04 Julho 2022, 07:03

“O teatro é um lugar libertador, de criação, onde regresso sempre” – Entrevista a Margarida Vila-Nova

© Carla Pires
Susana Faria Administrator

Entrevista a:

Margarida Vila-Nova
Atriz

O Teatro é uma forma de arte onde os atores interpretam uma história para o público – esta é a definição mais comum, que pode ser lida numa pesquisa rápida na Internet, mas para a atriz Margarida Vila-Nova, que há 33 anos faz dos palcos a segunda casa, o Teatro é também “um lugar libertador, de criação” e tem “o papel importante de partilharmos em grupo as nossas inquietações, os medos e fobias”. No mês em que se celebra o Dia Mundial do Teatro, o Mundo Atual entrevistou uma das caras mais conhecidas do público português que cresceu entre os bastidores e perdeu a conta das vezes, que depois de as cortinas fecharem, viu o público aplaudir as comédias, os dramas e as farsas que a levam a assumir “o papel determinante” que o Teatro teve na sua vida. Na televisão, deu vida a muitas personagens que ainda hoje não nos saem da memória e garante, sem pudores, que, entre todas, prefere as vilãs às “chatas” das boazinhas. Com a sua primeira curta-metragem terminada, agora no papel de realizadora, onde a vida pessoal se cruza com a profissional, através de uma carta que lhe foi deixada, e nos palcos com a peça «Cochinchina», a atriz está num dos melhores momentos da carreira e sem “pressa” porque “é este o melhor lugar em que podemos estar quando atingimos algum equilíbrio e paz interior”.

Com 33 anos de carreira, chegou a hora de inverter os papéis e apostar no Mundo da realização…
Comecei pequenina, mas a meu ver ainda não tenho todos esses anos de carreira. A tomada de consciência de querer que a representação fosse o meu ofício, o meu trabalho, acho que só mais tarde, pelos 18 anos, é que começou a tornar-se mesmo real. Claro que foi muito importante, porque foi o ambiente em que cresci e as referências que tive. Algumas coisas levam anos a aprender e a apreender, como aprender a estar, a ouvir e a observar. Cresci entre os bastidores e interpretei, desde pequena, pequenos papéis, mas creio que só mais tarde é que aceitei que este seria o meu ofício.

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A realização era um desejo antigo?
Ao longo da minha vida, como também fui produtora, sempre gostei de estar envolvida em projetos, em construí-los. A realização foi uma consequência dessa vontade de contar história, de construir histórias, de sonhar histórias e acabou por ser natural. Aquilo que nos rodeia, nos comove, nos desafia e encanta ou não, faz com que tenhamos vontade de expressar esses temas que nos inquietam para este lado criativo e lúdico e de como podemos transformar as nossas inquietações em objetos, em formas, cores e imagens. Foi tudo isso que fez com que tenha terminado de realizar a minha primeira curta-metragem.

Aquilo que nos rodeia, nos comove, nos desafia e encanta ou não, faz com que tenhamos vontade de expressar esses temas que nos inquietam para este lado criativo e lúdico e de como podemos transformar as nossas inquietações em objetos, em formas, cores e imagens.

Como é que a partir de uma carta se constrói o argumento para uma narrativa?
Estive dois anos a pensar sobre isso. Primeiro porque era um tema relativamente próximo e delicado e, portanto, é necessário algum tempo para as ideias serem maturadas, ponderadas. Um dia pensamos numa coisa, noutro dia em outra e acho que há um tempo na criação e construção que precisa mesmo dessa maturidade. Precisei desse tempo e desse espaço para pensar naquilo que gostaria de abordar e o que gostaria de contar, qual seria a premissa e as coisas mais importantes. Esta narrativa começa a ser contruída com a premissa de que um pai deixou a carta a uma filha, então podia desenvolver qualquer história paralela a esta carta. A nossa memória e bagagem de vida leva-nos a construir em determinas direções. As minhas referências e as minhas memórias levaram-me a construir um personagem que se está a despedir da cidade, a dar um último passeio, um último olhar sobre tudo e a preparar a partida. Paralelamente, vamos ouvindo essa carta, que me foi deixada, em voz-off.

“É muito libertadora esta ideia de criar e construir”

As gravações do filme já terminaram. O que é que já pode desvendar?
As gravações já terminaram, mas ainda não consigo desvendar muita coisa. Só depois de ter o filme pronto é que consigo perceber qual o caminho e o resultado final. Todo este caminho já valeu a pena é extremamente interessante, desafiante e encorajador para outros projetos e para outras ideias que surjam. É muito libertadora esta ideia de criar e construir. Durante o processo de escrita, colaborei com o Edgar Medina, produtor e argumentista, que foi responsável pelo argumento e pela produção da série «Causa Própria» e da série «Sul». É um amigo de longa data com quem gosto muito de trabalhar. Ainda não há um nome, mas daqui a umas semanas já devo ter.

©Carla Pires

É mais fácil o papel de atriz ou o de realizadora?
Têm desafios diferentes e são posições muitos distintas. Não acho que haja um mais difícil ou mais fácil, como não há papéis (personagens) pequenos e grandes. A dificuldade encontramos sempre ao longo da nossa vida, nos vários projetos que integramos, ou pela temática, ou pela fase da vida que estamos a atravessar. Cada projeto é único e irrepetível. Há alturas em que estamos mais disponíveis para determinado projeto. Esta foi a minha primeira experiência como realizadora, portanto ainda não tenho um termo de comparação. Se me perguntarem como correu esta rodagem, posso dizer que foi uma belíssima rodagem, um processo muito libertador. Tive o privilégio e o luxo de trabalhar com uma equipa de excelência e senti-me muito bem acompanhada.

CURTAS

“As boazinhas são chatas.”

Além de ser atriz, que outras atividades a preenchem?
Ser espetadora de cinema, teatro… ser mãe, ser amiga, ser filha, ser neta e, claro, viajar.

Como descreve teatro numa palavra?
Vida.

Qual o papel que menos gostou de interpretar?
Não me lembro (risos). Tenho uma memória muito seletiva. Guardo as coisas boas e as não que foram boas tiveram a sua razão de ser e passo adiante.

Novelas ou Teatro?
Teatro.

Papel de vilã ou de «boazinha»?
Vilã. As boazinhas são chatas.

Mundo Meu ou Mar Salgado?
Esta é muito difícil. Tiveram uma grande importância na minha vida, mas talvez Mar Salgado.

Deu vida à juíza Ana Martins na série «Causa Própria»

A série «Causa Própria» foi um sucesso. De que forma preparou a personagem da juíza Ana, que descreveu como sendo “intensa” e “complexa”?
As personagens começam a crescer e a ganhar vida muito antes de começar a filmá-las. No caso de «Causa Própria», da juíza Ana, tive conhecimento que ia interpretar esta personagem dois anos antes de começarmos a filmar. Ao longo desse tempo, a personagem foi ganhando vida na minha cabeça, em conversas com o Edgar Medina, com o acompanhamento que pude fazer no Campus de Justiça de Lisboa. Acompanhei vários julgamentos e pude perceber como é o ambiente, qual é o tom, qual a formalidade que existe ou não no trato, a forma como as pessoas andam e comunicam. Há um lado de construção de personagem muito solitário, no caso da juíza Ana, mas acho que é geral. Ter conseguido também entrevistar uma juíza e esclarecer algumas questões me que inquietavam foi muito importante para ter uma perspetiva e visão de quem é da área.

Ser mãe ajudou-a de alguma forma a construir a personagem e a perceber os sentimentos da mesma?
Sim, a nossa bagagem de vida ajuda-nos sempre na construção dos nossos personagens. Quantos mais anos passam, mais ricos ficamos de experiências, quer de traumas, lutos, dias felizes, amores, paixões…Todo o conhecimento e experiências que vamos acumulando são, de certa forma, a nossa mochila.

É fácil deixar o estúdio de gravação e libertar-se da personagem que interpretou durante meses?
Sim. Adoro regressar a casa e voltar ao ninho. É importante, depois de terminar um dia mais cansada e emocionalmente mais desgastada, regressar a casa, estar junto da minha família que é o meu porto-seguro. Este desafio diário de vivermos outras vidas é maravilhoso, mas desligar e voltar à minha vida e à minha rotina é crucial.

MACAU

Macau “foi um capítulo da minha vida”

Mudou-se para Macau numa altura em que estava a ter um grande sucesso na ficção portuguesa e abriu uma mercearia portuguesa…
Não posso dizer que já não me lembro (risos)! Teve a ver com opções familiares e pessoais.

Que importância é que teve essa passagem por Macau?
A minha passagem por Macau teve uma grande importância na minha vida, principalmente em termos pessoais. Foi um capítulo da minha vida. Vivo um bocadinho assim, por capítulos e ciclos e, embora tenho sido importante, foi um ciclo que ficou arrumado.

Não começou a carreira no teatro, mas entre novelas, filmes e outros projetos, sempre guardou espaço para esta “grande paixão”…
O teatro teve um papel determinante na minha vida. Não me sinto, por exemplo, ainda preparada para encenar um espetáculo, mas adoraria ser assistente de encenação e estar desse lado, porque gosto de ver os trabalhos dos atores, gosto de ver um espetáculo a ser construído, as imagens de um encenador a serem colocadas em palco, a serem abordadas pelo coreógrafo, luminotécnico, sonoplasta…como é que esta ideias se materializam. Sempre gostei de estar de fora, a observar o que se estava a passar. Esta vontade de querer estar do lado de fora como observadora, como criadora, sempre me entusiasmou e sempre me desafiou.

Peça «Cochinchina» vai passar por vários palcos do País

Está agora nos palcos com a peça «Cochinchina»…
Estive em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite com a peça «Nem come nem deixa comer», entre setembro e dezembro do ano passado, e saltei de uma para a outra. Na semana em que estreei o espetáculo em Almada, comecei em ensaiar a «Cochinchina». Gosto muito do processo de construção. Por vezes, divirto-me mais no processo de ensaio do que no pós-estreia. O teatro dá-nos a possibilidade de construirmos e experimentarmos. Experimentar e falhar não é um errar, é um processo. Só dessa forma é que poderemos encontrar a verdade. As palavras no teatro ganham outra forma e gosto desse processo de discussão do texto.

Na minha vida, enquanto espectadora, saio sempre de uma sala de teatro inspirada e com questões e inquietações. É importante voltar ao palco para fazer esse exercício ao contrário. Acredito que, assim como o teatro tem uma grande importância na minha vida, tal também acontece com o resto das pessoas.

©Carla Pires

Sentia falta da adrenalina dos palcos e das aventuras nas digressões pelo País?
Acho muito importante a descentralização do teatro e este esforço de levar a arte a outros pontos do País, que não apenas Lisboa e Porto. Mais do que a adrenalina de viajar de mochila às costas, a ideia da digressão para mim é mais importante na medida da adaptação que temos de fazer ao espaço. Uma sala nova obriga a uma readaptação, o que torna tudo interessante e estimulante. Para mim, o importante é descentralizar a Cultura, poder partilhar os espetáculos com outras pessoas de outros pontos do País, onde nos debatemos com outras discussões e outros pensamentos. Um espetáculo que gera discussão e diálogo, gera também pensamentos. A equidade de um País está sempre na sua cultura e na sua educação e o teatro tem um papel determinante no crescimento e na nossa identidade enquanto cidadãos. É importante que se traga ao teatro o debate, a discussão dos mais variados temas, que geram diálogo e discordâncias e que isso nos faça caminhar para um pensamento individual ou coletivo.

CINEMA

Filme «Revolta» estreia em junho

A pandemia tem sido severa para o setor cultural e continua a ditar o adiamento de várias produções, como é o caso do filme «Revolta», dirigido por Tiago Santos, com a participação de Margarida Vila-Nova, cuja estreia marcada para fevereiro, acabou por ser adiada para junho. A atriz integra o elenco juntamente com Patricia Tavares e Ricardo Pereira, num filme que retrata um jantar de amigos, com confrontos e revelações, enquanto o Mundo lá fora lida com uma crise económica e uma revolta generalizada nas principais cidades do País. Margarida Vila-Nova explica que a produção “tem uma certa ligação ao teatro, porque todo o conflito é desenrolado dentro de uma casa”.
“Quando preparamos o filme, ensaiávamos como se fosse uma peça de teatro, um ensaio contínuo sem paragens, mesmo com o texto na mão. Isso servia para ganharmos balanço de cena para cena. Foi um método sugerido e proposto pelo realizador”, revelou.

“Saio sempre de uma sala de teatro inspirada e com questões e inquietações”

Que importância é que o teatro tem na sua vida?
O teatro é um lugar libertador, de criação, onde regresso sempre e me coloco em questão. Para mim, o teatro tem este papel importante de partilharmos em grupo as nossas inquietações, os medos e fobias. O teatro é sempre uma relação a dois, entre o ator e o público. Esse diálogo silencioso faz gerar um pensamento e uma discussão. É um espaço lúdico e, ao mesmo tempo, sagrado, onde a forma como os textos são levantados é um assunto sério e de uma enorme importância para mim. Na minha vida, enquanto espectadora, saio sempre de uma sala de teatro inspirada e com questões e inquietações. É importante voltar ao palco para fazer esse exercício ao contrário. Acredito que, assim como o teatro tem uma grande importância na minha vida, tal também acontece com o resto das pessoas.

© José Frade/EGEAC

Sente que em Portugal há um desamor e desvalorização por esta arte?
Sim, de uma maneira geral não tem sido, nos últimos anos, apoiada e respeitada. Aos meus olhos, não foi ainda reconhecida a importância que o teatro e a cultura têm no nosso País.

Quando as cortinas se fecham qual é o sentimento?
Acho que é de paz.

Assumiu, recentemente, numa entrevista que está serena e sem pressa. É assim que quer continuar a viver?
Sim, é o melhor lugar em que podemos estar quando atingimos algum equilíbrio e paz interior e deixamos de ter pressa de provarmos a nós próprios e aos outros. A maturidade e tranquilidade com que as coisas se vão construindo, acho que é o melhor lugar do Mundo. É o princípio de um caminho muito mais sereno e produtivo da vida.

CURIOSIDADES

• Estreou-se aos 5 anos, numa longa-metragem francesa;
• Recebeu formação no teatro com Micahel Margotta em 2002;
• Com 20 anos criou a produtora «Magnificas Produções» e produziu várias peças de teatro de sucesso;
• Mudou-se para Macau, em 2011, onde abriu uma mercearia portuguesa;
• Em 2020 venceu o prémio de Melhor Atriz de Cinema, da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) com o filme «Hotel Império».

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