09 Dezembro 2021, 03:55

“O Governo não está interessado em garantir Cultura no País” – Entrevista a Valter Hugo Mãe

Susana Faria AdministratorKeymaster

É um dos mais consagrados e aclamados escritores da sua geração e recebeu, há poucos dias, o Grande Prémio de Romance e Novela 2020, entregue pela Associação Portuguesa de Escritores ao livro «Contra Mim». A obra, uma espécie de autobiografia, foi escrita, durante o confinamento, nas Caxinas, que o acolheu há mais de 40 anos, e onde diz ter aprendido a lidar com o medo dos textos. O fascínio que tem pelo Brasil resultou na sua obra mais recente que, revela, em entrevista ao Mundo Atual, à semelhança de outras, foi escrita em “fuga”, num processo de meditação e silêncio que, garante, “só piora com os anos”. Valter Hugo Mãe, o “tsunami literário”, como José Saramago o apelidou, tece ainda duras críticas ao Orçamento do Estado, uma “porcaria” de documento, que mostra que o Governo não se interessa pelo setor.

O «Contra Mim» é uma espécie de livro de memórias depois de, palavras suas, meses a ver-se ao espelho. O Grande Prémio de Romance e Novela 2020 surpreende-o?
Surpreendeu-me muito. Nunca esperaria por um prémio. Achei sempre, inclusive, que nunca cresceria para ser um escritor editado. Nunca conto com agradecimento nenhum, mas foi uma surpresa muito gratificante, porque traz o reconhecimento do livro, digamos assim, uma certa validação da experiência de o ter escrito e, ao mesmo tempo, essa coisa estranha e peculiar de se tratar de um texto autobiográfico que passa muito pela minha sensibilidade. É muito especial que as pessoas possam ler este livro, que o possam apreciar e levá-lo a sério para as suas próprias sensibilidades.

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Por ser um livro autobiográfico, como referiu, acha que faz com que tenha maior impacto nos leitores?
A autobiografia propõe sempre um contrato muito especial com o leitor, porque sente uma maior uma companhia e há a impressão de sermos levados para dentro da intimidade e da casa do autor. Isso é muito especial e é uma experiência que eu diria que procuramos sempre quando lemos qualquer um livro. Se calhar, sem sermos conscientes disso, estamos invariavelmente à procura de alguma coisa que se torne íntima, que nos receba de uma forma muito íntima. A autobiografia, por definição, é um bocado isso. É um convite para essa intimidade.

“Esta escrita recria, sensível e ironicamente, o olhar comovido da criança, na descoberta do mundo e das palavras”. São palavras do júri. Foi essa a sua intenção?
Sim, queria muito que o livro mostrasse, de algum modo, o fascínio pelas palavras, como é que a poesia acaba por acontecer na vida de alguém, como se torna fundamental e quase de um certo sacerdócio, uma dimensão até espiritual. Este texto passa muito por essa exploração e tentativa de evidenciar o quanto as coisas se fazem por uma importância espiritual.

Como viveu os meses de confinamento? Foi duro?
Foi, sobretudo, o primeiro confinamento e impacto inicial da pandemia. Foi muito assustador e um pouco perturbador. Houve alguns desafios, porque naquela altura não sabíamos o tamanho do inimigo, que ainda era desconhecido, e ainda estávamos à procura de estratégias de sobrevivência. Fomos criando um certo hábito e também passamos a acostumarmo-nos a encontrar caminhos para passar por isso e foi passando. A escrita do livro vem desse espanto inicial, mas depois torna-se possível com o estabelecimento de alguma metodologia de sobrevivência, que já favorece uma certa meditação.

Disse recentemente que não iríamos, enquanto povo, aprender nada depois da pandemia. Porquê?
Tenho a sensação de que a humanidade regride de modo improvável e, por isso, não me parece que a pandemia seja o suficiente para mudar paradigmas. Por sorte e, ainda bem, que é assim, a tragédia da pandemia para a maioria da humanidade acaba por ser menorizada, ao ponto de torcer que, em algum tempo, esteja substancialmente esquecida. Por isso, a aprendizagem vai ser pouca.

Fascínio por Brasil deu origem à sua mais recente obra

O seu mais recente livro «As doenças do Brasil» é uma história de resistentes. Também a pandemia nos levou para a resistência…
Sim, sim. Interessa-me muito estudar e meditar sobre a necessidade de resistirmos, que, no fundo, acaba por ser a grande lição da vida. A vida vai-nos menorizando e perigando em tudo e o que sobra para fazermos é sobreviver. Sou muito impactado pelos sobreviventes, por aqueles que conseguem acima de tudo perdurar, persistir.

Em que é que se inspirou para a escrita deste livro?
O livro «As doenças do Brasil» é, sobretudo, uma reação a um certo fascínio pelo Brasil e uma necessidade de pensar acerca da participação das culturas europeias, a colonização e o desenho mental daqueles povos. Este livro tem a ver com essa «coisa» magnífica, mas ao mesmo tempo de génese trágica, que é a criação de um País que eu adoro e que se prende com a história europeia e portuguesa.

Autor “foge” para escrever em silêncio

Como é o seu processo de escrita? Há autores que o relatam como sendo duro e solitário…
Escrevo cada vez mais em fuga. Preciso cada vez mais de estar quieto, encerrado, para uma reflexão constante, sem tropeções. Portanto, sou cada vez menos social, digamos assim, e consigo cada vez menos manter as amizades enquanto escrevo. O meu processo é sempre mais meditativo, como se dependesse de um profundo silêncio…e piora com os anos, tornando-se cada vez mais severo.

“Gosto de deixar o leitor entregue ao livro.”

E os títulos? Já disse que não gosta de falar deles porque são quase sempre pistas…
Os títulos dos meus livros, normalmente, são aberturas para uma vastidão de hipóteses e, por isso, às vezes gosto que o leitor procure, pelos seus próprios sentidos, um significado. O título acaba por apenas revelar uma visão que é minha e não precisa de ser apenas a visão de um leitor. Quem ler, terá, naturalmente, a liberdade de imaginar razões para o nome do livro que eu, por exemplo, não imaginei. Gosto dessa ideia, de deixar o leitor entregue ao livro, com as suas próprias sensibilidades, de maneira que ele próprio descubra razões.

CURIOSIDADE

Desenho “é um modo” de meditar

Além da escrita, Valter Hugo Mãe dedica-se também ao desenho, tendo já exposto as suas obras em 2020, em Gaia. “O desenho é um modo de meditar, mais do que servir e ter o objetivo de fazer de mim um artista plástico, é uma forma de meditação, de maneira que possa, através do desenho, eventualmente, chegar a textos. O que está em causa é poder escrever, escrever mais”, revela o escritor.

Já escreveu poesia, romance, contos e literatura infantil. Em que género se sente mais confortável?
Depende dos dias. Sinto que escrevo o que cada dia me deixar escrever. Não posso, nem sei forçar as coisas. Por isso, há dias em que só escreverei poesia, como se só soubesse escrever poesia, e outros em que escrevo romances ou contos, como se só soubesse escrever romances ou contos. Sem razões aparentes, mas por motivos de forças que não domino por completo.

A que geração de escritores portugueses sente que pertence?
Sinto que, embora me tenha estreado nos anos 90, que digo respeito ao que acontece no século XXI. Digamos que sou um autor que ainda se imagina no século XX, mas cuja obra já só significa uma dimensão do século XXI. Não serei já um jovem autor, não faço parte dos novíssimos, mas creio que estou inscrito naquilo que pode ser a nova literatura.

Recuando a 2007, o Prémio José Saramago marca definitivamente a sua carreira. Não só pelo prestígio, mas pela notoriedade…
Vencer o Prémio Saramago foi profundamente gratificante e um reconhecimento muito importante, não só na altura, porque ganhar o prémio é ganhar para sempre. Essa companhia que o Saramago me faz, é para sempre e tenho muito orgulho em ter passado perto de Saramago.

“O reconhecimento de Saramago traz uma luz e uma responsabilização.”

“É uma expressão muito generosa, que me perseguirá para sempre.”

José Saramago disse, na altura, que assistia, com a sua escrita, a um tsunami literário…
A expressão que Saramago usou é uma expressão muito generosa, que me perseguirá para sempre e esse reconhecimento traz uma luz e, ao mesmo tempo, uma responsabilização sobre a minha obra que é muito grande, mas que também me motiva muito.

Mas durante muito tempo viveu com medo dos seus textos (disse-o). Só com a mudança para as Caxinas o perdeu…
Nunca se perde o medo, vamos criando algumas formas de distração ou de suportá-lo. Não temos modo de o erradicar, a única coisa que podemos fazer é criá-lo como uma coisa doméstica, mais ou menos afeiçoada, como se o medo se tornasse um pouco mais gentil, por sabermos bem o que é e porque acontece.

Esse medo está de alguma forma ligado à reação dos leitores aos seus livros?
O público gostar ou não do que escrevemos pode trazer alguma agressão, mas não é isso que causa medo, no sentido de influir verdadeiramente nas nossas decisões. O escritor quando é de verdade, vai escrever de qualquer maneira, quer tenha ou não público, quer o público goste ou não, entenda ou não, publique ou não. Por mais importante que se possa tornar na nossa vida, o público, génese do autor e o do livro, normalmente, não está na equação, é uma grandeza gratificante, mas é uma grandeza à posteriori.

O escritor quando é de verdade, vai escrever de qualquer maneira, quer tenha ou não público, quer o público goste ou não, entenda ou não, publique ou não.

Origens africanas acenderam a vontade “de combater o racismo”

A saída de Angola e a chegada a Paços de Ferreira com pouco mais de dois anos, que marcas deixou?
Vim sem memória, com dois anos e meio, por isso não me lembro de Angola. Com o tempo, Angola começou a ser uma questão, algo que se prendia com o meu passado sem que eu soubesse e sem que pudesse testemunhar e, por isso, precisei de aprender alguma coisa. Isso criou em mim uma necessidade de estudar, de perguntar e de entender o que significou a colonização e descolonização, o que eram esses territórios que não nos pertenciam e que ocupamos. Foi essa a importância que as coisas acabaram por ter. O facto de ter nascido em Angola traz à minha vida e trouxe sempre um profundo respeito pela Africanidade, pelos povos africanos, pelas diferenças raciais e uma necessidade de combater o racismo.

Voltou a Angola e disse ter vivido um misto de alegria e tristeza. Que memórias teve por lá?
Foi surpreendente ter voltado, porque não estava previsto poder voltar naquele instante e foi muito impactante ver as pessoas, ver como são as pessoas da terra onde nasci, Saurimo. Lembro-me também da dificuldade com que vivem e recordo uma gentileza assinalável. As pessoas de Saurimo vivem numa gentileza absolutamente estonteante e isso jamais esquecerei.

O que pensa sobre o Orçamento de Estado?
Penso que é uma porcaria de Orçamento de Estado e que existe uma profunda hipocrisia num Governo que teoricamente defende sempre a Cultura, mas que depois acaba por trazer um dos mais miseráveis Orçamentos de sempre para o setor. Depois de uma pandemia em que a Cultura foi um dos setores mais afetados, onde os trabalhadores viram o seu trabalho suspenso e cancelado durante meses a fio…após tudo isso, aparecerem com um Orçamento que não cria salvação alguma e que, praticamente, contempla, o pagamento dos salários dos espaços da Cultura públicos. É o mesmo que dizer que não há qualquer vontade de programar, de ajudar. Se havia alguma dúvida, fica provado que o Governo não está interessado em garantir Cultura no País.

O que falta, de facto, para que a cultura deixe de ser marginalizada e desvalorizada?
Falta terem «vergonha na cara».

*A entrevista foi realizada antes da votação do Orçamento de Estado.

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