19 Setembro 2021, 08:28

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo a paixão tem?

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Nunca me pareceu ser o amor um desígnio da sorte, acima de tudo, um compromisso perene que a converter-se em vida partilhada, nos concede o privilégio de envelhecer a duas almas.

Na vertigem do desassossego, o fogo dos dias que reservamos à paixão.

Solo fértil de vontades que não podem esperar, de nós cegos no estômago, de ausência de apetite, de energia roubada ao bater desenfreado do coração, do apogeu do «Carpe Diem», de noites de sonhos acordados, de sorriso tatuado que deita por terra a crença que o músculo não tem memória.

Quanto tempo dura?

A doutrina diverge: estudos afirmam que a correr bem voa a pique por dezoito meses, a correr extraordinariamente, plana pelo menos por três anos.

Afirmam os percursores da Ciência que o cérebro é o protagonista deste enredo.

Áreas específicas são ativadas e uma explosão incontrolável de neurotransmissores como a dopamina e a norepinefrina eclodem num fluxo contínuo, só comparável a fogo de artifício em noite de celebração de campeonato.

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Surge mormente com a arrogância da eternidade, entre olhares intermináveis em conversas de silêncios e cumplicidade.

Não somos nós que a abarcamos, antes espaçosa, expande-se como uma raiz tubular e ainda que chegue sem livro de instruções e prazo de validade, acalentamos a esperança de nunca a ver partir.

Imperdível combustão neuroquímica esta que nos permite tocar o céu, alhearmo-nos dos outros e do mundo em permanentes intermitências de luz e vastidão.

A escuridão não tem lugar aqui, nem o medo ou as angústias, somente uma vontade hedonista de materializar o prazer.

Poucas coisas existirão tão viciantes, elevamos o ser amado ao estatuto da perfeição, colamos o telemóvel à pele (não vá ligar pela vigésima vez), o ar parece rarefeito no preâmbulo de um beijo, a concentração e o sono ficam reduzidos a estilhaços e em momento algum desejamos aquietar a adrenalina ou extinguir a combustão neuroquímica.

Nesta espécie de encantamento, acreditamos que o fogo que experimentamos não é passível da função copiar e colar, antes um privilégio único que só a nós cabe, na amplificação de tamanha lotaria.

Esta abençoada fortuna não se compadece com lume brando, os condimentos do erotismo são a lareira acesa, as conversas intimistas, o vinho entornado na procura das mãos, os gestos fortuitos e eletrizantes, a convulsão desalinhada da expectativa e a certeza de que a história que merece a pena viver resvala profeticamente para o excesso.

Insano seria não a exaltar, não fazer dela matéria orgânica, não lhe conferir tempo para execução, sendo que no rescaldo, é necessário muito empenho e coragem para ser feliz.

Se tivesse como me pendurar nos ponteiros do relógio, é provável que regressasse ao século XIX, quando o romantismo era uma prática refinada, os amantes morriam por amor e mesmo quando tudo dava errado, o infortúnio de se padecer, mais que se justificava pela proeza de o viver.

Multiplicavam-se à época corações que sentem em detrimento dos que racionalizam, tanto melhor assim, já que a dor sempre foi substrato e caminho para a narrativa.

E a paixão por fim, esvazia-se de repente, prescreve, tropeça no desuso?
A transição faz-se num sopro demasiado rápido para tantos que jamais almejaram confiná-la ao estatuto de sombra do amor.

Este, altivo e soberano, convida-a a abrigar-se num espaço depurado e impoluto pela memória idealizada do tanto que foi.

Haverá sempre um invólucro que a protege, um consolo justo, assente na lei do retorno, uma vez que a ser verdade, a vida dá de volta o que lhe entregamos e se semeamos temos o direito de colher.

Antes pudesse ser reinventada, de novo sentida, mas por não ser invencível, esmorece na passagem dos meses, na diminuição da expectativa, no bater das asas das borboletas para outra barriga, no crepúsculo da descoberta, na validade sentenciada.

O que se segue?

Se afortunados, um país chamado amor, porventura melhor anfitrião que a paixão, terra que tudo abarca e aporta.

Solo maduro que recebe sem apelo nem agravo as imperfeições, o rosto sem maquilhagem, o avesso, os pelos brancos da barba, a discórdia, as rugas, os amuos, os tropeções, mas também a soma dos dias, as conquistas, as alegrias, o proveito da história inteira.

Nunca me pareceu ser o amor um desígnio da sorte, acima de tudo, um compromisso perene que a converter-se em vida partilhada, nos concede o privilégio de envelhecer a duas almas.

A ser inteiro e verdadeiro, arde ainda num fogo lento e sábio.

A arte de lhe acrescentar sal e especiarias, apruma-se no respeito pela consistência do ponto, pelo período de cozedura que requer, pelo apurar do sabor.

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo a paixão tem?

Porventura o necessário para edificar o amor e o suficiente para lhe sentirmos tanto a falta.

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