26 Janeiro 2022, 22:40

O Natal e o natal

Professor na Universidade do Minho

Esta história, que é um pequeno conto de natal, marcou-me profundamente e revivo as imagens e a pergunta em cada ano. Também porque foi só nesse momento que percebi porque a minha mãe, já então falecida, nunca apreciou, como os outros, este período de festas.

Devo confessar que não sou muito dado a festividades e celebrações, mas reconheço a importância individual e social da mais marcante celebração da nossa sociedade. O Natal, lembro eu, celebra o nascimento de Jesus e nele os valores mais genuínos e solidários da cultura que nos funda. Lembro eu, que sendo agnóstico, vejo com pena essa dimensão muitas vezes secundarizada.

Sobre o Natal já quase tudo terá sido dito. Muito foram os artistas e pensadores que lhe dedicaram parte da sua obra. Muito foi escrito, pintado, esculpido e musicado para glorificar e celebrar o Natal. O Natal, em pleno inverno, é curiosamente um tempo de luzes, de cores e de calor, sobretudo humano. É um tempo de encontros de família, colegas e amigos. É um tempo de trocar prendas, sorrisos e votos de “Feliz Natal” e próspero futuro. É um tempo da fantasia dos mais pequenos e de júbilo dos avós, sobretudo naquelas famílias que melhor e com mais gente celebram o Natal, as tradições coletivas e as receitas de cada antepassado. Este é o Natal que imaginamos, que queremos e que celebramos. Justamente, também o tempo do Pai Natal e das suas renas…

Mas o Natal tem um irmão gémeo, nascido na mesma data, que é o natal! Para o lembrar, partilho aqui uma história que data de 23 de dezembro de 2017.



Seriam 18 horas quando um jovem saiu da urgência do Hospital São João, acompanhando por dois guardas prisionais que o conduziram ao carro celular, que o iria devolver à prisão de onde o trouxeram para tratamento.

O pai – supus eu – vinha uns passos atrás, depois ajudou-o a subir para a viatura e colocou-lhe o saco com a roupa e alguns mimos debaixo do banco. Despediu-se dele, com um abraço forte, mas de emoção contida e cedeu o espaço à mãe, que envolveu o filho de forma mais longa, mais frágil, igualmente dorida. Um dos guardas trancou a porta, o carro celular arrancou e os pais, gente humilde, ficaram durante longos momentos a olhar para o carro que se afastava. E que nele levava, presos, o filho e o Natal…

Não sei quão hediondo foi o crime cometido pelo jovem, mas senti que os pais, ao conceberem-no, mesmo se em pecado, não cometeram certamente crime que merecesse tão dura pena. Será que hoje já a expiaram e já tem, de novo, Natal?

Esta história, que é um pequeno conto de natal, marcou-me profundamente e revivo as imagens e a pergunta em cada ano. Também porque foi só nesse momento que percebi porque a minha mãe, já então falecida, nunca apreciou, como os outros, este período de festas.

Dizia-me, já depois de eu deixar de ser criança, que enquanto festejávamos o Natal com alegria, outros sentiam exacerbada a sua dor, porque natal: “as mães que têm os filhos na guerra; os que vivem na rua; os que estão presos; os velhotes que estão abandonados; os que estão desempregados e nem dinheiro têm para a alimentação dos miúdos, quanto mais para presentes; os que sentem a doença a roer; os que perderam entes queridos; os não veem futuro, os que…”

Naquele dia, no olhar daqueles pais, eu compreendi melhor a minha mãe…

Votos de um Feliz Natal, também de celebração dos valores mais genuínos e solidários associados ao nascimento de Jesus. Digo eu, que sou agnóstico…

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