19 Junho 2021, 04:53

“O objetivo é claro: ganhar uma medalha” – Gustavo Capdeville

© SL Benfica
Susana Faria AdministratorKeymaster

Gustavo Capdeville tem apenas 23 anos, mas leva já na bagagem um lote de histórias e conquistas que ficarão para sempre na memória dos portugueses. Capdeville, como é conhecido em campo, defende as redes da Seleção Nacional de Andebol e do Benfica, e foi com a equipa das quinas que alcançou aquele que é o desejado sonho de todos os jogadores da modalidade: o apuramento para os Jogos Olímpicos. Em entrevista ao Mundo Atual, o andebolista desvenda o segredo por detrás do caderno oferecido pelo selecionador e explica de que forma a ausência de Quintana marcou esta histórica qualificação.

Tóquio certamente seria um grande sonho e agora é uma realidade. Alguma vez imaginou que poderia conseguir o apuramento ao serviço da Seleção Nacional?
Claro que sim. No início do estágio, o professor Paulo Pereira deu um caderno a todos os jogadores para fazermos apontamentos sobre as equipas, uma vez que iam ser muitos jogos em pouco tempo. A primeira coisa que escrevi foi: “Vou aos Jogos Olímpicos 2020, 12 de março 2021”.

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O que significa para si este histórico apuramento?
Representa uma sensação de felicidade e orgulho por podermos levar o nosso País onde merece estar, mas também um sentimento de tristeza e amargura pelos meus amigos, [guarda-redes da equipa das quinas], Alfredo [Quintana]e Humberto [Gomes] que não estiveram lá para partilhar comigo aquele momento.

“Este apuramento foi para eles.”

A duas semanas da realização dos encontros que viriam a ditar a ida da Seleção Nacional aos Jogos Olímpicos de Tóquio, o guarda-redes Alfredo Quintana [FC Porto] faleceu. Já o guardião Humberto Gomes [Póvoa AC] falhou a qualificação olímpica devido a lesão.

Esta é também uma vitória do Quintana e do Humberto?
[O Quintana e o Humberto] não puderam estar presentes por diferentes razões, mas este apuramento foi para eles. Por tudo o que me deram e por tudo o que fizeram pela nossa Seleção, eles mereciam estar lá. Foi muito feliz e um momento único, mas gostava que eles tivessem estado, porque mereciam vivenciar o que fizemos. Adorei trabalhar com o Diogo [Valério]e com o Manuel [Gaspar], foram peças fulcrais, mas eu, o Alfredo e o Humberto tínhamos uma grande história. Sei que eles ficaram orgulhosos de nós e isso é o mais importante.

Qual é o grande objetivo para os Jogos Olímpicos?
O objetivo é claro: ganhar uma medalha.

Qual foi, até agora, o momento mais marcante da sua carreira?
O apuramento. Foi, sem dúvida, histórico e quem segue a modalidade sabe a situação difícil que passámos. Este será sempre o momento mais difícil e marcante da minha carreira, porque nunca mais me vou apurar para uns Jogos Olímpicos e perder um irmão como o Alfredo no espaço de duas semanas.

© SL Benfica

O que representa para si jogar por Portugal?
Representar o meu País é o meu maior orgulho, poder envergar comigo dez milhões de pessoas. Levar Portugal ao topo do mundo é o melhor sentimento possível e imaginário.

No primeiro encontro da qualificação, em França, frente à Tunísia (34-27), Gustavo Capdeville, após travar um livre de sete metros, beijou a braçadeira negra com as inicias A e Q, que envergava no braço esquerdo, tal como os restantes companheiros.

Como é que tudo começou? De onde surgiu a paixão pelo andebol?
Era um miúdo como tantos milhões no mundo que gostava de fazer desporto. Já tinha feito de tudo um pouco, como natação, karaté e futebol, muito também graças aos meus pais que sempre me incentivaram a fazê-lo. No 7.º ano de escolaridade participei num torneio inter-turmas de andebol, que, inclusive, acabámos por vencer. Um colega que jogava no Benfica gostou da minha prestação como guarda-redes e convidou-me para ir ao clube fazer uns treinos e, se gostasse, ficava. Foi assim que começou a minha paixão. Desde esses primeiros treinos comecei a adorar o desporto, mas, acima de tudo, o que se vivia nele, as amizades, a entreajuda, o companheirismo, a união, entre milhares de adjetivos que esta modalidade me faz lembrar. Graças a isso, este será sempre um desporto muito diferente dos outros.

Como foi o seu crescimento enquanto jogador no Benfica?
Foi um crescimento muito bom. Desde novo comecei a frequentar as Seleções jovens, tanto a Seleção Regional e Nacional. O Benfica deu-me as condições para evoluir com o meu trabalho e foi isso que aconteceu. Aproveitei tudo o que estava ao meu dispor para ser um jogador melhor todos os dias.

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Lidou bem com o facto de deixar o Benfica e ingressar no Madeira SAD a título de empréstimo?
Sim, tinha a perfeita noção que não iria ter lugar no plantel do Benfica. Surgiu o interesse do Madeira SAD e prontamente respondi que queria ir, porque era um clube de elevada qualidade e sabia que o projeto que tinham para mim ia ao encontro do que eu queria.

Considera que os dois anos na Madeira ajudaram no seu crescimento como jogador?
Se eu naqueles dois anos tivesse ficado num clube onde não jogasse, provavelmente não estaria onde estou hoje.

Jogos Olímpicos Tóquio 2020

realizam-se de 23 de julho a 8 de agosto de 2021 e esta será a estreia da Seleção Nacional de Andebol, uma vez que nunca antes havia conseguido o apuramento.

* A entrevista foi originalmente publicada na edição impressa do jornal Mundo Atual (nas bancas no dia 17 de abril de 2021).

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