Vida”, eu vou-lhe responder: “É a Magia.”

Certamente não vai perceber, mas o futuro se encarregará de o esclarecer. É que há coisas que só o tempo e as próprias experiências nos podem ensinar…

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